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Abismo de uma
realidade sem saídas

José Aloise Bahia*


Ronaldo Cagiano traz as tragédias e dramas do Brasil para sua literatura

Dicionário de Pequenas Solidões
De Ronaldo Cagiano
Língua Geral Livros
Rio de Janeiro, RJ, 2006, 1 a. Edição
136 páginas, R$ 39

Na página 92 do livro Formas Breves, Ricardo Piglia observa uma de suas teses sobre o conto: “Kafka conta com clareza e simplicidade a história secreta, e narra sigilosamente a história visível, até convertê-la em algo enigmático e obscuro. Essa inversão funda o kafkiano”. Os contos da antologia Dicionário de Pequenas Solidões (Língua Geral Livros, 2006), de Ronaldo Cagiano, lançado recentemente, bebem de maneira fértil nessa fonte citada por Piglia e outras mais - João Antonio, Samuel Rawet na narração e Augusto dos Anjos, Drummond e Torquato Neto na poesia, pois o autor também é poeta. Vai além: reproduz e revela de maneira implacável e lúcida o resto, a sobra de um Brasil trágico e dramático, cenas que povoam uma sombra ingrata e incômoda aos olhos do Planalto Central.

Dicionário de Pequenas Solidões, apresentado por Ignácio de Loyola Brandão, é um labirinto descontente. Ficções profanas, extremas e brutais, castigadas pelas patologias de uma certa urbanidade, na qual transitam, lado a lado com a História Oficial, personagens corroídos pelo silêncio, partidas, idas, vindas e o vazio de suas vidas ordinárias. Consumidos e cuspidos pela voraz realidade de um país que desconhece o seu povo. Desesperança pura. Os contos são éditos. Sofreram modificações, como aponta a obra. São 15 histórias de dois livros: o premiado Dezembro Indigesto (2001) e Concerto para Arranha-Céus (2004), o mais pungente e maduro de Cagiano. Isso não tira o mérito, pois o conselho editorial da nova editora brasileira, com o angolano José Eduardo Agualusa e os brasileiros Luiz Ruffato e Eduardo Coelho, escolheu as histórias mais consistentes do escritor. No geral, uma série de narrativas em primeiro plano e com toda a naturalidade, entretanto movediças e dolorosas, fincadas numa realidade espinhosa e intercambiadas pela visível denúncia social e (con)fusão de gentes num mar de cólera e espanto em suas via-crúcis.

O reino dissonante e paroxismo de um crepúsculo banhado por óbitos, tédios, descrenças, condenações, êxodos, decadências e hemorragias cerebrais crônicas. Derramadas numa lógica veloz, tumultuada e vulcânica. Inundadas por epígrafes, referências, interlocuções e pontuadas por uma imaginação criativa. Um painel digno do pintor flamengo Hieronymus Bosch. Há contos exemplares: “O Abuso”, “Golpe de Misericórdia”, “Solidão”, “Todas as Estações”, “No Último Natal do Milênio”, “Fígaro”, “Horizonte de Espantos”. O melhor deles, cuja temática é a morte, chama-se “A Marca”. Uma trajetória impotente, desencantada e desesperançosa do filho que volta à cidade natal para enterrar o pai. No seu delirante retorno, o protagonista é embalado por uma sublime perturbação, um recôndito desejo, fazer o que queria quando mais novo: visitar o túmulo de Baudelaire em Paris. Mas teve que se contentar com o de Augusto dos Anjos - sepultado em Leopoldina, cidade vizinha à terra de Cagiano: Cataguases, Minas Gerais.

“A Marca” é um mix de encontro real e fictício para um anônimo enigmático, acinzentado, obscuro e carcomido pelos sofrimentos da procura da essência em suas crises existenciais. O remorso atinge o clímax a partir da lembrança das manchas de sangue no cimento, a nódoa que não diluiu sinal de uma culpa irremediável: a morte do irmão menor, na infância, esmagado por um caminhão de areia.

Fundamentalmente poeta, entretanto regido pela máxima de Baudelaire, “Seja poeta, mesmo em prosa”, o escritor desde 1979, quando chegou a Brasília (onde trabalha como bancário), não parou de escrever - ofício que faz desde a adolescência. Na ficção, por mais que as temáticas dos inúmeros livros publicados sejam as frustrações e as incoerências deste tempo coroado for falsas imagens de leituras fáceis, Cagiano sempre acreditou que a “literatura é sobrevivência; pulmão e evangelho; exorcismo e apaziguamento; catarse e reflexão”. Impaciente, aprendeu a reinventar as coisas. A dizer não. Navega por uma trilha esclarecedora – com fluxos da memória, diálogos e consciência dos acontecimentos – que realmente faz sentido neste mar de mundo que são as contradições humanas.

* José Aloise Bahia (Belo Horizonte/MG). Jornalista, escritor, pesquisador e ensaísta. Estudou economia (UFMG). Graduado em comunicação e pós-graduado em jornalismo contemporâneo (UNI-BH). Autor de Pavios Curtos (Anomelivros, BH, MG, 2004). Participa da antologia O Achamento de Portugal (Fundação Camões, Lisboa, Portugal e Anomelivros, 2005), que reúne 40 poetas mineiros e portugueses contemporâneos, e do livro Pequenos Milagres e Outras Histórias (Grupo Galpão, Editora Autêntica e PUC - Minas, BH, MG, 2007).

josealoise@terra.com.br





 

 

 

 

 

 

Jornalista Ana Lucia Vasconcelos

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