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| A lírica dos dissidentes soviéticos __________________ As
Iluminações de Zenóbia __________________
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Márcio Davie Claudino Abismo
de uma José Aloise Bahia* Novela de memórias: um pedaço de mim __________________ Meus
Outros de Tere Tavares __________________ |
A lírica dos dissidentes soviéticos
Os critérios que norteiam essa antologia também contribuem para a sua qualidade. Primeiro, embora seja uma escolha afetiva e pessoal, o aspecto qualitativo não é perdido de vista. Tal opção, além disso, tem a vantagem de não submeter as escolhas a nenhuma diretriz poético-ideológica, o que contribui para a diversidade das vozes. Segundo, Machado Coelho ignora sistematicamente os representantes oficiais do Realismo Socialista. Terceiro: baseia-se em uma abordagem vertical e não horizontal, ou seja, são 24 poetas ao todo, número relativamente pequeno, mas com uma grande quantidade de poemas traduzidos de cada um, o que aprofunda o conhecimento de suas respectivas poéticas. Por fim, o autor evita inserir poetas já traduzidos e mais conhecidos, como Maiakovski, Tsvietáieva, Mandelshtám, Pasternak, Khlébnikov, Iessiênin, dentre outros. Munido de conhecimento crítico e histórico, Machado Coelho percorre os momentos decisivos da história intelectual russa, pontuando, em cada um deles, as possíveis saídas (ou becos sem saída) que a política forneceu aos artistas. A introdução esclarecedora aborda desde o período leninista, passando pelo período do Terror Vermelho e a distensão pós-fim da Guerra Civil, com a Nova Política Econômica. Frisa o fortalecimento da repressão com a guinada stalinista: a coletivização compulsória; o Grande Terror da década de 1930, os expurgos em massa, a política cultural de imposição do Realismo Socialista. Essa realidade só vai ser parcialmente mudada a partir do Degelo, com Kruchev; mas Brejnev vai assinalar nova virada neo-stalinista e nova fase de estagnação. Literatura e história se entrelaçam nos poetas presentes em Poesia Soviética. Por trás da diversidade de vozes, alguns fios comuns tecem a trama de fundo dessa aventura poética. Em geral, sendo todos dissidentes, o são por uma razão simples: em todos há, em menor ou maior grau, o cultivo da expressão individual, do subjetivismo condenado pela política oficial, que se lê, por exemplo, nos belos Quatro Sonetos, de Kirsánov, na meditação amorosa dos poemas de Vanshênkin e em todos os poemas de Arsêny Tarkóvski, pai do famoso cineasta. Mesmo sendo críticos do regime, não deixa de escapar a alguns a questão do consumo moderno. Plissiétski visita o tema da compra e da venda, e a partir de uma cena cotidiana, uma partida de pingue-pongue em um hospital, compõe, em Tempo Imóvel, um quadro da solidão contemporânea. Vinokúrov também trata do tema em Diversidade: “O mundo é um imenso bosque/que não tem duas folhas iguais./O supérfluo é indispensável.” Dois poetas importantes dentro do cenário de mudanças políticas da URSS, que comparecem na antologia, são Yevtushenko e Vozniessiênski. Embora pratiquem uma poesia mais edificante, esse ingrediente foi decisivo para a repercussão de ambos junto ao público, e até pela sua penetração no Ocidente. Em termos de contraste, vale ressaltar o panteísmo de Zabolótski e Matvêieva, bem como as naturezas-mortas e a pintura da vida privada levada a cabo por Kúshner e Gorbaniévskaia, em excelentes poemas de talhe lírico e meditativo.
Além do lirismo, há também a ironia, como a de Martýnov,
mas que às vezes chega às raias do hilariante, como no caso
do absurdista Daníil Kharms, ao satirizar grandes nomes da literatura
russa. Outro tema recorrente é a alegoria do presente, visto sob
o prisma do passado, como ocorre em Os Herdeiros de Stálin, de
Ievtushênko. Ela reaparece na sensação de morte em
vida do poema O Retrato da Infanta, de Antokólski, no qual a famosa
tela de Velásquez está a serviço de uma crítica
do presente. E nos admiráveis poemas de Vinokúrov: A Mãe
de Judas, O Anjo Terrível e Adão. Neles, a poesia restitui
ao humano o que é humano, detonando a possibilidade de submetê-lo
a qualquer maquinaria ou abstração político-ideológica.
Rodrigo
Petronio é escritor, autor de História Natural,
Pedra de Luz (poesia), Transversal do Tempo (ensaios), entre outros. Leia
mais sobre ele nesses links:
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Jornalista Ana Lucia Vasconcelos Web designer-Edson Souza
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