| Caudalosa,
recortando as palavras
eis a poeta, ficcionista e dramaturga
Hilda Hilst, uma das maiores escritoras brasileiras
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Caudalosa,
recortando as palavras
eis a poeta, ficcionista e dramaturga
Hilda Hilst, uma das maiores escritoras brasileiras
Ana
Lúcia Vasconcelos
“... e uma noite, lendo sobre as estruturas políticas, o
corno das ditaduras no ventre dos humildes, a anatomia intrincada dos
homens do poder pensei que uma palavra devia chegar aos homens, que era
inútil ficar olhando para cima e para baixo te buscando e então
sentei-me e escrevi durante dez noites a palavra amor, cem mil páginas,
cem mil, coloquei o calhamaço num caixote com rodinhas postei-me
numa esquina e a todo aquele que passava eu entregava uma folha e dizia
Amor Amém. Cão de Pedra, como a cidade riu. As mulheres
desabotoavam a blusa à minha frente e gritavam: Vem, Amor, Kadosh.
Os homens cuspiam na minha cara: vai arriando as calças amor amor.
Corri, quebrei os tornozelos, vivi noventa dias no caixote com rodinhas,
o traseiro em brasa sobre o calhamaço amor amor. Que nojo. Que
vergonha.”
Escrever não era fácil para Hilda Hilst, a autora deste
fragmento belíssimo que aí está. Ela sofria as angústias
de uma pessoa que vai ser operada. Transpirava, pedia proteção
aos deuses, alisava as fotos de Kafka que ficavam diante de sua mesa de
trabalho, suas pedras de ágata, enfim seus objetos queridos, dotados
para ela de alguma magia particular. Mas isso só depois de todo
um ritual de leituras, semanas, meses, anotando idéias de ensaios
filosóficos, políticos, metafísicos, textos que possuíam
o dom “de excitar os seus neurônios” como ela costumava
dizer.
Quando escrevia poesia, me disse que o processo já era diferente:
a coisa vinha no nível da palavra inspiração. “De
repente, alguma coisa modifica o ritmo e surge todo um clima que propicia
a chegada do poema”.
“Eu tenho uma pulsação meio difícil de traduzir,
o tempo todo olhando as coisas, de manhã, de tarde, de noite. E
então acho um absurdo tudo. Acho a vida uma coisa absolutamente
espantosa e fico tentando um equilíbrio entre o plano mental e
emocional, numa quase vertigem passional diante do mundo. Enquanto a coisa
está no cotidiano me perguntando sobre a vida, a morte, eu vou
indo muito tensa e muito desconfortavelmente. Mas chega um momento em
que é preciso escrever senão tudo vai ficando cada vez pior
dentro de mim. É neste momento que sinto um medo muito grande de
não saber traduzir a singularidade deste estado tensional, conseguir
uma linguagem paralela a este estado tensional”.
Diga-se que a escritora não tinha medos infundados. Não
quanto à “traduzir este singular estado de tensão”,
isso parece que conseguiu admiravelmente já que é considerada,
uma das mais altas vozes poéticas do país e uma inovadora
da linguagem de ficção. O crítico Leo Gilson Ribeiro
a considerava mesmo o “maior escritor vivo em lingua portuguesa”.
Mas justamente por isso, por ter conseguido este tão alto nível
de linguagem, Hilda Hilst era tida pelo grande público como uma
escritora hermética, difícil e consciente desta problemática,
Hilda admitia que gostaria de expressar-se como seria conveniente para
o ouvido do outro: “gostaria de ser toda mais stacatto, mas comedida,
nas emoções, mesmo no meu existir diário”.
Esta vontade, aliás, está impressa na sua obra: “pudesse
livrar-me da maior espiral que me circunda e onde sem querer me reconstruo/
Livrar-me de todo o olhar que quando espreita, sofre/ O grande desconforto
de ver além dos outros/ Tendo tido este olhar. E uma treva de dor/
Perpetuamente/ Do êxodo dos pássaros dos mais tristes dos
cães/ De uns rios pequenos morrendo sobre um leito exausto/ Livrar-me
de mim mesma. /...”.
Mas
admitia que, não conseguia este equilíbrio, “talvez
na velhice eu consiga” dizia sorrindo. “E na hora de escrever
sai então o descontrole. É como se você abrisse uma
torneira que há novecentos anos está querendo explodir.
Sai aquela água barrenta... Mil socos na torneira.”
Vinha daí sua grande admiração pelo escritor sueco
Päar Lägerkvist (Barrabás, Sibila, A Morte de Ashaverus,
O Anão, e outros) que segundo ela, conseguia dizer, de uma maneira
delicada, sóbria e numa narrativa arrumada, as coisas que ela também
queria expressar. Seus temas são semelhantes, suas buscas do mais
profundo do ser humano, suas perguntas sobre a vida, o amor, a morte,
“o possível divino que você não sabe o que é,
mas do qual pressente um sumo sagrado em algum lugar”. Mas acreditava
que colocava uma tensão muito alta nos seus textos, enquanto Lägerkvist
conseguia contar com uma serenidade ideal. “Eu não consigo
este tipo de narrativa, tenho uma vontade de expulsão demasiada.
As coisas ficam muito rápidas e intensas. Aí a pessoa lê
e fala: ‘ meu Deus o que aconteceu afinal? ’ É como
se fosse uma araponga no ouvido do outro”.
De qualquer forma acreditava que no seu: Pequenos Discursos e um grande,
por exemplo, conseguiu alguma coisa neste sentido. “Não que
eu tenha feito um esforço para que o leitor me compreenda, ai seria
falso, mas já tenho uma fala com este tipo de contração
da coronária”. E por causa desta dificuldade, Hilda admitia
que escrevesse muito devagar: “Às vezes demoro quatro horas
para escrever trezentas palavras”. Não obstante sua bibliografia
é considerável, e quando morreu, em 4 de fevereiro de 2004,
ás vésperas de completar 74 anos de idade, deixou um legado
precioso de 41 livros de poesia, teatro e ficção, que estão
sendo traduzidos e publicados na França, Itália, Espanha,
Inglaterra e Alemanha.
A
obra vasta e
deslumbrante
Não obstante sua bibliografia é considerável, sua
obra é vasta, densa, deslumbrante, e ela começou muito cedo
com Presságio, seu primeiro livro de poemas, escrito
aos 18 anos foi publicado em 1950 quando ela tinha 20. Na seqüência
vieram: Balada de Alzira (1951); Balada do Festival;
(1955), Roteiro do Silêncio (1959); Trovas
de Muito Amor para um Amado Senhor; (1960) Ode de Fragmentária
(1961); Sete Cantos do Poeta para o Anjo; que
ganhou o Premio Pen Clube de São Paulo de 1962-, composto de Exercícios
para Uma Idéia; Pequenos Funerais Cantantes ao poeta Carlos Maria
de Araújo (1967) que foi musicado pelo compositor de musica
erudita contemporânea José Antonio Almeida Prado com o titulo
Pequenos Funerais Cantantes. Anote-se que com que esta
obra Almeida Prado ganhou o prêmio que segundo me contou foi importantíssimo
para sua carreira: uma viagem de estudos para Santiago de Compostela,
que ele depois esticou para Paris onde ficou cinco anos, e que confessa,
foram os melhores e mais importantes anos da sua vida e carreira.
Ainda em 1967 publica Poesia (1959-1967) pela Editora
Sal de São Paulo e importante: neste mesmo ano de 1967 Hilda começa
a escrever teatro sendo que até 1969 produziu nada menos que oito
peças: A Possessa (A empresa), O Rato no Muro, O visitante,
Auto da Barca de Camiri, O novo sistema, As aves da noite, O verdugo (foi
Prêmio Anchieta de 1969 ) e A morte do patriarca.
As peças O visitante e O rato no muro foram encenadas
sob direção de Tereza Aguiar pelo Grupo de Teatro da Escola
de Arte Dramática (que atualmente é a ECA da Universidade
de São Paulo) e apresentadas no Teatro Anchieta (SP), em 1968.
O Rato No Muro foi apresentada ainda no Festival de Manizales,
(na Colômbia), em 1969.
Tereza Aguiar dirigiu ainda O Novo Sistema, encenada
no Teatro Veredas em São Paulo, em 1970. As mesmas peças
foram apresentadas por outras companhias: Grupo Experimental Mauá-Gema,
Grupo de Teatro Núcleo/Universidade Estadual de Campinas.
O Verdugo com direção de Nitis Jacon Moreira
foi apresentada na Universidade Estadual de Londrina, em 1972, e no ano
de 1973, no Teatro Oficina em São Paulo, com direção
de Rofran Fernandes. As Aves da Noite foi levada à
cena em 1980 com direção de Antonio do Valle no Teatro
Ruth Escobar em São Paulo e em 1982 com direção
de Carlos Murtinho no Teatro Senac do Rio de Janeiro.
O Rato no Muro com direção de Silvano Ferreira
foi encenada em 1984 no Teatro do Sesc - Cascavel, no
Paraná e A Morte do Patriarca estreou em Campinas,
encenada pela Oficina de Estudos Teatrais, com direção
de Adolfo Mazzarini, no Teatro do Sesc-Bonfim, no ano
de 1991.
Em 1970, com Renina Katz, Hilda fez o livro Renina Katz: serigrafias.
Poemas de Hilda Hilst (São Paulo, César), que segundo
Mora Fuentes “era uma espécie de livro objeto lindíssimo”
Neste mesmo ano começou a escrever seus textos de ficção
num fluxo contínuo: Fluxo-Floema (Editora Perspectiva,
SP, 1970) composto de cinco textos cujo gênero o critico e professor
de literatura da Unicamp Alcir Pécora acha difícil enquadrar:
Fluxo, Osmo, Lázaro, O unicórnio, Floema.
Em 1973 lança Qadós (que passou a ser grafado
Kadosh, quando a Editora Globo passou a editar suas obras completas em
2001 por decisão da própria Hilda), com capa de Maria Bonomi,
(Edart, SP, 1973) composto de quatro novelas: Agda,Qadós,
Agda II, O oco.
Ficções é editado em 1977 com capa
de Mora Fuentes pela Edições Quiron ( SP, 1977) reunindo
toda sua obra de prosa até aquela data: os cinco textos de
Fluxo Floema, os quatro textos de Qadós mais
um: Pequenos Discursos e Um Grande, que ganhou o Prêmio
da Associação Paulista de Críticos do Estado de São
Paulo (APCA) de Melhor Livro do Ano em 1977. A partir de 1974 Hilda Hilst
escreve alternadamente livros de poesia e prosa. Assim vamos ver publicados:
Júbilo, Memória, Noviciado de Paixão,
livro belíssimo de poemas (Massao Ohno Editor, SP, 1974) e em 1980,
outra pequena obra prima de ficção: Tu Não
Te Moves de Ti composto de três novelas: Tadeu
(da razão), Matamoros (da fantasia), Axerold (da proporção)
editado pela Livraria Cultura Editora, SP. Matamoros
foi adaptada para o teatro sob o titulo Maria Matamoros
por Tereza Mendes e encenada em 1991 no Teatro Brasileiro de Comédia
(TBC) em São Paulo.
