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A Prisioneira de Emily Dickinson
Helena Vasconcelos *

Prisioneiras do Tempo


Num dia de verão de em 1870, Thomas Wentworth Higginson apresentou-se à porta de uma casa em Amherst, uma cidadezinha perto de Boston. Higginson era uma figura bem conhecida na altura, um vitoriano típico que, como muitos dos seus pares professava algumas idéias bem avançadas. Era um homem de letras, ensaísta brilhante, ocasionalmente um poeta, e também um teólogo radical que intervinha assiduamente na vida pública, como ardente abolicionista e grande defensor do sufrágio feminino.
Foi com emoção e alguma perplexidade - amplamente testemunhada em muitos dos seus escritos - que, finalmente, se encontrou frente a frente com a estranha poeta com quem trocava correspondência assídua, ia já para oito anos.
Mais tarde contou à sua própria mulher a impressão que lhe causara Emily Dickinson: “o andar de uma criança com o corpo de uma mulher sem nada de característico para além do cabelo avermelhado apanhado em dois bandós e um ar muito arranjado, vestida de branco com um xale azul desmaiado… avançou para mim e depositou-me nas mãos dois lírios, dizendo com uma voz infantil e insegura que aquela era a sua “apresentação”, acrescentando, de seguida: perdoe-me se estou assustada; nunca vejo estranhos e nem sei falar como deve ser”.
De acordo com Denis Donoghue no seu livro sobre Dickinson, ela exagerava um pouco na fragilidade, timidez e modos infantis. O próprio Higginson afirmou que, depois deste primeiro embate, ela falou livremente durante horas - quase não o deixando falar a ele - principalmente sobre poesia. Quando ele finalmente lhe perguntou se ela não sentia a falta do mundo exterior, se nunca tinha pensado em sair, “trabalhar” e conhecer pessoas, ela respondeu-lhe firmemente que nunca lhe tinha sequer passado pela cabeça conceber tal hipótese. Para um “homem moderno” como Higginson tudo isto deveria causar-lhe curiosidade, mas também certa perplexidade.

Emily Dickinson, nessa altura quase a completar 40 anos , quebrava assim, com ele, uma regra bem estabelecida. Mas Higginson, como Samuel Bowles ou, mais tarde o juiz Otis Phillips Lord, foi um dos eleitos, dos poucos que conseguiram quebrar o isolamento voluntário de Dickinson, uma vez que ela tinha especial predileção por este tipo de homens mais velhos - os seus mestres - com quem se correspondia e a quem pedia conselhos. Com Higginson, a troca de missivas durou vinte e cinco anos, ela mandava-lhe poemas e trocavam idéias (andará tão ocupado que não possa (ver) se o meu verso está vivo?”) tornando todo esse material essencial para a compreensão da complexa personalidade da poeta. A conversa entre ambos durou algumas horas e se vos falo deste episódio aparentemente banal é porque, como verão, tem uma enorme importância para a compreensão de “A Prisioneira de Emily Dickinson”, o romance de Ana Gusmão que venho apresentar-e não é por acaso que o livro começa precisamente com uma citação de Thomas Wentworth Higginson)
Emily nascera em 1830 naquela mesma cidade. A família era bem conhecida na comunidade, sendo o pai um homem de leis activo na política, seco e rigoroso em casa, mas muito amado pela filha. A mãe era distante, mais do que isso, inexistente, como afirmou a própria Emily. Depois da morte do marido, sofreu uma espécie de paralisia e passou o resto dos seus dias inválida. Emily tomou conta dela com desvelo e esse facto parece tê-las aproximado. Mas as velhas feridas continuaram abertas e as razões para a escolha de vida da poeta poderão ser analisadas, também, à luz das relações familiares.
A família Dickinson é um exemplo que ilustra bem o modo de vida do século XIX com todas as suas bizarrias e contradições.
Os países ocidentais industrializavam-se e a Ciência dava passos de gigante enquanto as mentalidades mudavam radicalmente, com os movimentos abolicionistas e sufragistas, como já referi, mas também com as alterações no âmbito da Religião, da Filosofia, das Ciências Sociais, etc. Desenvolvia-se entre as pessoas uma apetência para tudo o que era novo, moderno, excêntrico, diferente, mas, por outro lado, o ambiente familiar tornou-se cada vez mais claustrofóbicos - anos depois Virginia Woolf foi uma crítica acerba desse sistema - as mulheres fecharam-se ou eram fechadas em casa, sofrendo inúmeras doenças inexplicáveis do foro psicológico e nervoso, enquanto o espiritismo, a magia, o oculto estavam na moda e, no geral, existia uma barreira quase inexpugnável entre o público e o privado, os lares e a vida exterior, o interior da mente de cada um e a aparência que, ao tentar ser mantida a todo o custo, provocava as referidas perturbações e neuroses.

