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| Ser e aparência em Persona de Bergman __________________
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Ser e aparência em Persona de Bergman Igor Bezerra
Persona,
filme de Ingmar Bergman, de 1966, nos transparece, ao seu longo, a questão,
tão cara à filosofia, do ser e da aparência, ou, se
quisermos, de ser e aparecer. “Pensa que não entendo? O inútil sonho de ser. Não parecer, mas ser. Estar alertar em todos os momentos. A luta: o que você é com os outros e o que você realmente é. Um sentimento de vertigem e a constante fome de finalmente ser exposta. Ser vista por dentro, cortada, até mesmo eliminada. Cada tom de voz uma mentira. Cada gesto, falso. Cada sorriso uma careta. Cometer suicídio? Nem pensar. Você não faz coisas deste gênero. Mas pode se recusar a se mover e ficar em silencio. Então, pelo menos, não está mentindo. Você pode se fechar, se fechar pra o mundo. Então, não tem que interpretar papéis, fazer caras, gestos falsos. Acreditaria que sim, mas a realidade é diabólica. Seu esconderijo não é a prova d’água. A vida engana em todos os aspectos. Você é forçada a reagir. Ninguém pergunta se é real ou não, se é sincera ou mentirosa. Isso só é importante no teatro. Talvez nem nele. Entendo porque não fala, porque não se movimenta. Sua apatia se tornou um papel fantástico. Entendo e admiro você. Acho que deveria representar esse papel até o fim, até que não seja mais interessante. Então pode esquecer como esquece seus papéis.” Assim,
o problema central de Elizabet Vogler e, adiante, do filme, passa a girar
entorno da questão entre ser e aparecer. Continuado o curso do filme, a enfermeira Alma (Bibi Andersson) é encarregada de cuidar da atriz e, como esta não apresenta qualquer caso clínico, elas partem para repousar numa casa de praia na costa sueca. Ao chegar lá, Elizabet Vogler permanece calada e a enfermeira Alma passa a narrar quase que compulsivamente a sua vida, como uma forma de quebrar o silêncio ressonante da atriz e, desta forma, manter o caráter de aparência na casa. Assim, enquanto Elizabet mantém o seu silêncio tentando salvaguardar o seu ser, Alma permanece falando copiosamente e, portanto, dando lugar à sua aparência, a qual serve de material de análise para a atriz. É
só quando Alma descobre que Elizabet está analisando-a que
a primeira decide se colocar em pé de igualdade com a última.
Isto ocorre na segunda metade do filme, demarcada pela película
queimada e que transparece justamente essa mudança de direção.
Desta forma, Alma deixa de contar os seus casos e passa, à sua
maneira, a ser agressiva como crê que Elizabet o é. Chega
a clamar, inclusive, por uma palavra da atriz, como que para trazer a
tona a aparência, porém, inutilmente. No entanto, é no momento em que mais se fala no filme que parece transparecer o seu teor em relação às duas mulheres. Refiro-me à seqüência em que Bibi Andersson fala duas vezes o mesmo monólogo (ou a mesma análise ou veredicto), sendo a primeira vez em uma tomada de costas e a outra em uma tomada de frente, como se Bergman quisesse sugerir que ambas as mulheres falam, embora se utilize apenas uma como veículo. Ao final da seqüência tem-se a espantosa montagem dos lados mais feios do rosto de cada uma das atrizes, o que nos faz perguntar, ou, ainda mais, concluir, que são e mesma pessoa. Interessante
notar que é justamente no ponto mais excessivo de fala e, portanto,
de aparência, que se desvela o ser do filme, por assim dizer. E,
além, percebe-se que mesmo em sua tentativa silenciosa de ser,
Elizabet Vogler fracassa em sua alma de eterna atriz e, portanto artista
aparente, o que já fora previsto no veredicto da médica.
Contudo, podemos concluir que assim como o excesso de fala (aparência)
desvela o ser do filme, o silêncio (outrora ser) é por sua
vez aparência, e a fala, como aparência que é, pode
desvelar o ser. Assim, podemos pensar que só é possível
chegar ao ser através da aparência (como se houvesse outra
maneira), e que este não pode nem se destituir nunca daquela.
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Jornalista Ana Lucia Vasconcelos Web designer-Edson Souza
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