No ano de 1980 Hilda publica outro livro de poesia: Da morte.
Odes mínimas (Massao Ohno/Roswifna Kempf/ Editores,
SP) com ilustrações da autora, e um volume reunindo toda
a obra poética: Poesia (1959-1979) editada pelas
Edições Quiron / INL/MEC-SP, Brasília. Ainda em 1980
surge mais um livro de poesia: Cantares de Perda e Predileção
(Massao Ohno-M. Lygia Pires e Albuquerque Editores, SP) que ganhou dois
prêmios importantes: O Jabuti de 1980, da Câmara
Brasileira do Livro (o mesmo livro seria agraciado com o prêmio
Cassiano Ricardo do Clube de Poesia de São Paulo
em 1985). Em 1981 ganha o Grande Prêmio de Literatura
por sua Obra completa da APCA -Associação
Paulista dos Críticos de Arte do Estado de São Paulo.

No ano de 1982 a escritora publica um livro de prosa A Obscena
Senhora D (Massao Ohno Editores, SP) sendo que em 1984, lança
novo livro de poesia: Poemas Malditos Gozosos e Devotos (Massao
Ohno/Ismael Guarnelli, SP, com capa de Tomie Ohtake). Em 1986 Hilda publica
outro volume de poesia: Sobre a Tua Grande Face com grafismos
de Kazuo Wakabayashi, artista nipo-brasileiro, uma grande reflexão
sobre Deus (Massao Onho Editor, SP).
Com Meus Olhos Cão e outras novelas (Brasiliense,
SP), prosa, é publicado em 1986 sendo que em 1989 o publico amante
das suas obras tem o prazer de ver outra preciosidade em poesia:
Amavisse (Ter um dia Amado) composto de três momentos:
Amavisse, Via Espessa e Via Vazia (Massao Ohno Editor,
SP, com capa de Cid de Oliveira), sendo que alguns poemas foram musicados
pelo José Antonio Almeida Prado.
Em 1990 Hilda Hilst cansada de ser lida por apenas alguns iniciados mesmo
sendo considerada uma das grandes escritoras do Brasil e a esta altura
já estar sendo reconhecida também fora do país e
com total consciência da importância do seu trabalho, resolve
dar uma guinada na sua carreira de escritora séria e publica uma
trilogia erótica composta de O Caderno Rosa de Lory Lamb
com 27 ilustrações de Millôr Fernandes (Massao Ohno
Editor, SP), Contos d’escárnio textos grotescos
(Siciliano, SP) e em 1991 Cartas de um sedutor (Editora Paulicéia,
SP), fato que provoca um certo frisson na critica e alguns
dissabores entre os seus amigos que consideram aquele ato desnecessário
para sua afirmação no cenário literário nacional
e mundial e algumas rupturas mesmo com velhos admiradores.
Mas é justamente esta estratégia que vai tornar sua obra
conhecida a partir de então e vai chamar a atenção
de pessoas que até então, conheciam muito pouco do seu maravilhoso,
inovador e rico trabalho. Ela literalmente é descoberta pela mídia
e pelos leitores mesmo sendo considerada agora “uma escritora pornográfica”.
Hilda Hilst finalmente estava sendo lida, era o reconhecimento afinal
que se prenunciava e que havia sido tão desejado e acalentado por
ela e por seus leitores fiéis, que igualmente queriam que ela fosse
lida e tivesse dissipada para sempre a imagem de escritora maldita e difícil.
Na verdade o que ela sempre fez foi uma prosa e uma poesia de alto nível
e ainda naqueles tempos, havia um preconceito contra literatura deste
alto teor metafísico. O público preferia -grande parte ainda
prefere -textos mais facilmente digeríveis.
Entre 1990 e 1992, Hilda lança três novos livros de poemas:
Alcoólicas (Maison de Vin, 1990, SP, com xilogravura
da capa de Antonio Pádua Rodrigues e ilustrações
de Ubirajara Ribeiro), Bufólicas, (Massao Ohno,
1992, com capa e desenhos de Jaguar) e Do desejo (Pontes,
Campinas, 1992 , com capa de João Baptista da Costa Aguiar). Em
1993 é publicado um volume de prosa: Rútilo Nada
que reúne além do conto que dá título ao livro,
as novelas Kadosh e A obscena senhora D
(Editora Pontes, Campinas, 1993, com capa de Mora Fuentes e Olga Bilenky,
com o qual a escritora ganha O Premio Jabuti da Câmara
Brasileira do Livro).
Em 1995 a escritora agora sendo lida, lança Cantares do
sem nome e de partidas (Massao Ohno, SP, com
capa de Arcangelo Ianelli), poesia, e vende parte dos seus arquivos para
o Centro de Documentação Alexandre Eulálio
do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp. Em 1997 publica
Estar sendo. Ter sido, (Nankin Editorial, SP e 2ª.
Edição em 2000, com capa de Claudia Lammoglia, foto da capa
de Catherine A. Krulik e ilustrações de Marcos Gabriel),
prosa. Em 1998 reúne suas crônicas publicadas no Jornal Correio
Popular de Campinas (SP) no livro Cascos e Carícias: crônicas
reunidas (1992-1995, capa de Claudia Lammoglia e foto de J. Toledo,
pela Nankin, SP, 1º. Edição e 2º. Edição
em 2000) e em 1999 publica uma coletânea de poemas no livro intitulado
Do amor (Massao Ohno, SP) com capa de Arcangelo Ianelli,
prefaciada e organizada por Edson da Costa Duarte Clara Silveira Machado.
Neste mesmo ano de 1999 ganha sua primeira página na Internet:
http://www.angelfire.com/ri/casadosol/hhilst.html
criado pelo escritor Yuri V. Santos. Em Outubro de 1999
Hilda Hilst foi tema dos Cadernos de Literatura Brasileira
onde Rinaldo Gama e Antonio Fernando de Franceschi, entrevistam os amigos
e críticos: Lygia Fagundes Telles, Carlos Vogt e Caio Fernando
Abreu sobre sua obra com belíssimas fotografias de Eduardo Simões.
Algumas obras de Hilda Hilst entraram em coletâneas: Canto
Terceiro, XI (Balada do Festival), na Ontologia Poética
da Geração de 45 em São Paulo pelo Clube do Livro
em 1966; Poeti brasiliani contemporanei com prefácio
e seleção de Silvio Castro Veneza pelo Centro Internazionale
della Gráfica di Venezia em 1997; Agüenta coração,
in Flávio Moreira da Costa. Onze em campo e um banco de
primeira, 2 ed. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1998.
Rutilo nada foi publicado na Antologhie de la
poésie brésiliènne organizada pela poeta,
escritora e dramaturga Renata Pallotini com tradução de
Isabel Meyrelles em Paris: Chandeige, em 1998. Gestalt
foi publicado em Os Cem melhores contos brasileiros do século
(coleção organizada por Ítalo Moriconi, Rio de Janeiro,
Objetiva, 2000). Do desejo (fragmentos) e Alcoólicas
(fragmentos) foram publicados em Os cem melhores poemas brasileiros do
século (in Moriconi, Rio de Janeiro: Objetiva, 2000). O poema XLIX
do livro Do desejo foi publicado ainda em coletânea organizada por
José Neumâne Pinto pela Geração Editorial em
2000.
Algumas de suas obras foram traduzidas para o francês: Contes
sarcastiques-fragments erótiques com tradução
de Maryvonne Lapouge – Petarelli pela Gallimard, de Paris, em 1994,
L’obscène madame D suivi de Le chien, em
1997, da mesma tradutora e mesma editora, Agda (fragmento)
em Brasileiras com organização de Clélia Isa e Maryvonne
P-L; Sur ta grande face, tradução de Michel
Riaudel. Pleine Marge, Paris maio de 1997; Da morte. Odes mínimas/
De la mort.Odes minimes-Edição bilíngüe
com tradução de Álvaro Faleiros e ilustrações
de Hilda Hilst-São Paulo e Montreal: Nankin/Noroit, em 1998.
Para o italiano foi traduzido Il quaderno rosa di Lori Lamby
com tradução de Adelma Aletti, editora de Milão:
Sonzogno em 1992. Para o espanhol Rútilo Nada
com tradução de Liza Sabater. De azur, Nova York em junho
de 1994.
Alguns poemas tiveram versão para a língua inglesa:
Two Poems com tradução de Eloah F. Giacomelli in
The Antigonish Review, em 1975 e Glittering Nothing (Rutilo
Nada) com tradução de David William Foster na Urban
Voices: Contemporary Short Stories from Brazil pela University
Press of América, em Nova York em 1999.
Para o idioma alemão Hilda Hilst teve até o momento, traduzidas
algumas obras e fragmentos: Mechthild Blumberg traduziu Cartas
de um sedutor (fragmento) que foi publicado com o titulo: Briefe
eines Verführers, in Stint Zeitschrift für Literatur,
em Bremen em outubro de 2001; Funkelndes Nichts (Rútilo
nada) e Vom Tod. Minimale Oden, (Da Morte. Odes mínimas),
com tradução de Curt Meyer-Clason e publicados in Modernismo
Brasileiro und brasilianische Lyrik der Gegenwart, Berlim, 1997.
Seu teatro ficaria inédito em livro até o ano de 2000 quando
a Nankin de São Paulo lança Teatro Reunido I,
sendo que neste ano estréia em Brasília uma adaptação
para o teatro de Cartas de um sedutor, e na Casa de Cultura
Laura Alvim no Rio de Janeiro, é apresentado o espetáculo
HH Informe-se, composto de alguns textos da autora entre
dezenas de outros, já que a partir de um certo momento os diretores
de teatro do Brasil começaram a descobrir a maravilhosa teatralidade
da sua prosa.
Em 2001 a Editora Globo passa a ser responsável por toda a sua
obra publicada até o momento, respeitando-se os prazos vigentes
com as outras editoras e começa a publicar todo seu trabalho em
poesia, teatro e prosa com algumas mudanças em relação
aos livros publicados anteriormente. Ou seja, as obras foram reagrupadas
de forma um pouco diferente. Em 2002 Hilda Hilst recebe da Fundação
Bunge, o Prêmio Moinho Santista pelo conjunto da sua obra poética
e em 2002, a poeta, no auge de sua carreira ganha o Grande Prêmio
da Critica pela reedição de sua obra pela Editora Globo.
Sobre esta fértil diversidade, o crítico Anatol Rosenfeld,
mesmo conhecendo parte da sua obra, já que morreu na década
de 1970, escreveu: “É raro encontrar no Brasil e no mundo
escritores ainda mais neste tempo de especializações que
experimentam cultivar os três gêneros fundamentais na literatura:
a poesia lírica, a dramaturgia e a prosa narrativa alcançando
resultados notáveis nos três campos. A este grupo pequeno
pertence Hilda Hilst”. Em fevereiro de 1985 o austero Le
Monde parisiense confirmava as palavras de Rosenfeld. O articulista
escreveu: “A Obscena Senhora D, prosa e Da
Morte Odes Mínimas, poesia, são os cumes da escritura
literária”.
