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Tão
Longe, Tão Perto Arthur Tuoto
Um cinema de fronteiras, físicas e sentimentais. “Código
46” (2003), um filme pseudo-futurista de Michael Winterbottom, tenta
mesclar as duas coisas. Não tem um resultado que me agrada, mas
existe algo em sua tentativa que me cativa. Quando a personagem de Samantha
Morton narra, no começo do filme, o primeiro encontro com um possível
estrangeiro, aquilo se torna pessoal e, de certa forma, eu ignoro a irregularidade
do filme e me entrego a esses sentimentos, justamente por me identificar
demais com eles. “Código 46” narra uma relação
de distância que tenta ser plena em sua curta existência.
Os motivos da ruptura devem-se aos quesitos futuristas do filme, que aqui
vamos ignorar - seja isso bom ou não. O que me interessa é
essa plenitude curta, essa distância presente de maneira quase obsessiva
na minha própria realidade. Pequenas relações à
distância que de nenhuma maneira são menos intensas por isso,
pelo contrário, eu até mesmo consigo encontrar uma intensidade
paralela nesses quilômetros e quilômetros que me fazem distante. A maneira quase destrutiva com que Sam Shepard se relaciona com as mulheres de seus contos, que ainda assim tendem a ir por um caminho doce (mesmo quando pessimista) em sua conclusão, nunca foi melhor transcrita para o cinema do que em “Paris, Texas” (1984), de Win Wenders. A fronteira aqui não é exatamente entre um homem e sua mulher, ela atinge outros níveis, é uma fronteira entre um homem e seu território, seu mundo. Ao longo de sua vida, Sam Shepard nunca conseguia ficar muito tempo em um mesmo lugar. Longas viagens pelos EUA, pequenas relações, fragmentos de uma angústia que se refletia na estrada, ou seja, uma distância por opção. Claro que talvez a única opção para a personalidade desse homem - coisa que vemos claramente em “Paris, Texas” e, principalmente, em sua carreira literária e dramatúrgica. Mas, ainda assim, toda uma vida distante, um mundo à parte e cheio de pequenos hábitos característicos. A mesma impressão deslocada, a mesma ameaça feminina. Finalmente certo entendimento dessa solidão selvagem por uma contemplação externa. Shepard, ao olhar para si mesmo, nos ensina que a distância e a solidão são fatores da natureza. O que nos faz humanos é esse deslocamento, praticado com bom senso e aberto a possibilidades. Não obstante a essa possibilidade, Sam Shepard se encontrou com Jessica Lange depois de toda essa jornada, o que talvez o tenha salvo dele mesmo.
Em “Brockeback Mountain” (2005), de Ang Lee, temos uma distância
em forma de complexo, que cria fronteiras morais na relação
entre dois homens. Ennis Del Mar não está em nenhum lugar
e não é nada. O complexo de Ennis é justamente seu
amor por Jack. Sendo assim, Ennis só consegue ver seu amor (uma
camisa ensangüentada) e o lugar nenhum (uma montanha), resultando
no seu complexo, uma maneira distante de enxergar o mundo. Ennis compôs
o plano final que define sua existência e sua tragédia, num
filme que tem na moralidade a distância que condena duas vidas.
Aqui a distância entre Ennis e Jack foi fatal, a armadilha já
estava feita. Se em um primeiro momento a distância pode intensificar
o fracasso de certas relações, seja pela incomunicabilidade
ou pelas fronteiras sentimentais, em um estudo mais profundo ela surge
como uma solução individual para um amor próprio
que se torna um amor pelo outro. Originalmente
publicado na Revista Muro
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Jornalista Ana Lucia Vasconcelos Web designer-Edson Souza
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