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Acerca
da Trilogia do Silêncio, de Ingmar Bergman
Igor
Bezerra
A Trilogia do Silêncio, composta por Através de um espelho
(1961), Luz de inverno (1962) e O silêncio (1963), talvez se constitua
no eixo de mudança das preocupações temáticas
do cineasta sueco. Sabe-se que, pelo menos desde O sétimo selo,
as suas preocupações são de ordem metafísica,
notadamente a questão do fenecimento, da morte, e digressões
entorno da natureza divina. E é justamente na referida trilogia
que se tem a acentuação desses temas nas películas
de Bergman, ainda que de forma meio imbricada e, pode-se dizer, com certa
carência de linearidade.
Em Através de um espelho temos a história de uma família,
especificadamente, um pai escritor, seu filho adolescente, sua filha doente
e o marido desta. Dada a enfermidade da moça, castra-se a sexualidade
do casal, a que o marido (vivido por Max von Sydow) tolera pacientemente.
Entretanto, a enferma fica constantemente realizando jogos sexuais com
seu irmão – e a cena em que este derrama um balde de leite
não é despropositada. Assim, enquanto brinca sexualmente
com seu irmão, rejeita o marido – e talvez não seja
por acaso a escolha de Max von Sydow para o papel, uma vez que todos os
personagens que este trabalhou com Bergman têm característica
de sempre cumprir o seu dever; e ele cumpre o dever do marido negado e
paciente com a doença de sua mulher.
E, no tocante à doença dela, o que o pai faz como escritor
que é, é justamente anotar, passo a passo, o progresso da
enfermidade de sua filha. Ao saber disto, o seu genro procura entender
o que se passa na cabeça de seu sogro que, como pai, pouco se preocupa
com sua filha e todo o interesse vertido nela por ele é de ordem
literária. A discussão entre os dois termina na negação
de Deus por parte do pai.
E, uma vez dada a negação de Deus, a aposta do pai para
uma explicação e, talvez, mesmo uma justificativa, é
o amor. Ao cabo da película, a filha, num momento de epifania,
vê Deus na figura de uma aranha, e, logo mais, vai interna.
Em Luz de inverno a temática metafísica é abordada
através do suicídio. Desta feita, o personagem de Max von
Sydow, ao saber que a China tem a bomba nuclear chega, pode-se dizer,
a constatação do absurdo da existência. Desta maneira
o referido personagem vai a procura do pastor para ser consolado, por
assim dizer. Acontece que o próprio pastor perdeu a fé,
e, portanto, sua ajuda se mostra vazia: eis uma das formas nas quais de
pode reconhecer o silêncio. O personagem de Max von Sydow por fim
comete suicídio, dada a impossibilidade de ajuda, mesmo comunicação
entre si e o pastor. Ademais, este mesmo reconhece sua perca da fé
ao dizer que Deus está silencioso: outro viés do mesmo tema.
Ora, o pastor acreditava numa relação muito particular sua
com Deus: um entendimento perfeito e abstrato o qual cai por terra dada
a morte de sua mulher. Tudo se passa como se ante os desastres terrenos
a divindade seja muda. Em adendo, cabe notar que este pastor acredita
em um Deus-aranha, o que remete à epifania gozada pela personagem
de Através de um espelho. O que vem a ser esse deus-aracnídeo
pouco se sabe.
Ainda em Luz de inverno tem-se o conturbado relacionamento entre o pastor
e uma professora local. Esta ama aquele, que a odeia. Assim sendo, estabelece-se
uma relação amorosa que não dá em nada, fadada
ao fracasso, o que já se poderia perceber na primeira película
da trilogia. Portanto, mais uma vez o amor se mostra silencioso. Neste
tocante é importante notar que a aversão a qual o pastor
tem pela professora se inicia quando esta lhe mostra as chagas as quais
possui. Ou seja, a qualquer aberração corpórea o
amor pode se apagar. Destarte, a característica sublime e possivelmente
redentora deste se mostra castrada por um simples evento carnal.