Escritura intrincada
Os escritores em geral têm pudores de falar da própria obra.
Consideram que já se disseram na sua obra e basta sua leitura para
serem compreendidos. Isso nem sempre funciona, especialmente no caso da
“escritura”, densa, intrincada, altamente simbólica
de Hilda Hilst. Daí que o conhecimento de certas circunstâncias
da vida podem clarificar muito o entendimento da sua obra - por exemplo:
como ela descobriu a vocação de escrever, como surgiram
os primeiros poemas, qual foi enfim a “campainha de disparo do escritor?”.
Hilda acreditava que várias situações podem levar
a pessoa a escrever: a vontade de viver o transitório com intensidade
e talvez a figura de alguém da família. Pois foram exatamente
essas coisas que fizeram Hilda Hilst começar a escrever. De modo
especial as figuras do pai e da mãe: duas forças impulsionadoras
da sua literatura. A mãe, a beleza a ternura, o pai, o trágico
porque é jornalista, poeta de talento preocupado com a questão
social, que morreu louco.
“Meu pai ficou na minha memória como uma figura de muita
realeza porque conservei a imagem que minha mãe fazia dele. A figura
do louco eu apaguei. Ele era um homem de grande inteligência que
fazia perguntas perigosas: ‘como será a alma na loucura?
’ Ele deve ter tido a resposta.” Já a mãe, ficava
preocupada com o fato de Hilda ser poeta: temia que ficasse como o pai.
Ela dizia: “ As pessoas não compreendem os poetas”.

Na
verdade talvez a mãe da Hilda estivesse com razão. Os homens
racionais demais, em geral não entendem mesmo os poetas. E Hilda
Hilst muito nova, adolescente, aos 18 anos já escrevia num de seus
primeiros poemas: “Tenho preguiça pelos filhos que vão
nascer/ Teremos que explicar tantas coisas a tantos deles/ As mães
não querem mais filhos poetas/ Deram um grito desesperado das mãos
do mundo”.
Hilda diz se lembrar muito bem de como começou a escrever. Gostava
muito de ler e tinha uma vontade de se expressar de alguma forma. “Aos
dezoito anos comecei a escrever meus primeiros poemas, e o primeiro livro
chamava Presságio. Eu sabia que tinha escolhido
esse caminho e achava que um dia ia ser um grande poeta, uma grande escritora.
Eu sabia lá dentro de mim e não tenho pudor de dizer que
eu acho meu trabalho muito bom. E desde aquele tempo eu já sabia
que era um caminho definitivo para mim. Só que eu queria aproveitar
a vida, minha mocidade, o que eu tinha de bonito. Queria que as emoções
passassem todas por mim antes de me dedicar a escrever, com o afinco desesperado
como depois me dediquei. E fui então me emocionando demais com
tudo, fui amando demais e hoje posso dizer que já tive todas as
emoções que desejei ter. Se eu me apaixonava por uma idéia
ou por uma pessoa, eu fazia com que essas coisas ficassem perto de mim
de qualquer forma. Eu não abdicava nunca do que eu realmente desejava
e queria”.
Hilda lembra que um dia ouviu alguém dizer que escrevia por debilidade
e ela ficou atraída por esta palavra e teve afinal um insight
sobre seu oficio. “É uma sensação de debilidade
mais que de força o ato de escrever. É uma necessidade tão
grande que se tem de se espelhar em alguma coisa de não se sentir
muito isolada, porque desde menina eu me sentia sempre alguma coisa diferente
dos outros. Eu sentia uma compaixão muito grande ia pelas pessoas,
pelos animais, pelo mundo, pela vida. Eu olhava as coisas e já
me vinha esse pensamento: que pena tudo tão impressionante tão
bonito e depois parece que essa árvore vai emurchecer, a folha
vai cair, o cachorro que está vivo e bonito daqui a pouco vai ficar
velhinho e então vai morrer e eu também com tudo que eu
imagino e sinto também vou acabar. Eu não tinha um vigor
suficiente, vamos dizer, para ouvir notícias, doenças, mortes,
desgraças, ficava mal ao ver que as coisas não eram mais,
não estavam mais ali”.

Hilda
lembra também que tinha a mania de ficar sozinha, não ficava
brincando com os outros como em geral as crianças fazem. Mas ao
mesmo tempo era esportista, pulava distância, pulava altura, não
ficava doentiamente fechada. Mas quando estava com as suas coisas, preferia
ficar sozinha, não tinha vontade de partilhar aquele brinquedo
com ninguém. “Então eu ficava examinando as coisas,
tinha mania de examinar os bichos pequenos, os insetos, olhar as árvores,
as plantinhas. Era mais observadora e tinha uma curiosidade também,
perguntava muito. Até hoje eu não perdi a necessidade de
perguntar. Na Obscena Senhora D o Ehud diz para Hillé:
‘vais ficar triste de teres perdido o tempo com perguntas, pensas
como serás aos sessenta, eu estarei morto, porque? causa mortis?
Acúmulo de perguntas de sua mulher Hillé.”
Enfim ela constata que isso era uma vontade de conhecer, de saber tudo,
apesar da infância ter sido sofrida, foi educada num colégio
interno, o Santa Marcelina, São Paulo, Brasil, havia a saudade
da mãe, muito poderosa e que foi também muito bonita e ela
era muitíssimo afetiva, muito carinhosa. “Minha mãe
tinha uma paixão muito grande por mim. Eu fiquei interna no colégio
porque meu pai ficou doente, minha mãe separou-se e foi morar em
Santos. Foi um momento difícil porque eu tinha verdadeira idolatria
por minha mãe”.
A vivência no Colégio Santa Marcelina em São Paulo
aparece na sua poesia: "a menina nos longos corredores do colégio/
Não havia solidão igual à minha”. E em duas
de suas peças: A Possessa e O Rato no
Muro. A solidão, o silêncio do claustro (ninho-masmorra)
de Qadós, aparece subjacente em toda sua obra. E quem conhece a
casa de Hilda Hilst sabe que ela parece um mosteiro, com seu pátio
interno, seus corredores e arcos. Com o tempo a poeta descobre que as
pessoas não compreendem os poetas. (Apesar disso seguiu seu caminho:
“à procura da rosa, causando as criaturas estranheza / se
me encontrares / Terei um jeito de flor / E um não sei quê
de brisa / Nos meus ares / Hei de buscar a rosa / A dos altares / E sinto
graça nos pés / Leveza nos andares”).
É verdade que nem sempre com esta leveza a poeta andou. Muitas
vezes refletiu se não seria melhor as órbitas vazias? /
Será eterno o júbilo de ter / Espátulas e nume /
Nas mãos e no ser?”Muitas vezes a poeta se lamenta de ser
assim, de carregar as dores do mundo: “cansa-me ser assim quem sou
agora / Planície, monte, treva, transparência/...”.
Mas intuía que este olhar “através dos outros / era
inexoravelmente sua vocação. Não haveria libertação:
“Queres o verso ainda? Assim seja / Mas viverás tua vida
nesses breus”. Mas a dúvida persiste: “Tão grande
ambivalência / Concedida aos homens / Terá sido dos deuses
complacência?”.
Deus era outra mania que a escritora confessa ter tido sempre. “Eu
gostava de ficar na capela do colégio. Eu queria me aproximar da
idéia de um Deus que tenha sido o executor de tudo, desse mundo
que é tão notavelmente paradoxal e cruel. E essa mania eu
não tirei nunca da minha vida: quer dizer, de existir uma potencialidade
qualquer que você nomeia de algum nome e eu o nomeio Deus de vários
nomes: Cara Escura, Sorvete Almiscarado, Grande Obscuro, O Sem Nome, o
Mudo Sempre, o Tríplice Acrobata. É uma vontade de estabelecer
um intercâmbio com essa força muito grande, porque eu não
acredito que as coisas acabem assim”.
“Não posso acreditar que tendo sentido tudo o que eu senti
tendo visto tudo que eu ví, tendo tido essa compaixão de
espremer o coração e as vísceras de repente simplesmente
vou para terra apodreço e fim, zero, terminou. Então desde
menina essa era uma interrogação constante. A morte me abalava
muito. O que é morrer? Mas como morreu? As crianças normalmente
se perguntam sobre isso, mas acho que essas coisas me abalavam demais”.
“Essa compaixão que não me deixava saborear a vida
com muita intensidade. O fato de sermos feitos de carne, termos vísceras
e sangue e essa compulsão de ficar olhando e pensando que coisa
impressionante tudo se movendo dentro de você e aí tudo termina...
Talvez isso tenha feito com que eu ficasse com vontade de passar para
o outro. E escrever é essa explosão de dizer as coisas como
acho que elas devem ser ditas, para passar para o outro a intensidade
a perplexidade do ser humano completamente incendiado de emoções,
de procuras de perguntas e buscas”.
Ambivalente
e excessiva
Depois, na adolescência Hilda admitia ter ficado encantada com as
emoções do amor, com as aventuras, pois era uma pessoa muito
aventurosa mesmo. “Tive muito estímulo, emoções
variadas de vida para escrever.” Eu era uma pessoa muito tumultuada
e muito perguntante e o tempo todo. O tempo todo eu vivia numa ansiedade
ainda não visível exteriormente, era uma tensão íntima
muito potente lá dentro que não parava de circular, era
como se o sangue não ficasse num lago represado, corresse em alta
velocidade. E eu estava sempre muito comovida com a vida com a morte,
com o amor. E esse desconforto me acompanhou desde menina”.
Ambivalente e excessiva sempre, a poeta às vezes tomam um atalho
calmo e esquece por momentos este olhar além e amorosa queria ser:
“nave, ave, moinho e tudo o mais para que seja leve” seu passo
no caminho do amado. Mas mesmo quando atinge seus mais altos tons na poesia
apaixonada, Hilda Hilst não abdicava da pesquisa em profundidade:
nos poemas, na prosa e no teatro que falavam de temas como o amor, a morte,
“deste absurdo que é a vida”.

Para
escrever as centenas de versos das Trovas de Muito Amor para um
Amado Senhor, por exemplo, Hilda me contou que estudou toda a
poesia portuguesa em especial se deteve no Sermão sobre
o Amor do padre Vieira que diz que amor é conhecimento.
Por isso o poema começa: “Amo e conheço / Eis porque
sou amante e vos mereço”. E continua: “De merecimento
vivo e padeço / Vossas carências / Sei-as de cor / E o desvario,
na vossa ausência / Sei-o melhor /...”.
Quando vai para o teatro e depois para a ficção a ambivalência
continua: seus personagens são sempre múltiplos, como diz
a ensaísta e crítica literária Nelly Novaes Coelho,
“determinados por uma estrutura trina paralela à da Santíssima
Trindade”. “Minha Agda fala isso, não a Santíssima
Trindade de sempre, mas aquela de sangue e adstringência, de carne
e adstringência”.