Emily foi uma criança inteligente e viva, era extremamente culta e freqüentou a Academia de Amherst numa época bastante efervescente, em termos culturais, devido à proximidade com Boston, uma cidade cheia de intelectuais, poetas, filósofos, gente que defendia novas religiões e idéias bem como a importância da educação. Era bem versada em Literatura clássica e Inglesa, em Latim, Botânica, Geologia, História, “Filosofia Mental” e Aritmética, mas cedo se mostrou obcecada com a idéia da morte e da decadência, o que tão pouco era estranho naquela época em que o romantismo estava ainda em plena ascensão e em que as mortes se sucediam, fosse por doenças como o tifo ou a tuberculose, fosse pela Guerra Civil americana que ceifou muitas vidas entre 1861 e 1865. No entanto, é preciso dizer que Dickinson, apesar de ser apreciadora da poesia de Keats e de Elizabeth Barrett Browning, por exemplo, sempre evitou o estilo cheio de floreados do seu tempo, criando poemas de uma pureza e de uma concisão surpreendentes, nos quais introduzia a sua visão irônica e espirituosa, totalmente arrojada no que possuía de revelador em relação à natureza humana.

A partir de 1867 o comportamento de Emily foi-se tornando cada vez mais bizarro, tendo ela adquirido o hábito de falar com os visitantes da casa, sem se mostrar, entrincheirada por detrás de uma porta e vestindo-se quase sempre de branco. A sua existência tornou-se motivo de curiosidade na comunidade e havia quem a fosse espreitar como se tratasse de uma “freak“, qualquer anomalia.
Assim, e ao contrário do que podem pensar aquele senhor respeitável e de uma tenacidade a toda a prova de que falei no início, tinha conseguido um feito pouco vulgar: o de visitar, ver e falar com a já então famosa Emily Dickinson que, para além de ter ficado na história da literatura como a mais interessante, criativa e singular poeta do século XIX - e não só - era conhecida como “a reclusa de Amherst” pela sua aversão cada vez maior em sair de casa ou “deixar-se ver”. Por decisão própria - “não passo para além do território (que pertence ao) do meu pai” - tinha optado por se encerrar em casa, no seu mundo familiar e encantatório, dedicando-se à jardinagem e à escrita - da sua poesia e de cartas, através das quais contatava com o mundo exterior - e convivendo apenas com a família mais próxima, isto é, com a irmã Lavínia, o pai, a mãe e o irmão Austin bem como com o seu bem amado cão, Carlo e, depois do casamento de Austin, com a sua bem amada cunhada, Susan.
Gostaria só de acrescentar, ainda sobre Dickinson, que a sua obra é fértil em sinais, em simbologias, em metáforas, em mistérios. A sua complexa relação com os que lhe eram mais próximos - principalmente com a sua cunhada Susan - a surpreendente facilidade com que se dava com as crianças - no caso dela os sobrinhos - e a sua decisão de se “alimentar de solidão” porque era este o estado que melhor a predispunha para a criação - sua poesia é recheada de emoções, de experiências sensoriais, de visões - fazem dela uma personagem muito peculiar e extremamente original, também no que toca à sua obra, diferente de tudo o que se estava a produzir na época.