Já em O silêncio temos a radicalidade de todo o tema. Aqui,
sequer os problemas metafísicos são colocados: parte-se
do dado concreto das relações humanas e as preocupações
acerca desta. Eis então a viravolta na temática de Bergman,
a qual vai paulatinamente se deslocando da ordem metafísica para
a ordem dos relacionamentos. Tem-se, desta feita, duas irmãs e
o filho de uma delas, viajando de trem até que são obrigados
a parar em uma cidade estranha. No próprio comboio já se
percebe o distanciamento entre as duas irmãs e desta em relação
à criança, que brinca sozinha no corredor. Ao chegar à
cidade estranha, da qual nada se conhece, nem mesmo a língua (e
isso é capital), se instalam em um hotel, ocupando um aparelho
com duas câmaras distintas e ligadas entre si. A criança
sai em peregrinação solitária pelo hotel até
que encontra um grupo de anões circenses, com os quais começa
a se entreter, a manter relações amistosas. Contudo, sua
mãe acaba por descobrir o seu paradeiro e, por fim, leva-o embora
de sua satisfação lúdica. A criança dá
banho em sua mãe e depois esta sai, deixando-a com a tia, que está
doente. Dado certo momento o serviço de quarto se apresente e a
comunicação se mostra deficitária. Entretanto, depois,
a criança consegue se entender parcialmente com o criado. Enquanto
isso, a mãe vai sozinha a um café, onde flerta com um rapaz
e, depois disto, termina em um teatro, onde se vê voyeur de uma
relação sexual a qual acontece a sua frente. Narra o fato
a sua irmã e depois têm qualquer discussão.
A mãe então parte para um encontro amoroso com um homem
que havia conhecido na ocasião da ida ao café. O próprio
ato sexual se mostra complicado, e, ao cabo deste, sua está à
espreita, atrás da porta. No final do filme, a mãe parte
com a criança, deixando sua irmã doente convalescendo aos
cuidados de outrem. Esta entrega a seu sobrinho uma relação
de palavras da língua estrangeira e suas respectivas traduções.
Não por acaso ela é tradutora: eis a exposição
que mesmo com o conhecimento de várias línguas a torre de
Babel se estabelece. A comunicação ou é impossível
ou é inútil, e, destarte, manifesta-se o silêncio.
Agora, um parêntese. Ortega y Gasset, partindo de Spinoza e seu
amor intellectualis, define a filosofia com ciência do amor, em
seu primeiro livro, Meditações do Quixote. Ainda, estabelece
o filósofo espanhol que o amor é, digamos, esse desejo de
construir relações entre as coisas; e, isso pode se dar
tanto no âmbito intelectual, ao, em filosofia, querer-se construir
relações entre coisas e fenômenos para poder explicá-los,
como também, logicamente, no tocante humano, no que tem que ver
com o homem e suas relações com os outros.
O ódio, em contraposição, se dá pela não
relação entre as coisas, entre as pessoas, portanto.
Estabelecida essa digressão filosófica e, dada a impossibilidade
de resolução das questões metafísicas no âmbito
divino, uma vez que Deus está silencioso, também se transparece
como fracassada a aposta no amor, nas relações humanas como
forma de sanar os problemas existenciais, uma vez que também a
comunicação dos homens entre si se mostra inútil,
deficitária, e, desta feita, castra-se a possibilidade de relação
satisfatória entre eles, e, portanto, o sucesso do amor em responder
essas questões. Mesmo o que subsiste demonstrado em toda a trilogia
seja um ódio entre os personagens; ou seja, a impossibilidade de
relação entre eles. Ao cabo de tudo, fica-se com uma inconsolável
solidão.
Igor Bezerra, 21 anos, natural de João Pessoa, bacharel em Filosofia
pela UFPB é artista plástico e escritor.
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