“Porque acho que dentro de nós temos três caras. Uma
primeira seria aquela aparente, convencional, que a gente mostra e que
não é verdade. A segunda é aquela que você
coloca quando ama. É a tua melhor cara, essa cara iluminada, amorosa,
onde você é um núcleo importante de vida. E depois
a outra cara secretissima, onde entra o escuro, o sórdido, aquilo
que é rejeitado em você. Todas essas caras podem ainda ser
subdivididas em milhares de outras. Mas o importante é que essas
máscaras apareçam e comecem a ficar transparentes e surja
então a verdadeira cara.”
Talvez seja exatamente esta a chave do mistério da obra “hermética,
difícil” de Hilda Hilst. Quem sabe se o leitor souber como
Hilda trata os personagens da sua ficção, possa entender
melhor seus textos aparentemente intrincados? Ela desarruma a linguagem
para traduzir as perguntas que se faz todo o tempo e que seus personagens
fazem sobre a vida, a morte, o amor, o sentido maior de existir. E se
quisermos entendê-la precisamos nos desarticular também,
tirar as nossas várias máscaras e deixar transparecer a
nossa verdadeira cara. Precisamos fazer o que faziam os copistas medievais
nos manuscritos em pergaminho: raspavam as inscrições para
poder ler o que fora escrito antes, quando alguém utilizou o pergaminho
pela primeira ou segunda, ou terceira vez. Eis aí a definição
de palimpsesto mesopotâmico, termo usado pelo critico Leo Gilson
Ribeiro para definir os textos de Hilda.

Foi isso que o Léo escreveu no prefácio do livro
Ficções (1977) que continha toda a sua obra narrativa
até aquela data, onde ele “vaticinava” para a escritora,
poeta e dramaturga, um futuro inglório: “Hilda Hilst carrega
involuntariamente um estigma: o de nunca vir a ser popular acessível.
Ela que ambiciona tanto ser discutida, focalizada, continuará por
uma espécie de condenação intrínseca incompreensível
para a maioria. Porque ela em português retratou um Malone agonizante
no atoleiro da duvida e das dimensões diminutas de quem não
tem antenas para captar o que há ou não há depois
da Morte. E porque ela escreveu em português, o equivalente a um
Finnegan’s Wake de Joyce, ou seja: escreveu um
absurdo palimpsesto mesopotâmico. E poucos terão a imaginação
criadora, a profundeza de propósitos e o mesmo afã místico
que ela para embrenhar-se nessa selva oscura da alma
e do humano estar no mundo”.
Processo
criativo
Vejamos a própria Hilda me explicando esse seu processo criativo
numa das inúmeras entrevistas que me concedeu: “Enquanto
conversamos aqui, eu estou fotografando você e estou vendo o teu
olho me fotografar. É isto que a Agda e principalmente
o Qadós fazem. Agda-Kalau-Celônio: o cavalo
três de Agda é sempre ela se vendo no olho dos personagens
que são na verdade ela mesma subdividida. Em Qadós
ocorre o mesmo. Ele era aquela mulher com quem se casa, o amigo,
porque se a pessoa ler com atenção vai perceber que aquele
homem é de uma solidão tão grande que não
podia ter tantas coisas: ainda que poucas, uma mulher, um amigo. É
sempre ele repensando suas misérias no olho do outro. O amigo diz:
“quero um dia dizer as coisas que visualizo em você ”-mas
na verdade é ele mesmo que não pode dizer de toda a sua
banalidade, daquela duplicidade, o que ele amava nos homens, o que amava
nas mulheres. Claro que ele tinha uma riquesa como ser humano, mas cheio
de banalidades. O sexo que ele queria fazer ali com aquela mulher era
um sexo perverso, sem a conotação moral naturalmente, porque
ele já era velho de alma, a sexualidade para ele era antiga, premente,
nostálgica ao mesmo tempo sangrenta, porque o homem se perguntava
dia e noite sem parar”.
Era esta a proposta de Hilda Hilst para o leitor: que ele, lendo suas
personagens que se dividem, que se transformam em outras personagens numa
espécie de jogo caleidoscópico, pudessem se identificar
com eles e se sentissem tão torpes e tão extraordinários
como o Qadós podia ser. E assumissem todas as suas caras, fizessem
um pacto com elas. O próprio Qadós diz isso logo no início:
“Pacto que há de vir coisa pastosa, uma coisa se impondo
corrosiva eis aqui o vestíbulo deste todo poderoso, devo ter sido
guiado, a coisa de peso gigantesco sobre as omoplatas, vai vai, a lâmina
no mais fundo desse todo-poderoso, atravessa as tres salas me disseram,
evita aspirar o conturbado dele, tudo isso ordens de um miolo exuberante,
lucidez acentuada pensei quando ouvi tanta palavra dentro da minha pequena
pétala de carne, essa convulsiva, essa que se diz atenta, toda
torcida. Esperei muitas noites antes de expor meu nariz ao vento, vê
só, eu me dizia, há quantos anos dentro de quatro por dois
delicada masmorra, mastigando tâmaras, tudo parece muito longe dizendo
assim tâmara masmorra, são coisas do mais além, nada
afins com a minha terra de mamões e bananas, nem porisso não
estou aqui, estou sim, terra gorda extensa lustrosa, e as tâmaras
vêm de alguém que não conheço, um todo bom
na didática dos punhais, recebo folhetos há dez anos e pequenas
estamparias onde vê se um homem todo nu com círculos azuis”.
Sobre este livro a crítica Nelly Novaes Coelho diz: “Com
a lucidez e genialidade do verdadeiro inovador, Hilda Hilst nos trás
com Qadós um universo espantoso, muldimensionado.
Os quatro textos contidos neste volume, onde a linguagem é uma
das mais vigorosas da nossa literatura, tratam especialmente da intensa
perplexidade do existir. O primeiro texto Agda é
inteiro paixão, descoberta pungente, Qadós
- ansiedade metafísica, é uma das narrativas mais fascinantes
dos últimos tempos. Relação atormentada com o divino,
Qadós-tigre, Qadós-metamorfose, Qadós-homem de Deus
rondando os humanos. A Agda Segunda é uma retomada
da primeira existindo num tempo paralelo, mundo de magia e estupor, de
violência e sacralidade”.
“O Oco, reservado aos leitores que compreendem
o ato de escrever como sendo antes de tudo contenção e disciplina,
diferencia-se dos anteriores (onde o homem é fulgor, garra, descoberta
num espaço prismático) porque coloca o ser humano na sua
mais intensa miséria existindo apenas na pluralidade dos seus vazios:
vazio cintilante, vazio do fundo de mim mesmo, vazio que vai até
o horizonte”.
É através de uma grande depuração de si mesmo,
continua Nelly Novaes Coelho que o personagem pode dizer em total verdade:
“Política é dar vida a todos”. “Se com
Fluxo-Poema Hilda Hilst já conseguira notável
inovação da prosa narrativa, com Qadós,
ela vai além e se impõe como um dos mais altos nomes da
literatura contemporânea”.
Fluxo
de consciência
dialógico e teatral
Para ajudar a entender a escritura vertiginosa de Hilda, vale ouvir o
que o professor de literatura da Unicamp Alcir Pécora responsável
pela organização sua obra completa para a Editora Globo
que diz no prefácio do Fluxo Floema algumas frases
fundamentais para se entender a linguagem da escritora.
“Hilda desde os primórdios tem como uma das marcas notáveis
de sua radicalidade o domínio técnico da língua e
o predomínio elocutivo sobre o narrativo. Isto se traduz admiravelmente
na maneira vertiginosa com que trabalha o chamado “fluxo de consciência”,
seu principal recurso discursivo nos cinco textos que constituem este
livro. Não se trata, contudo, de um “fluxo de consciência”
usual, em que a narração ou o enunciado se apresenta como
realista de pensamentos do narrador. O “fluxo” em Hilda é
surpreendentemente dialógico, ou mesmo teatral: o que dispõe
como pensamentos do narrador não são discursos encaminhados
como uma consciência solitária supostamente em ato ou em
formação, mas como fragmentos descaradamente textuais, disseminados
alternadamente entre diferentes personagens que irrompem, proliferam e
disputam lugares incertos, instáveis na cadeia discursiva. Daí
a impressão de que aquilo que no narrador de Hilda pensa está
atuando em cena aberta (e até está atuando cara a cara com
uma platéia tendenciosa, hostil e até mesmo estúpida)”.
Pécora considera que menos que a subjetividade ou a psicologia,
a prosa de Hilda encena como ‘flagrante’ de interioridade
o drama da ‘posição ’ do narrador em face do
que escreve-aquilo que se passa quando alguém se vê determinado
a falar por vontade própria. Daí acreditar “que o
critico poderia se ver tentado a imaginar uma analogia entre a questão
do narrador prolífico ou desdobrável e o que se passa em
Fernando Pessoa com seus heterônimos”, mas ressalta que as
diferenças são enormes e a analogia talvez mais atrapalhe,
do que ajude.
Para ele o drama da consciência em ação, apresentado
na prosa de Hilda não é ordenado, a cada vez por uma personalidade
discursiva e estilística imediatamente reconhecível e distinta
da de todos os outros em questão. “Os ‘vários’
em Hilda são mais proliferações inadvertidamente
incapazes de se conter numa unidade, do que propriamente essências
ou estilos irredutíveis entre si. A verdadeira multidão
que ocupa o lugar da narração fala quase sempre com a ‘mesma
garganta’. Isto é, todas as personagens mal-ajambradas que
se apossam da suposta ‘consciência em fluxo’ são
muito semelhantes, mas ainda assim são incontidamente várias:
apossam-se sucessivamente do discurso como entes parecidos entre si, a
ocupar precariamente o lugar da narração. Pois se esses
entes vários são fortes para ocupá-la, não
bastam para refrear a sua própria geração de semelhanças
instáveis, nem bastam para alcançar o gancho celeste capaz
de transcendê-las.”
Ainda diferente do caso dos heterônimos de Fernando Pessoa, Alcir
Pécora considera que os narradores da “cena do fluxo”
variam, alternam-se ou metamorfoseiam-se com muita rapidez, de modo que,
se não os diferencia o estilo, eles mal alcançam a estabilidade
de um nome próprio: um nome que surge e logo é derivado,
declinado em vários outros de mesma raiz. Por isso, o critico acredita
que no limite, apenas podem dramatizar aspectos de uma experiência
‘turva’ e deceptivamente contingente.
Daí acreditar que o “fluxo” hilstiano não pode
ser dito de “consciência”, “mas sim de maneira
mais aproximada como “cena de possessão”, na qual o
narrador-“cavalo”-é sucessivamente tomado por entes
poucos definidos, imediatamente aparentados entre si, incapazes de conhecer
a causa ou o sentido de sua coexistência múltipla e dolorosa
num oficio de escrita”. Aliás, oficio é outra palavra
que Pécora acredita poder ser explorada na descrição
da narração praticada em Fluxo-Floema:
no sentido de “domínio técnico”, com certeza,
mas, sobretudo no de “liturgia”. Ele acredita que a multidão
que habita o presente da enunciação em todos os textos desse
livro, existe como uma espécie de ensaio de cerimônia litúrgica,
ritualística, quase tão estranha à narrativa ficcional
quanto mais a informação factual.
