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A
arte na Trilogia da Vida de Pasolini
Igor Bezerra

Na Trilogia da Vida, de Pier Paolo Pasolini, composta
dos filmes Decameron (1971), The Canterbury Tales (1972) e Arabian Nights
(1974), temos, principalmente nas duas primeiras películas, uma
reflexão acerca da arte. Apesar da constante sexualidade explícita
que permeia os filmes, temos, entre as histórias que se passam
em Decameron, a de um pintor (interpretado pelo próprio Pasolini)
que chega a uma cidade para pintar o retábulo de uma igreja e,
ao final desta narrativa, que também encerra o filme, a pergunta:
“Por que fazer arte se sonhar com ela é tão mais doce?”
Ou seja: por que fazer arte se esta á uma empreitada fadada ao
fracasso, ao não conseguir ser tão doce quanto o referido
sonho, não tão real quanto a própria natureza ou
não ser tão bela quanto a vida?
Sendo a arte inútil, como pretendia Wilde, por que fazê-la?A
resposta será dada no filme seguinte, The Canterbury Tales,
onde, no meio de mais histórias de sexualidade aflorada, temos
a figura de um escritor (Geoffrey Chaucer- que é o próprio
escritor dos contos que dão base à película, e mais
uma vez interpretado por Pasolini). Mais uma vez ao final, vem a solução
para o problema anterior, na seguinte frase: “Aqui terminam esses
contos, narrados pelo simples prazer da fazê-lo.”A saída
da aporia sugerida por Pasolini não poderia encerrar em si maior
simplicidade, sabedoria e imanência: o fazer artístico tem
sua razão e justificação no prazer do constructo
e é, por sua vez, um constructo de prazer.No filme que encerra
a Trilogia, Arabian Nights, a questão da arte não
é explicita como nas outras duas obras e é unida a uma outra:
um jovem decide fazer um mosaico para uma rainha que tem aversão
a homens, e pretende assim conquistar o amor da mesma. Pretensão
bem sucedida: a arte aqui serve para criar ou despertar o amor.
E, o que é o amor se não uma forma de prazer? E o que seria
isso se não um prazer gerando outro? É capital lembrar que
as obras que dão origem à Trilogia de Pasolini se passam
em situações adversas: a peste em Decamerone, a
difícil viagem para a Cantuária em The Canterbury Tales
e o Sultão versus Cherazaade em As Mil e Um Noites. E,
de situações adversas que gerarão dor, através
da narrativa dessas histórias, temos a extração do
prazer. E, no fundo, seja isso o que podemos assimilar da referida obra
pasoliniana: a arte como fonte de prazer e escamoteamento da dor: isso
baseado nas noções morais humanas onde podemos alargar e
dizer que a vida consiste em aumento do prazer e supressão da dor.
Contudo, não tomemos a arte aqui como a fonte prazer, mas como
uma fonte de prazer, como o é o automóvel para o piloto,
a jogo para o atleta, a cozinha para o cozinheiro e o sexo para o ninfomaníaco.
Então, o fato de se fazer arte não terá que ver com
o contato com a idéia do Belo, ou a intuição que
conhece puramente a Idéia ou ainda a educação humana.
A arte é produzida e recebida unicamente com vistas ao prazer e
o que se possa seguir daí vem a reboque, como nos mostra Arabian
Nights, em que o prazer de fazer arte desemboca o prazer de amar.
Assim, não há qualquer suporte oculto por trás da
arte: é apenas um exercício que dá prazer a alguns
e, quiçá, o que está atrás de tudo seja o
prazer.
Igor Bezerra, 21 anos, natural de João Pessoa,
bacharel em Filosofia pela UFPB artista plástico e escritor.
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