Tudo isto - e já falei demais de Dickinson, mas ao lerem o livro de Ana Nobre de Gusmão saberão muitas outras coisas e compreenderão como, ao falar da poeta, estou a dar-vos pistas para esta obra - é um material perfeito para escrever um romance. Mas Ana Gusmão fez muito mais e com uma habilidade fora do comum criou outro universo - contemporâneo atual - que se entrelaça com o da “bela de Amherst” sem utilizar paralelismos óbvios, passando com notável fluidez de um registro para o outro e evitando as armadilhas muito conhecidas de quem produz este tipo de romances. Trata-se aqui da história de Emília que, por sua vez, se torna, ela própria, “prisioneira” da recordação e da imagem de Dickinson. Entre estas duas aprisionadas pelas suas fantasias e escolhas de vida existe mais do que um espaço temporal ou uma mera obsessão. Existe tensão, paixão, neurose e um crescendo que se resolve num final inesperado e surpreendente.
Emilia - esta Emilia - deixa-se enredar pelo mistério de Dickinson através de uma professora de Inglês que, para além de fascinar com o muito que lhe faz descobrir, ensina-lhe outra coisa muito importante: a dificuldade - e o fascínio que tal representa - em ser-se “diferente”, quando se escolhe uma forma de estar, de agir, de pensar que vai contra a corrente e que não é, portanto, “banal”. Miss Dona é, aos olhos da então pequena Emília, um mistério em termos de sexualidade, de hábitos, de escolhas; é, ainda, um saudável e refrescante contraponto à própria mãe, uma mulher amarga, neurótica e repressiva - outra prisioneira, portanto, neste caso, uma prisioneira dos seus próprios recalcamentos e humilhações. A filha, Emília, é uma jovem solitária e de temperamento excitável e melancólico que cria para si um mundo encantado com amigos inventados e permanentemente em mudança, pela força da sua potente imaginação. Com esta mistura explosiva, não é de espantar que Emília deseje tornar-se poeta.
“Emily Dickinson habita em mim como uma doença crônica
por vezes dormente, outras penosamente presente” escreve Ana Gusmão pela voz da sua personagem. Essa “doença crônica” afeta a vida e o comportamento, bem como as emoções. Emilia, mulher solitária e com dificuldades em estabelecer relações duradouras e em criar raízes, muda de casa com freqüência e, quando o leitor inicia a sua viagem e entra na ação presente, todo o passado de Emília converge para um estranho apartamento cujo vizinho é alguém tão fugitivo e fugidio quanto ela - embora por outras razões - e trava conhecimento com uma criança carente - tão abandonada quanto ela - que se aproxima dela.
Gradualmente vamos entrando num universo que nos prende cada vez mais, à medida que os mistérios se adensam: quem será a figura misteriosa da ex-mulher do homem por quem Emília se apaixona? E como vive ela essa potencial relação amorosa? Porquê o medo da aproximação e da intimidade num tempo de facilidade de contacto e de comunicação? O que seria bastante comum no século XIX - no caso de Dickinson - torna-se estranho no século XXI com todas as facilidades de comunicação. É verdade que Emilia, como qualquer pessoa do seu tempo, recorre à Internet para o contacto com o exterior. A troca de e-mails é como uma corrente de palavras, expressões, ritmos e sinais tão potentes e arrebatadores como as cartas que Dickinson enviava em catadupa para a casa do lado ou para os seus correspondentes espalhados pela América. É nessa troca de mensagens de Emília que Ana Gusmão mostra como utiliza magistralmente a linguagem sincopada e plena de símbolos do correio eletrônico (já alguém reparou como se tornou banal usar símbolos no e-mail, basta ir buscá-los ao ficheiro apropriado!) para ilustrar o crescendo da tensão entre Emília e o seu misterioso correspondente.

Emily Dickinson, a sua vida e obra são, portanto, os detonadores para esta história. Dickinson foi caracterizada por muitos como semi-inválida, agorafóbica, eremita - Emilia não o é, mas anda lá perto - mas, na sua obra, é fácil descortinar, não uma mulher cortada do mundo, mas alguém com um intelecto sofisticado, um seu humor cáustico e muitas vezes sombrio bem como uma alegria celebratória da vida, das paixões, da energia e da beleza. De notar o ritmo muito próprio dos seus versos, a cadência modulada por interrupções bruscas, a utilização nada convencional de letras maiúsculas, de hífens e de pontos de exclamação bem como uma muito peculiar - e por vezes desarmante - uso da metáfora.
Para quem já conhece a obra de Ana Nobre de Gusmão - de livros anteriores - será fácil compreender a atração que Dickinson exerce sobre ela. A sua escrita é tudo menos convencional, embora a sua limpidez afaste a dificuldade obscurantista que se cola a muitos escritores que utilizam um estilo marcantemente individualista. “A Prisioneira de Emily Dickinson” é uma viagem por vezes acidentada, por vezes divertida e irônica, com um toque de romance gótico, a influência subtil de Henry James e o fôlego de uma grande escritora que, para além de contar a “sua história” nos dá a conhecer o universo de Dickinson e do seu gênio. O facto de Ana Gusmão chamar a atenção para toda uma nova linguagem (que tem surgido em forma de e-mails e mensagens escritas telefônicas) e a forma como a utiliza com uma segurança e ritmo invejáveis no seu romance é um dado a acrescentar aos muitos que farão desta leitura uma experiência inolvidável.

A Prisioneira de Emily Dickinson
Ana Nobre de Gusmão
Ed. Asa, Lisboa, Maio, 2008, 320 págs. 13,50 euros

http://ananobredegusmao.com


 

 

 

 

 

 

Jornalista Ana Lucia Vasconcelos

Web designer-Edson Souza