“Não tem atos ordenados a referir, mas apenas um apego irônico
a língua e a um lócus cenográfico composto por escritório,
porta de aço, clarabóia, poço, telescópio,
gruta, cama, cadáveres enterrados. Fala-se então o que não
se entende (muito menos os leitores impacientes): um balbucio que em sua
versão mais direta refere o sentimento da procura de Deus. Mas
trata-se aqui de um Deus que se manifesta numa página que diz verdades
que são “breus”. Alcir Pécora acredita, portanto
que o “fluxo” poderia ser entendido como uma escrita que apenas
se sustém á espera de que, em algum momento de sua sucessão,
um Deus incompreensível se manifeste nela e passe a ter o controle
dos signos. “O encargo de narrar que espera tal manifestação
é, portanto, tremendamente difícil. Não se resolve
nem com o “escrever bem” da literatura banal, nem com o escrever
clara e porcamente como na literatura de mercado.
Considera que no “jeito difícil do narrador-cavalo é
iminente o perigo de se perder no turvo, na metafísica amadora
do de dentro, da língua insuficiente (“ lingüinha ”)
para dizer os mistérios ; na “merdafestança da linguagem
“, no “reino escamoso da memória”, a oferecer
a miragem da junção, na infância, entre “nexo”
e “percepção. E terminando diz: “E se Deus tarda,
no “fluxo” resta a vontade súbita de limpar o mundo
e de rejuvenescer só, na companhia de personagens geralmente imundos,
na espera da palavra morta.”
Esplendor
inédito
Depois de sete anos só escrevendo prosa, Hilda Hilst lança
em 1974 seu Júbilo Memória Noviciado da Paixão-um
livro de poemas apaixonados dividido em duas partes: a primeira dedicada
a um certo Túlio e o segundo a um Dionísio. Amores imaginários,
fantasia da poeta, ou canções de amor dedicadas a personagens
reais? Sobre isso o leitor jamais saberá, a poeta se esquiva respondendo
com aquele clássico: “a gente escreve sobre o que conhece,
mas nunca de forma confessional”.
Referindo-se a este Júbilo o crítico literário
Leo Gilson Ribeiro diz: Inspirada claramente no Renascimento e mais claramente
ainda nas cantigas de amigo medievais lusitanas, em toda
a sua intensidade dostoievskiana a quem lê naquela arcaica e sempre
presente dualidade de tempo e poesia, tempo e morte, que já os
primeiros poemas, imperfeitos, tateantes, assinalam. Agora, e com o esplendor
inédito na nossa poesia, que explodem as imagens comovedoras do
apelo ao amado pela amante, ambos ameaçados pelo decurso inexorável
do tempo.
“Ama-me. É tempo ainda. Interroga-me / Eu te direi que o
nosso tempo é agora / Esplendida avidez, vasta ventura / Porque
é mais vasto o sonho que elabora / Há tanto tempo sua própria
tessitura. / Ama-me. Embora eu te pareça / Demasiado intensa. E
de aspereza / E transitória se tu me repensas.”
Adiante a poeta pede um sinal do amado, cheia de esperanças por
um amor aparentemente irrealizável de tal forma arrebatado que
provoca no crítico uma comparação: o poema, segundo
Leo Gilson Ribeiro poderia ter sido escrito por uma cortesã culta
do período clássico chinês. “Se for possível,
manda-me dizer: - É lua cheia. A casa está vazia/ Manda-me
dizer, e o paraíso / Há de ficar mais perto, e mais recente
/ Me há de parecer teu rosto incerto. / Manda-me buscar se tens
o dia / Tão longo como à noite. Se é verdade / Que
sem mim só vê monotonia / E se te lembras do brilho das marés
/ De alguns peixes rosados / Numas águas / E dos meus pés
molhados, manda-me dizer / É lua cheia / E revestida de luz de
volto a rever.”
De uma fertilidade que cada vez mais se assume e se revela, Hilda Hilst
lança em 1980 um novo livro de poemas: Da Morte, Odes Mínimas.
Desta vez é a morte seu tema único. Sobre a morte, ela escreve
cinqüenta poemas num volume que contém ainda seis delicadíssimos
desenhos seus, numa edição belíssima de Massao Ohno
e Roswitha Kempf Editores. Rinoceronte, elefante, leão rei, cavalinha
são estes alguns dos nomes pelos quais a poeta chama a morte: “Sonhei
que te cavalgava, leão rei. / Em ouro e escarlate / Te conduzia
pela eternidade / À minha casa”.
Tudo isso porque a poeta quer de fato dar um novo nome à morte:
“Te batizar de novo / Te nomear num trançado de teias / E
ao invés de Morte / Te chamar Insana / Fulva / Feixe de flautas
/ Calha / Candeia / Palma, por que não? Te recriar num arco íris
/ Da alma, nuns possíveis / Construir teu nome / E cantar teus
nomes perecíveis / Palha / Corça / Mula / Praia / Por que
não?” Passional sempre, a poeta mesmo aqui, falando com a
morte, cara a cara o faz de modo amoroso: “Demora-te sobre a minha
hora / Antes de me tomar, demora / Que tu me percorras cuidadosa / Etérea
/ Que eu te / Conheça lícita, terrena / Duas fortes mulheres
/ Na sua dura hora. / Que me tomes sem pena / Mas voluptuosa, eterna /
Como as fêmeas da terra / E a ti, te conhecendo / Que eu faça
carne / E posse / Como fazem os homens”.
Ansiosa a poeta quer saber como será este momento: o da morte.
E pergunta como esta a tomará? “Perderás de mim /
Todas as horas / Porque só me tomarás / A uma determinada
hora / E talvez venhas / Num instante de vazio / E insipidez. / Imagina-te
o que perderás / Eu que vivi no vermelho / Porque poeta, e caminhei
/ A chama dos caminhos / Atravessei o sol / Toquei o muro de dentro /
Dos amigos / A boca nos sentimentos / E fui tomada, ferida / De malassombros,
de gozo / Morte, imagina-te”.
Afinal a poeta demonstra seu assombro e incompreensão diante da
morte e propõe: “E se eu ficasse eterna? / Demonstrável
/ Axioma de pedra / E crivada de hera / Mas só pensada em matemática
pura? / E lívida / Em organdi / Entre os escombros / Indefinível
como criatura / Eternamente viva.”.
Contenção
e paixão
nesse novo livro de ficção
Em 1980 surge mais um volume de ficção composto de tres
novelas: Tu não Te Moves de Ti: Tadeu (da razão)
Matamoros (da fantasia) e Axelrod (da
proporção) A epígrafe do livro, um pequeno trecho
da novela Axelrod talvez dê ao leitor uma pista
deste conteúdo insólito: “para onde vão os
trens meu pai? Pra Mahal, para Tami, para Camiri, espeços no mapa,
e depois o pai ria: também para lugar algum meu filho, tu podes
ir e ainda que se mova o trem tu não te moves de ti”.
“Pensou-se Axelrod Silva. Num intróito purificador monólogo:
um aquém de mim mesmo, um, que não sei que se move se vejo
fotografias daqueles escavados, aqueles de Auschwitz Belzek Treblinka,
Madjanek, se vejo bocas de fome, esquálidas, se vejo, vejamos,
se penso no relato da minha aluna, eu vou contar professor Axelrod, vou
contar colada ao seu ouvido: choques elétricos na vagina, no ânus,
dentro dos ouvidos, depois os pelos aqui debaixo incendiados, um médico
filho da puta ao lado, rápidas massagens a cada desmaio, vermelhuras,
clarões, os buracos sangrando. Por que? Levantou a máscara
de acrílico de um soldado do rei? Confidenciou? Disse coisas de
fúria boca a boca? Ela contava e nele movia-se uns agressivos moles
ânsia e solidão, dilatado espremeu as pernas e um outro ele
ejaculou terrores e pobreza, um outro se apossou dele significante, um
outro grotesco espasmódico fluía um ISSO inoportuno e desordenado
Axelrod, Axelrod que até então se conhecia invicto. Tu não
te moves de ti, tu não te moves de ti, de ti, de ti, o passo do
trem tu e o trem penso que me movo, Einstein meu bem quem me vê
diz que o trem se move comigo amém...”
Já Tadeu, o personagem da primeira estória é um homem
com “pés de água que se amolda”, como diz seu
pai a certa altura. A ação da novela se passa no período
de uma hora?-das nove as dez, horário da reunião “sagrada”
da diretoria da Empresa. Nesta hora-limite de Tadeu ele repensa sua vida:
de homem de empresa, de marido desta mulher, Rute, tão diferente
dele, para quem só tem “delicadezas” e que o tortura
com pequenas coisas de suma importância para ela como, por exemplo,
colocar os livros que ele ama: Jorge de Lima, Drummond num nicho alto
da estante, quase inacessível. Acesso fácil naquela casa,
só para os livros que tratam do “lucro-nervo-núcleo
da empresa”. Seduzido pela vida, Tadeu emigra e ensaia um vôo,
quer ir embora, mudar, fazer seu “pobre verso” e suas aquarelas
em paz. Mas está (está?) enleado a Rute. Tadeu-Rute, Rute-Tadeu,
até que ponto seriam dois?
Em Matamoros a ficcionista cria uma mulher capaz de um
ódio, um rancor e uma dúvida igualmente desmesurados. A
novela se passa num clima de tragédia que os críticos têm
comparado ao universo mágico do espanhol Federico Garcia Lorca.
“Virou-se vagarosa a meu encontro, dois passos distantes levantados
pelo espaço da janela, para o cair da tarde, externou-se muito
sóbria e pausada: a espera de um filho, minha filha, essa é
a novidade. Se Haiága houvesse substituído a frase por um
punhado enormíssimo de socos no meu inteiro corpo, eu não
ficaria mais amolecida nem mais lívida, umas coisas vagarentas
e pontudas caminharam pelas minhas tripas meu sangue se fez mudo numa
quietação muito de prenúncios minutos antes de mergulhar
num correntoso mundo, num segundo a mente assentou-se dali, vi a cara
de Simeona perto das águas, à minha frente a franzida e
pestilenta boca se movendo: mulher e cadela há de morrer e parir.
Mulher cadela, teria dito? Assim se entenderia a frase, sem junção
do E, por que, pergunto, onde haveria cadela igual aquela, a dois passos
de mim, onde haveria, não, não cadelas pois sempre só
foi ternura o que senti pelas cachorras velhas, Haiága não
era cadela imensissima prostituíssima é o que era, e se
há na cabeça das gentes o mesmo pensamento a respeito de
mim, digo que ainda que me digam torpezas como as ditas por Biona e Rufina,
há em Matamoros qualidade, porque dei-me a mim
publica serpenteada e viva como a água se dá a toda gente,
não tratei a carne como alguns tratam o ouro, às escondidas,
como Haiága embuçada, que se deu pérfida, a vulva
velha as escuras, águas de mim foi ouro, ouro suposto de Haiága
só pode ser AGUA ESCURA muito terrosa e pesada e se o homem de
mim bebeu dessa mulher a coisa parda, é homem-demônio não
homem-deus, ah mãe prostitutíssima toda remoçante
e cariciosa, queria eu agora ter ligaduras grandes na cara para não
te ver assim parada longezinha de mim, listrando a minha visão
de muitas cores rubrecendo a tua antes azulada figura, porque neste momento
te sei tão nefanda e velhaca, nos imensos profundos de mim te pensava
tão santificada, e levantei-me, as unhas comendo as carnes de Haiága
então estás cheia, imunda, metendo em si o que pertence
à filha velha puta, mata-me antes que chegue o homem porque nele
há de entrar uma faca de luz, iluminada de justiça alta,
lá de cima desvencilhou-se Haiága, uns atalhos de sangue
na cara: nunca toquei o homem e se estou cheia não foi homem de
carne, foi desejo obrado do divino, jurou-te que não toquei e grito
como se o próprio encantado te gritasse, estufa-se no milagre minha
velha barriga, homem nenhum a não ser aquele que te colocou em
mim”.
