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O
deserto como representação do vazio: entorno de Antonioni
Igor Bezerra
Pretendeu-se primeiramente tratar de The Passenger (Passageiro
– Profissão: Repórter), filme de 1975, no
qual o personagem vivido por Jack Nicholson chega ao auge do incômodo
existencial contemporâneo. Contudo, ao pensar na seqüência
primeira da película, que acaba por findar-se na solidão
de Nicholson em um deserto, demonstrou-se inevitável voltar um
pouco antes na obra do mestre italiano e remeter-se a Il Deserto
Rosso (O Deserto Vermelho), estralado por Monica Vitti, no qual
é possível fazer uma relação, em níveis
diferentes, da associação entre deserto e vazio. Muito embora
o filme de 1964 apresente personagens abastados de maneira extremamente
lenta, e outro narre um thriller internacional, pode-se ver, em ambos,
um matiz existencial.
No que toca O Deserto Vermelho, a referência consiste
unicamente em relação ao título. Não se tem
qualquer paisagem árida durante o filme. Primeiro uma indústria
funcionando, e depois interiores; no máximo ruas quase vazias,
mas, com o mínimo de presença humana para descaracterizar
qualquer tomada a qual se poderia relacionar com um céu azul inclemente
e uma areia infinita. Pelo contrário, céu cuidadosamente
nublado e tomadas nas quais a solidão absolutamente física
não é possível.
Portanto, a ponte só se mostra possível quando de esquece
a questão física e se passa para apreciação
psíquica, humana ou existencial da personagem principal. Assim
sendo, a questão do título se esclarece quanto a referência
ai deserto, mas, não quando se pensa no vermelho, uma vez que essa
cor não predomina no filme, e nem as metáforas e associações
concernentes a esta cor são possíveis, uma vez que a personagem
de Vitti sempre transparece uma indiferença ante tudo: eis um pouco
do deserto...
Talvez o deserto, para Antonioni, seja como metáfora textual ou
visual, queira significar o vazio contemporâneo. A personagem de
Vitti não demonstra qualquer atenção em relação
a seu marido e seu filho; chega quase a ser-lhe indiferente: de fato,
ela tenta suicídio, o que se começa a se perceber quando
o seu marido fala para um amigo que ela ficou internada; e quando esta
mesma revela a esse amigo a tentativa de suicídio, passando-se
por outra (uma companheira de quarto) para confessar o feito.
Fim das contas, eis o deserto explicado: o suicídio preferido dada
a impossibilidade de amar o filho e o marido, ou seja: o vazio de uma
vida que se seguiu até este ponto. Vermelho, quiçá,
por representar as afecções das quais ela não é
capaz. Tudo posto: deserto como representação do vazio da
personagem. E mesmo qualquer oportunidade apaixonante para ela se manifesta
de maneira complicada, quando da vez que come um afrodisíaco, mas
é incapaz de demonstrar o desejo que possivelmente sente pelo amigo
de seu marido. Ainda, quando de fato chega a se encontrar amorosamente
com aquele, a relação se desvela complicada.
No mais, o filme encerra como termina: na paisagem desolada entorno da
indústria: locação, quiçá, tão
típica do neo-realismo italiano, a qual pode remeter a Il
Grido (O Grito), de 1957, filme o qual se pode enquadrar naquela
escola cinematográfica e onde já se encontra o tema capital
do diretor: o vazio. Por mais que se queira pensar Antonioni um necessariamente
anti-burguês, que preocupa em demonstrar o vazio desta esfera social
pode-se perceber que o diretor também vê esse sentimento
no dito proletário, no homem que trabalha como mostra a película
de 1957. Inclusive, neste sentido, é capital lembrar que os seus
protagonistas vão cada vez mais se tornando pessoas ligadas à
arte ou cultura, talvez alguma intelectualidade, em detrimento dos burgueses
de outrora que praticamente nada faziam além de festas. Note-se
o fotógrafo de Blow-up (Depois daquele beijo),
de 1966, o jornalista de Profissão: repórter (ao
qual se retornará) e o cineasta de Identificazione di unna
Donna (Identificação de uma mulher), de 1982.
