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Filosofia Clínica & Cinema: O uso do cinema...

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Tão Longe, Tão Perto
o cinema da distância

Arthur Tuoto

Um cinema de fronteiras, físicas e sentimentais. “Código 46” (2003), um filme pseudo-futurista de Michael Winterbottom, tenta mesclar as duas coisas. Não tem um resultado que me agrada, mas existe algo em sua tentativa que me cativa. Quando a personagem de Samantha Morton narra, no começo do filme, o primeiro encontro com um possível estrangeiro, aquilo se torna pessoal e, de certa forma, eu ignoro a irregularidade do filme e me entrego a esses sentimentos, justamente por me identificar demais com eles. “Código 46” narra uma relação de distância que tenta ser plena em sua curta existência. Os motivos da ruptura devem-se aos quesitos futuristas do filme, que aqui vamos ignorar - seja isso bom ou não. O que me interessa é essa plenitude curta, essa distância presente de maneira quase obsessiva na minha própria realidade. Pequenas relações à distância que de nenhuma maneira são menos intensas por isso, pelo contrário, eu até mesmo consigo encontrar uma intensidade paralela nesses quilômetros e quilômetros que me fazem distante.
Esse amor torto de “Código 46” me parece, às vezes, um amor muito mais honesto que esses longos e intermináveis romances de certas sagas do cinema clássico. Justamente porque no filme de Winterbottom existe uma gama de possibilidades a cada segundo, dando uma impressão de fragilidade aos personagens. O que, conseqüentemente, faz com que surja uma maior identificação com o espectador, visto que todos nós estamos à mercê dessas possibilidades, novas interações, todos os dias de nossas vidas, mesmo nos esquecendo disso em certos momentos. Possibilidade que me remete a “Encontros e Desencontros” (2003), de Sofia Coppola.
Qual é o principal assunto desse filme, se não a possibilidade de uma nova interação? Outra vez física (com o ambiente) e afetiva (com outra pessoa). Charlotte está distante do seu país natal e distante do seu companheiro atual. A distância gera medo, mas gera possibilidade. Charlotte está perdida, mas nem por isso desesperada, vai de encontro a essa nova possibilidade e a aceita carinhosamente. Diferente da maneira que a maioria das pessoas trata essa distância atualmente, pois vêem nela um significado de não-relação e esquecem das possibilidades- aquilo que faz tudo acontecer.

A maneira quase destrutiva com que Sam Shepard se relaciona com as mulheres de seus contos, que ainda assim tendem a ir por um caminho doce (mesmo quando pessimista) em sua conclusão, nunca foi melhor transcrita para o cinema do que em “Paris, Texas” (1984), de Win Wenders. A fronteira aqui não é exatamente entre um homem e sua mulher, ela atinge outros níveis, é uma fronteira entre um homem e seu território, seu mundo. Ao longo de sua vida, Sam Shepard nunca conseguia ficar muito tempo em um mesmo lugar. Longas viagens pelos EUA, pequenas relações, fragmentos de uma angústia que se refletia na estrada, ou seja, uma distância por opção. Claro que talvez a única opção para a personalidade desse homem - coisa que vemos claramente em “Paris, Texas” e, principalmente, em sua carreira literária e dramatúrgica. Mas, ainda assim, toda uma vida distante, um mundo à parte e cheio de pequenos hábitos característicos. A mesma impressão deslocada, a mesma ameaça feminina. Finalmente certo entendimento dessa solidão selvagem por uma contemplação externa. Shepard, ao olhar para si mesmo, nos ensina que a distância e a solidão são fatores da natureza. O que nos faz humanos é esse deslocamento, praticado com bom senso e aberto a possibilidades. Não obstante a essa possibilidade, Sam Shepard se encontrou com Jessica Lange depois de toda essa jornada, o que talvez o tenha salvo dele mesmo.

Em “Brockeback Mountain” (2005), de Ang Lee, temos uma distância em forma de complexo, que cria fronteiras morais na relação entre dois homens. Ennis Del Mar não está em nenhum lugar e não é nada. O complexo de Ennis é justamente seu amor por Jack. Sendo assim, Ennis só consegue ver seu amor (uma camisa ensangüentada) e o lugar nenhum (uma montanha), resultando no seu complexo, uma maneira distante de enxergar o mundo. Ennis compôs o plano final que define sua existência e sua tragédia, num filme que tem na moralidade a distância que condena duas vidas. Aqui a distância entre Ennis e Jack foi fatal, a armadilha já estava feita. Se em um primeiro momento a distância pode intensificar o fracasso de certas relações, seja pela incomunicabilidade ou pelas fronteiras sentimentais, em um estudo mais profundo ela surge como uma solução individual para um amor próprio que se torna um amor pelo outro.
Sam Shepard aprendeu a amar fugindo. Charlotte foi entender as possibilidades da distância do outro lado do mundo. Ennis e Jack nunca foram plenos, não devido a eles mesmos, mas sim à distância moral- que em certos casos pode destruir qualquer coisa. Por isso a culpa não é da distância, o que me mantém longe de você é apenas terra, é um obstáculo físico, de relativa fácil superação. A culpa toda é nossa e da maneira de lidar com essa distância que nos acomete e que é absolutamente inevitável.

Originalmente publicado na Revista Muro
Arthur Tuoto, 22 anos é cineasta independente e crítico de cinema e vive em São Paulo. Seu trabalho inclui curta-metragem, videoarte, videoclipe, documentário e fotografia. Com um trabalho que busca, na experimentação da narrativa digital, um cinema atmosférico e celebrativo, seus vídeos já foram exibidos em diversos festivais nacionais e internacionais, assim como em vários canais de TV. Sua obra tem como principais temas: alienação, solidão e espiritualidade. Vive em São Paulo, Brasil. / Curitiba - PR / Brasil.


http://arthurtportfolio.blogspot.com/



 

 

 

 

 

 

Jornalista Ana Lucia Vasconcelos

Web designer-Edson Souza