Sem
afinidade com
o movimento modernista
A propósito do livro Poesia que reúne toda
a obra poética de Hilda Hilst, Leo Gilson Ribeiro diz: Hilda Hilst
mantém a singularidade de se ter mantido incólume a todos
os modismos que marcaram a nossa poesia a partir de 1922. Ela mesma confessa
“sem afinidade alguma” com o movimento modernista nem da geração
de 1945 ela encontraria um nicho, menos ainda no falso populismo poético
ou na onda concretista e da práxis que na década de 1960
varreram o Brasil.
“Sua poesia, ao contrário da sua prosa, inteiriça,
surgida íntegra como de um só jato, mostra cesuras, fragmentações,
um aprendizado enfim ao qual não escaparam os supremos clássicos
da literatura. Dissentimos, no entanto, dos que vêm na sua poesia
qualquer parentesco com Rilke (e aqui ele se refere à própria
Nelly Novaes Coelho que vê uma influencia de Rilke na poesia de
Hilda) e sua invocação do Anjo ou que nela queriam ver uma
encarnação de uma poesia feminina no sentido feminista,
emancipatório. Hilda Hilst é demasiado ampla, rica, complexa,
e atemporal para ser incluída em qualquer rótulo, por mais
abrangente que seja”.
“A poesia de Hilda reflete este contágio do poeta para o
leitor que se sente conturbado espiritualmente pelo incêndio de
palavras, imagens e idéias que se comunicam até ele, de
forma indelével como uma cauterização a fogo”.
A poesia recatada brasileira não registra tal veemência erótica
nem nos poemas de Gilka Machado, de Vinicius de Moraes: o próprio
Carlos Drummond de Andrade faz alusões sutilissimas á tirania
do amor”.
“Hilda Hilst não: toma como emblema nada menos que um dos
tres ou quatro mais perfeitos poetas da língua inglesa, John Donne
do século XVII para negar através do frêmito da palavra
e da carne mortal a preponderância do tempo ou da morte sobre o
ser humano. Toda hic et nunc, o aqui e agora ambicionado pelos grandes
cantores do amor em Roma, como Catulo, ela pode dizer claramente”:
Soergo meu passado e meu futuro
E digo à boca do Tempo que os devore
E degustando o êxito do Agora
A cada instante, me vejo renascendo
E no teu rosto, Túlio faz-se um Tempo
Imperecível, justo
Igual à hora primeira, nova, hora-menina
Quando se morde o fruto. Faz-se o Presente.
Translúcida me vejo na tua vida
Sem olhar para trás nem para a frente:
Indescritível, recortada, fixa.”
“A
grande poesia da autora de Ficções”,
diz Leo Gilson Ribeiro, em matéria publicada no Caderno
de Programas e Leituras do Jornal da Tarde de 14-2-1981, “reflete
toda a problemática da autora frente ao pessimismo que coexiste
paradoxalmente com uma esperança de redenção do ser
humano ameaçado por bombas de nêutron e a insânia dos
políticos dirigentes da maioria das nações do globo.
Teria um autor o direito de desvendar a um leitor as possibilidades latentes,
mas que destruíssem também o mundo estanque no qual ele
vivera até então”. Uma coisa é certa e nisso
há uma unanimidade: Você não lê os textos da
Hilda Hilst impunemente, como diz Leo Gilson Ribeiro: “Hilda Hilst
não comunica ao leitor uma vivência pessoal: ela incorpora
o leitor a essa vivência doravante compartilhada; uma vez lidos,
seus livros passam a integrar a nossa realidade, a nossa memória,
o nosso frêmito”.
Processo
dificultoso
de existir
Talvez por isso mesmo Hilda Hilst tenha sido constantemente acusada de
fazer uma literatura afastada da sua realidade imediata, brasileira, subdesenvolvida.
Assinale-se que a autora não gostava de se sentir uma excrescência.
Acreditava que devia haver um sentido para que ela fosse esta que era
e no contexto do seu país. “Quando se trata de política,
em geral as pessoas querem colocar uma noção muito pequena
diante do escritor. Eu sou contra todos os tipos de opressão, de
ditaduras e tenho denunciado isso constantemente. Se estou escrevendo
coisas, que para muitos é de um teor metafísico exagerado,
talvez seja por estar percebendo esta potencialidade no homem. Uma pessoa,
desde que assume o ato de escrever, parece que desenvolve antenas muito
pronunciadas.”
“Quando me perguntam por que escrevo dessa forma que as pessoas
não entendem eu digo que é o processo de vida que é
tão complexo. Eu não saberia simplificar esse processo para
ser mais compreensível, é o meu próprio processo
dificultoso de existir que faz com que venha essa avalanche de palavras,
umas assim barrocas demais e que tudo seja misturado. Porque eu acho que
a vida transborda, não existe uma xícara arrumada para conter
a vida. De repente você vai encher um cálice e tudo se esparrama,
cai em você e não dá para fazer um esquema bonito
agradável, simpático.”
“Normalmente com as pessoas eu falo coisas normais porque acredito
que as minhas preocupações são de uma seriedade que
me atinge tão profundamente que não convém ficar
discutindo com as pessoas esses sentimentos. Muitas pessoas me dizem,
você parece tão jovial e depois o seu livro é tão
desesperado... Então é só através do livro
e de personagens que você pode mostrar até onde você
conseguiu nadar, até onde você conseguiu mergulhar, é
uma vontade que as pessoas conheçam que há um roteiro tortuoso
dentro de cada um de nós o que você faz tudo para se exprimir,
para se irmanar e às vezes não consegue. Quantas vezes,
pessoas que eu tinha tanta vontade que entendessem o meu trabalho dizem,
Hilda infelizmente não consegui saber do que se trata. Então
eu imagino que existam também gradações de emoções
e talvez eu seja uma pessoa com uma intensidade meio desesperada, uma
lucidez também desesperada.”

Aliás, esse desespero de estar vivendo entre pessoas que não
a compreendiam ela expressa em algumas obras particularmente. Por exemplo,
o seu Qadós que agora na nova edição
da Editora Globo ficou Kadosh- que significa Ungido em
hebraico, ela vai dizer pela boca do personagem: “ Andei no meio
desses loucos, fiz um manto dos retalhos que me deram, alguns livros debaixo
do braço e se via alguém mais louco que os outros, mais
aflito, abria um dos livros ao acaso, deixava o vento virar as folhas
e aguardava. O vento parou: eis o recado para o outro:sê fiel a
ti mesmo e um dia serás livre. Prendem-me. Uma série de
perguntas: qual é o teu nome? Qadós. Qa o quê? Qadós
de quê? Isso já é bem difícil. Digo: sempre
fui só Qadós. Profissão: Não tenho não
senhor. Só procuro e penso. Procura e pensa o quê? Procuro
uma maneira sábia de me pensar. Fora com ele, é louco, não
é da nossa alçada, que se afaste da cidade, que não
importune dos cidadãos.”
Pode-se dizer que da mesma forma que os cidadãos expulsam Qadós
por não entender suas palavras, seu modo de estar no mundo, muitos
afastaram os escritos de Hilda Hilst por julgá-los incompreensíveis.
Mais uma vez o “o novo” perturbando “o velho”.
A esta altura, quero dizer nesta época, ela se queixou dessa incompreensão,
de ser pouco lida ao escritor português Vergílio Ferreira
(autor de Aparição, Nítido Nulo,
entre outros) e quando estive em Portugal, fui visitá-lo e ele
me deu a resposta para esse lamento da Hilda numa carta onde reafirmava
sua certeza de que os textos da Hilda pertenciam mais aos leitores de
amanhã.
“Eles a lerão decerto, como já agora te lêm,
evidentemente depois de terem refletido que o homem também é
homem no intestino grosso”. A propósito da ultima frase Vergílio
Ferreira resume o sentido das obras da autora como uma “preocupação
de trazer Deus até as fezes do homem, de envolver o mais baixo
na sublimação pelo mais alto”. “Hilda desarticula
a língua, juntando na mesma convulsão os elementos mais
díspares forçando a lógica habitual, o arrumo habitual
das pessoas bem comportadas, ele diz ainda. É aí exatamente
que ela afirma sua posição de artista e afinal, ser humano,
mulher ”.
Aliás, esta intensidade desesperada o leitor vai poder constatar
em todos os seus textos, mas de modo especial em alguns poemas como este
do livro Cantares de Perda e Predileção:
“Que dor desses calendários / Sumidiços, fatos, datas
/ O tempo envolto em visgo / Minha cara buscando / Teu rosto reversivo
/ Que dor no branco e negro / Desses negativos / Lisura congelada no papel
/ Fatos roídos / E teus dedos buscando / A carnação
da vida / Que dor de abraços / Que dor de transparência /
E gestos nulos / Derretidos retratos / Fotos fitas / Que rolo sinistroso
/ Nas gavetas / Que gosto esse do Tempo / De estancar o jorro de umas
vidas”.
“Em grego agonofrenós é a agonia
da alma e uma pessoa que tiver essa hiperlucidez de se compreender livre
em um mundo esquizofrênico poderá sobreviver a esta iluminação
interior ameaçadora? Até onde se pode ser realmente livre?
Como seria um ser humano totalmente livre? Sem nenhuma repressão,
sentindo, no entanto, que ele faz parte de um mundo caótico e que
milita contra a sua liberdade? Se você sentir que o teu eu está
sofrendo uma deterioração na sua parte mais funda e autêntica,
no seu âmago álmico-que poderia acontecer depois? E ao fazer
da tua linguagem uma extensão da tua própria atuação,
aí sim, você começa a ser livre... No mundo de hoje,
só um louco é que não pode pensar em utopias. Temos
que desejar a utopia, sonhar com a utopia, querer a continuação
do homem por meio de uma coisa inimaginável, mas que o ser humano
vai conseguir, vai chegar lá.”
Proposta
de uma
revolução interior
Hilda Hilst reconhece que sua proposta é a de uma revolução
interior. “Comecei me desestruturando depois de vinte anos de poesia
arrumada. E esta linguagem ordenada, de comportamento que quero desordenar
reflete a época, o momento visceralmente conturbado. É preciso
dominar uma desordem para que aconteça alguma novidade real dentro
de você. Há uma reformulação da linguagem como
deve haver uma reformulação de comportamento”.