Contudo, voltando a O Deserto Vermelho, delineia-se outra
perspectiva do tratamento do vazio e do deserto, neste choque entre uma
paisagem semivirgem que apenas penetrada pela referida indústria.
Pode-se estabelecer uma relação entre homem e mundo, no
sentido em que o homem quer dominar e explicar a natureza, mais isto acaba
sendo também inútil: lembre-se de Camus, o deserto de consciência
ante o absurdo. E, aqui também, nem o suicídio é
resolução do problema, uma vez que este não é
conseguido: tem-se a mesma apatia passada, embora ela não tenha
sido demonstrada.
Posto isto, passa-se para o outro ponto, The Passenger,
no qual Antonioni já não tem mais a sua musa, Monica Vitti,
e passa a conceber protagonistas masculinos como o fizera em O
Grito, por exemplo. Desta feita, tem-se Jack Nicholson, vivendo
David Locke, jornalista inglês que faz uma reportagem na África.
Nas primeiras seqüências vemos Nicholson indo à busca
de qualquer coisa, que ele não encontra, e acabando por descambar
em um deserto, sozinho com o seu carro atolado. Talvez a face do personagem
na cena seja emblema do desespero ante a desolação, o vazio.
Dado este evento, Nicholson volta ao hotel e acaba por encontrar o seu
vizinho de quarto, com o qual se parece fisicamente, morto, e, deste feita,
decide assumir a identidade deste: feito o estelionato, enterra o morto,
que oficialmente é ele mesmo e parte para a Inglaterra. Mantendo
consigo a agenda do fisicamente morto, passa cumprir os compromissos deste
e termina por desembarcar na Espanha, onde, estabelecidos alguns contatos,
e, tendo conhecido uma moça (Maria Scheneider), e na seqüência,
que está sendo procurado, não como David Locke, mas com
a nova identidade, foge com a personagem de Schneider, a qual reencontra
num prédio de Gaudí. Cruzam paisagens indeterminadas enquanto
o cerco vai se fechando em torno do personagem de Nicholson. Cena representativa
do vazio deste é quando a personagem da Schneider pergunta o que
ele irá fazer dali em diante e a resposta subseqüente: “garçon
em Ibiza, escritor em Tanger, traficante de armas”, (o que realmente
se tornou). A essas alternativas, ela comenta: “muito óbvio,
muito romântico e muito improvável”.
Enfim, o que transparece no personagem de Nicholson é a indiferença
quanto a seu futuro, desde que não seja o que poderia se desenrolar
caso ele se mantivesse na antiga ocupação. Tem-se então
aqui a constatação da absurdidade, do vazio, que se tinha
na “vida anterior” e a busca de uma solução
para o que lhe consumia. Viver sem precedentes pode ajudar, mas a consciência
ante o absurdo da vida sempre se demonstra e a morte é inevitável.
Aqui se pode fazer uma relação com Sísifo: este morre
e pede que sua mulher não cumpra as honras fúnebres e deste
modo Sísifo pode perceber o que foi feito de sua memória
e, ao mesmo tempo, ao lançar um engodo à Morte, retorna
a viver na terra tão amada. Assim o é o personagem de Nicholson:
em sua oficial morte reconhece o que se fará do que ele foi e,
em adição, recobra o seu desejo de viver.
Entretanto, quando a polícia está em seu encalço,
acaba por morrer, nas instalações de um hotel barato, no
qual já estava a personagem de Schneider e aonde chega, por fim,
a polícia. Em suma: dada as duas películas, vê-se
que o suicídio não é a solução e que,
por mais que se tente burlar esta realidade única, ao cabo, a morte
sempre se revela. E, mesmo assim, o vazio continua: eis o significado
do longo plano-seqüência que encerra o filme em uma paisagem
que nos remete a Giorgio de Chirico: a vida também continua incessantemente,
assim como a contemplação do vazio na figura do dono do
hotel que fuma o seu cigarro ao cair da noite.
Igor Bezerra, 21 anos, natural de João Pessoa,
bacharel em Filosofia pela UFPB é artista plástico e escritor.
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