Na verdade considera que o escritor “está sempre se dizendo,
se revelando de várias formas múltiplas através dos
personagens. Cada personagem faz parte de você e você se conta
através de cada um. Existem momentos em que você é
o gelado, o distante, o passional, o infantil, o ingênuo, o bobo,
o louco e tudo isso junto. E as formas de dizer também são
diferentes. Eu tenho um amor muito grande pela minha própria linguagem
eu acho muito bonita. Não sei pelo fato de minha mãe ser
portuguesa, quando escrevo um poema, ou como foi também no texto
de Matamoros em Tu Não Te Moves de Ti, não
consigo escrever sem ser o sotaque português dentro de mim. Minha
mãe tinha um sotaque português muito leve, muito doce, ela
me chamava Hildinha, e o l era todo suspirado, enrolado, muito bonito.
E quando dizem que precisamos sair desses laços coloniais realmente
eu não saberia, a minha raiz é mesmo uma raiz da Península
Ibérica. Na poesia é onde me vem com mais intensidade a
volúpia do sotaque português. E agora nas minhas orações
à noite, eu fico falando com Deus como se ele estivesse perto de
mim, com esse sotaque português. Eu digo “Ai meu Deus, por
favor, não me dê muitas mágoas, muitos martírios.
Talvez com esse doce, esse melado na fala, ele possa prestar mais atenção”.
Hilda Hilst desarrumava a linguagem para tentar traduzir as perguntas
que se fazia e seus personagens-múltiplos, tripartidos, dia e noite.
Às vezes, no entanto ela experimentava um profundo desânimo
em relação a alguma futura transformação do
homem. “As verdades mais importantes já foram escritas. Há
um impressionante acumulo de informação que não foi
ainda assimilado e apesar do indiscutível progresso tecnológico
do nosso século não se pode dizer que o homem esteja crescendo
em verticalidade”.
Não acreditava também em soluções que os políticos
propõem. Endossava Arthur Koestler quando este afirmava que para
que o homem se transformasse no Homo Sapiens seria preciso uma modificação
de “essência álmica. Apenas com uma mudança
na alma humana, só assim Hilda Hilst acreditava no homem do próximo
século. E ela disse isso claramente no seu Poemas aos homens
do nosso tempo: “Que te devolvam a alma / Homem do nosso
tempo / Pede isso a Deus / Ou as coisas que acreditas / A terra, as águas,
à noite / Uiva se quiseres / Ao teu próprio ventre / Se
é ele quem comanda / A tua vida, não importa / Pede a mulher
/ Aquela que foi noiva / A que se fez amiga / Abre a tua boca, ulula /
Pede a chuva / Ruge / Como se tivesses no peito / Uma enorme ferida /
Escancara a tua boca / Regouga: A ALMA. A ALMA DE VOLTA”.
E o leitor vai concordar comigo que aqui nestes poemas é onde Hilda
Hilst é mais aberta, menos hermética, mais clara: “Ao
teu encontro, Homem do meu tempo / À espera de que tu prevaleças
/ À rosácea de fogo, de ódio, às guerras /
Te cantarei infinitamente / À espera de que um dia te conheças
/ E convides o poeta e todos esses / Amantes da palavra, e os outros /
Alquimistas, a se sentarem contigo / À tua mesa. As coisas serão
simples / E redondas, justas. Te cantarei / Minha própria rudeza
/ E o difícil de antes / Aparências, o amor / Dilacerado
dos homens / Meu próprio amor que é o teu / O mistério
dos rios, da terra / Da semente. Te cantarei Aquele / Que me fez poeta
e que me prometeu / Compaixão e ternura e paz na Terra / Se ainda
encontrasse em ti, o que te deu”.
Ou então neste poema: “Vou indo caudalosa / Recortando de
mim / Inúmeras palavras. / Vou indo, recortando / Alguns textos
antigos / Onde a faca finíssima / Sublinhava / As legendas políticas
/ E um punhal incisivo / Apunhalava / Um corpo amolecido / O olho aberto,
uma bota / Pontiaguda / Entrando no teu peito. Os meus olhos te olhavam
/ Como de certo o Cristo / Te olhou, piedade / Compaixão infinita
/ Ah meu amigo / Que límpida paixão / Que divina vontade
/ Fervor feito de lava /Fogo sobre tua fronte/”.
Tanto amor/E não te deram nada. /Deram-te sim/Ferocidade, grito/.E
sobre o corpo/ Chagas / E mãos enormes, garras / Te levantando
o rosto / E inúmeras palavras / Tão inúteis na noite.
/ Diziam que adolescência / Moldou a tua idéia / Que eras
como um menino / De encantada imprudência / Loucura caminhares.
Na trilha da floresta / Sem luminosa armadura / Mas eu, poeta, vou indo
/ Caudalosa / Recortando as palavras / Tão inúteis / E os
meus olhos de treva / Vão te olhando / E te guardo no peito / Intenso,
aberto Colado a mim / Homem-amor / Inteiro permanência / No todo
despedaçado / Do poeta”. (Canto XII de Poemas aos
Homens do Nosso Tempo).
Palavras
inúteis
Mas parece que as palavras da escritora “foram inúteis”,
não tocaram o ouvido, não inflamaram o coração
das pessoas como a escritora gostaria. Assim é que a partir de
1990 Hilda resolveu, desacreditada do futuro da sua literatura, sempre
pouco lida pelos brasileiros, mais interessados talvez em textos menos
problemáticos, mais superficiais e digeríveis, abdicar de
ser uma escritora séria. Inicia a fase chamada “erótica”
com o Caderno Rosa de Lory Lamb seguido de Contos
d’escárnio Textos grotescos e Cartas de
um sedutor. Ela justificava esta sua tomada de posição
dizendo que ficara fascinada com a parte maldita dos
ensaios do escritor francês George Bataille, de que, aliás,
gostava mais do que da sua obra de ficção. “Eu tenho
a impressão que ele tentou a salvação, por isso escreveu
todos aqueles livros evidentemente pornôs. Quando li a parte maldita
tive a compreensão do por que ele escrevia aqueles textos”.
E acrescentava que justamente ficara fascinada com todo o processo de
Potlatch, através do qual ele foi se conhecendo
que resumindo para ela significava o “poder de perder”.
O Potlatch para quem não sabe, é um ritual
dos índios norte-americanos, aparentemente uma grande festa que
se celebra nos batismos, nos casamentos, nas datas mais marcantes. Os
índios exibem as coisas mais bonitas que possuem, mais preciosas
que possuem: mantos com plumas finíssimas, objetos que construíram
artesanalmente, além de objetos que eles dão para outras
tribos. “É uma grande demonstração também
de poder, o que, aliás, toca naquilo que a gente aprende na escola
que é a economia política que é a ciência das
trocas”. Hilda então, refletindo sobre tudo isso, o poder
do dinheiro na nossa sociedade, a vontade de ter, concluiu através
deste ritual do potlatch, que o verdadeiro poder estava
na capacidade de perder, renunciar, se reduzir ao mínimo necessário
para viver”. E reconheceu “que todo seu esforço na
busca da renovação da linguagem, havia sido excessiva. Quer
dizer a minha busca, minha tentativa de transmitir a quem me lesse a sensação
profunda da vida, da experiência da vida, - que seria você
colocar o horizonte mais longínquo de si mesmo, a serviço
da sobrevivência do outro. É que eu queria despertar um lado
do ser humano que ele ainda se recusa a ver, como entre outras, essa experiência
importante que o homem pode ter. Agora sim, eu sinto que posso que eu
tenho o direito de fracassar. Eu passei 40 anos de reclusão dedicada
a escrever e tudo de mim não teve eco, não fui compreendida,
não fui consumida, não fui aceita”.

Lembrava
que à exceção de alguns editores e críticos:
Nelly Novaes Coelho, Massao Ohno, Anatol Rosenfeld, Léo Gilson
Ribeiro, a quem, aliás, ela concedeu a entrevista que estou citando
(Cadernos de Sábado do Jornal da Tarde de 4-3-1989),
o Brasil se mostrou absolutamente impermeável ao que ela tinha
para dizer. “A futilidade é como o napalm: vai queimando,
corroendo até chegar à medula, ao osso. O homem está
sem nenhuma curiosidade a respeito de si mesmo, da incógnita X
da sua personalidade. De que ele se esqueceu ou abafou em si”.
Hilda acreditava que os homens deveriam pensar mais nos problemas fundamentais
que os grandes cientistas como os Heisenberg levantam como a ciência
dos limites, o caráter incognoscível, imprevisível
dos átomos e seu comportamento. E conclui: “Então
eu vi que minha única saída era parar, pois seria absurdo
continuar. Eu acho que temos que refletir sobre os aspectos transcendentais
da Terra, da Natureza vertendo sangue, destruída, violada, mutilada
pela ignorância e pela ganância imediatista do homem, estudar
o problema do ar que respiramos, enfim as guerras, os arsenais atômicos”.
Pretendia ainda rever este conceito que nunca se questiona só se
aceita sem discutir, que é o conceito da obscenidade. “É
preciso pensar que a verdadeira obscenidade, criminosa é o comportamento
do corpus político do Brasil e de outras nações inteiras
dedicadas à devastação a qualquer preço, à
fraude, à morte do outro em favor do conforto e da indiferença
de quem polui o ambiente e as almas. De maneira intuitiva essas foram
as perguntas que me obcecavam e para as quais eu buscava inutilmente uma
resposta junto com o leitor” . Vejamos o poema em que a escritora
se despede de seus “textos sérios:”
O escritor e seus múltiplos vêm vos dizer adeus.
Tentou na palavra o extremo-tudo
E esboçou-se santo, prostituto e corifeu. A infância
Foi velada: obscura teia da poesia e da loucura.
A juventude apenas uma lauda de lascívia, de frêmito
Tempo-Nada na página
Depois, transgressor metalescente de percursos
Colocou-se à compaixão, abismos e à sua própria
sombra
Poupem-me os desperdícios de explicar o ato de brincar.
A dádiva de antes (a obra) excedeu-se no luxo.
O Caderno Rosa é apenas resíduo de um “Potlatch”.
E hoje, repetindo Bataille:
“Sinto-me livre para fracassar”.
Anote-se, no entanto que Hilda não fracassou: as três obras
da referida trilogia erótica são pequenas obras primas de
irreverência e na seqüência, ela continuou com sua prosa
deslumbrante. E mais, fez essas afirmações ‘definitivas’,
anunciando o que o critico literário Leo Gilson Ribeiro chamou
de Luminosa Despedida em entrevista publicada no Jornal
da Tarde (4-3-1989) exatamente no ano do lançamento de mais um
livro de poesia: Amavisse (em latim Ter Um dia
Amado), que, aliás, é um dos que o compositor de
musica erudita contemporânea José Antonio de Almeida Prado
musicou- (os outros foram: Trovas de Muito Amor para um amado
Senhor e Pequenos Funerais Cantantes) e continuou produzindo
mais livros: Alcoólicas (1989); Bufólicas
(1992); Cantares do sem nome e de partidas (1995);
Cascos e Caricias (1998); Do desejo (Editora Pontes, Campinas-SP,
1990).
Em 1997 publica Estar sendo. Ter sido,
(Nankin Editorial, SP e 2ª. Edição em 2000, com capa
de Claudia Lammoglia, foto da capa de Catherine A. Krulik e ilustrações
de Marcos Gabriel) e prefácio de Edson da Costa Duarte Clara Silveira
Machado, prosa. Em 1998 reúne suas crônicas publicadas no
Jornal Correio Popular de Campinas (SP) no livro Cascos e Carícias:
crônicas reunidas (1992-1995, capa de Claudia Lammoglia
e foto de J. Toledo, pela Nankin, SP, 1º. Edição e
2º. Edição em 2000) e em 1999 publica uma coletânea
de poemas no livro intitulado Do amor (Massao Ohno, SP) com capa de Arcangelo
Ianelli, prefaciada e organizada por Edson da Costa Duarte Clara Silveira
Machado.
“A
vida: uma aventura obscena
de tão lúcida”
No prefácio de Estar Sendo. Ter sido, intitulado:
“a vida: uma aventura obscena de tão lúcida”,
justamente uma frase de Hillé, personagem central de A
obscena senhora D, Clara Silveira e Edson Duarte dão pistas
ótimas para se entender a obra de Hilda. Eles iniciam dizendo que
após meio século de intenso trabalho, Hilda Hilst reafirma
neste texto, “sua condição de requintada artífice
da linguagem. Seus leitores encontrarão em Estar Sendo.
Ter sido, todo o universo ficcional da autora já que Vittorio,
personagem-máscara de Hilda, faz parte de uma cadeia de duplos
de narrativas anteriores. E como Hillé ele poderia ter dito: “Ai,
Senhor, tu tens igual a nós o fétido buraco? Escondido atrás,
mas quantas vezes pensado, todo espremido, humilde, mas demolidor de vaidades.”
“Vittorio recorda (traz para o seu coração) momentos
de vida com um olhar que é o caleidoscópio de sua alma.
Desintegra-se e se reintegra em tantos outros possíveis eus: ele
é ao mesmo tempo múltiplo e uno. É a consciência
da infância (Vittorio-bambino) Matias, Júnior, Alessandro
e Hermínia, Pedro Cyr (um poeta bossa ‘o escroto’)
Luis Bruma-Apolonio-Hillé-pseudônimo usado pelo pai da escritora,
o próprio pai-Apolonio e a máscara de Hilst (Hillé).
As faces de Hilda formam ‘uma sómultiplamatéria”
para usar uma expressão da própria autora. Seus personagens
são um só, assim como podemos interpretar toda a sua ficção
como um único livro.”
Clara Silveira Machado e Edson Duarte continuam dizendo que Hilda neste
livro “descasca os conceitos, sendo obcecada pelas mesmas indagações
metafísicas, amalgamando os estilos alto e baixo do discurso num
só diapasão da voz. Os personagens que cria são apartados
da realidade estão afastados do centro-oco dos conceitos. São
buscas, perdas, dilaceramento, incompreensão e agonia por se saberem
‘poeira-nada’. Querem ultrapassar a fronteira da carne, do
corpo-porco nosso de cada dia”.E ele mesmo Vittorio-na verdade Hilda
vai dizer que gostaria de sentir ainda alguma coisa-“um certo brilho,uma
certa cara, a descoberta de ter escrito esta frase: “Deus, uma superfície
de gelo ancorada no riso”, que inicia a novela Com meus
olhos de cão.
Para os autores do prefacio de Estar Sendo. Ter sido
o que mais choca no narrador do texto, Vitório, 65, escritor e
bebedor contumaz, no limiar da velhice, buscando nos cantos, nas frestas
da mente, o sem-tempo do corpo e do espírito aquele “ter
sido” lúbrico e voluptuoso-é a crueldade do personagem
que não poupa a si mesmo das situações mais ridículas.
E eles citam o exemplo da cena em que ele se pensa a si mesmo numa cadeira
de rodas com uma bengala de prata e madrepérola.
“É o requinte do riso que destrói o próprio
lugar do discurso-sujeito de onde o riso emana”. Assim, sob a máscara
de Vittorio, Hilda está livre, segundo Clara e Edson, para exagerar
propositadamente na cor das palavras. E eles dizem: “se em Beckett
tudo é cinza-monótono, em Hilda tudo é rubro-vagotonia.
Seus personagens não chegam a lugar algum porque procuram ‘La
Obscura Cara’ de si mesmo e do ‘Sem Nome’. Por isso
seu riso é exterminador, ‘um certo tipo de cômico,
uma certa maneira de rir que pertence propriamente a perspectiva trágica”.
Portanto Vittorio, este bêbado, escritor “entre receitas de
drinques e suicídios, procura Deus, deus e suas outras tantas máscaras.
E no intervalo entre uma busca e outra, mais ou menos desesperado, conta
ao leitor” short stories” ora patéticas, ora escabrosas,
enquanto espera a Dama Escura : “ a sépia desgrenhada, a
foiçuda deve estar rondar.”
Confirmando as palavras de Hilda numa entrevista que me deu e que já
citei aqui: para dar ao leitor um momento para respirar, para a corda
não ficar tão esticada, Clara Silveira e Edson Duarte constatam
que neste livro “as histórias picantes são um oásis
necessário entre os textos de enorme intensidade lirico-trágica.
Das histórias de fornicar, de dar pelos cantos, muito se sabe de
Vittorio - são apenas” exercícios de lubricidade”,
como ele mesmo diz. “Mesmo no grotesco e no pornográfico,
HH não fala apenas do despudor do desejo pervertido, mas também
extrai do contar uma perspectiva metalingüística. Muitas vezes
é nesse nível que os leitores fazem um desvio: ao se chocarem
com imagens do desejo interdito, não percebem as sutilezas e a
manipulação do signo”.
Para eles o texto hilstiano é construído em vários
níveis, e ignorar essa dimensão é permanecer na superfície.
E advertem os leitores que é preciso pensar no papel do simulacro
em sua ‘pornografia’ já que aqui as mesmas questões
feitas no campo metafísico são retomadas pelo avesso. “Uma
pluralidade de gêneros e linguagens se instaura entre os duplos
focos: sublime/grotesco, sério, cômico. Sempre irreverente,
polifônico, o texto de Hilda é múltiplo: teatro, poesia,
prosa poética. Nele aparecem as diversas tonalidades do cômico,
desde o burlesco, bufólico, grotesco, até a ironia o sarcasmo
e a sátira”.
Obra de síntese de todo seu trabalho, os prefaciadores dão
valiosas pistas aos que querem entender o texto complexo de Hilda dizendo
o que é visível para quem lê Estar Sendo.
Ter sido, depois de ter lido toda a obra da autora. “No
fluxo narrativo a escritora estabelece um diálogo circular com
outros textos, numa relação inter e intratextual, revelando-nos
inusitadas percepções do signo e das coisas. Quanto à
referencias intertextuais, HH mistura em sua prosa uma multifacetada biblioteca,
como se fosse impossível desencarnar seu texto dessas lembranças
ficcionais.Neste livro encontramos, lado a lado, Ovídio, Petrarca,
Shakespeare, Mishima, Joyce, Jorge de Lima, Oscar Wilde, Vieira, Goya,
Francis Bacon, Kurosawa, Lupasco, e por fim o pai-poeta :Apolônio
Hilst e o sempre amigo- Mora Fuentes.”
“No campo intratextual-tanta coisa resplende-há também
vários exemplos-eu-menino-cavalo-luz-tremente inteiro
lembra Agda menina-planta; o tigre-menino
faz ressoar o menino-porco de Hillé. O Cara mínima,
o Sem-Forma, lembra a busca do Pai-Deus
em Qadós.” Espaços da novela O
oco eles constatam , se confundem na sintaxe: “ estou na
cama ou nos juncos? Estou molhado de esperma ou de urina”, atualizam:
Queres (que eu frite) o peixe na manteiga ou no mijo? “A verticalidade
se instaura: o poço e a clarabóia de Ruiska, o banco
de cimento onde se sentava o pai de Agda, sou um novo
nada ninguém, de Amós Keres”.
Enfim neste livro vemos toda a singularidade do olhar de Vittorio-Apolonio-Hillé-HH
que corresponde, segundo Clara Silveira Machado e Edson Duarte, a “complexidade
sintático-semântica” da narrativa, onde o fluxo de
consciência é pulsionado pela língua materna, traçado
pelas marcas do corpo erógeno que se deslocam para o campo da linguagem.
“Daí o cambalear de lúcidos delírios: ‘
Funâmbulo loquaz, burlantim do nojo indo e vindo no arame; se eu
fosse ou tivesse sido ia ter mágoas, escoceios, corredeiras da
alma, ia despencar num frenético bamboleio dentro de canoas estreitas,
e logo ali a cachoeira BUUUUMMMM!, despenquei, morri, mas não,
continuo aqui, velho e bêbado, vendo de novo o ‘Cara mínima’,
o deus, dentro da folha de alecrim do jardim.”
A esta altura sua obra começava a ser lida, discutida e os eventos
se sucedem: poemas seus com musica de Almeida Prado são apresentados
na Europa no quadro dos concertos do projeto Poesia& Musica
da Fundação Apollon e ela ganha o Prêmio
Moinho Santista pelo conjunto da sua obra, na sua 47º edição
em agosto de 2002. Em setembro de 2002 o vídeo Hilda Hilst
para virgens é premiado na 9º. Expocom, realizado
em Salvador (Bahia) e seus livros vão sendo traduzidos com maior
intensidade para o francês, inglês, alemão, italiano.
As teses também se multiplicam e agora são dezenas, sendo
que entre as primeiras estão as de Gabriel Albuquerque defendida
em 2002 na Universidade de São Paulo (USP) sob orientação
do professor Alcides Villaça e da alemã Mechtild Blumberg
apresentada a Universidade de Bremen.
Só que agora, infelizmente era tarde demais: Hilda estava cansada,
desgastada, não queria mais escrever: “Eu gostaria de escrever
ainda, mas não tenho mais nada para falar. Eu já escrevi
tudo. Quando a pessoa envelhece a gente já não tem mais
vontade de falar. Parece uma seita.”. E ainda, sobre se a idade
afinal havia trazido para ela a serenidade tão almejada diz: “A
idade para mim foi ao contrário, não me deixa serena não.
Sou uma pessoa inquieta, eu tenho problemas existenciais”.

Fiz aí uma amostra não tão mínima da obra
desta poeta, ficcionista e dramaturga máxima. Você agora
leitor, que não a conhece, ou que conhece, mas quer conhecer melhor,
que tal mergulhar nela e descobrir fascinantes mundos desconhecidos? Segui-la
na sua trajetória delirante, suas acentuações apaixonadas,
caudalosas, recortando as palavras que penetram como lâminas nos
corações dos leitores que ficam para sempre seduzidos pela
sua maravilhosa capacidade de penetrar nos recônditos da alma, no
fundo dos sentimentos?
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