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En la ciudad de Sylvia

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En la ciudad de Sylvia

Arthur Tuoto


Existe uma geografia bastante particular no filme En la ciudad de Sylvia de José Luis Guerín, (Espanha/França, 2007) tanto no sentido de seu espaço físico, como de sua formação plástica na mise-en-scène e de sua interação entre humanos-cidade. Tendo uma premissa simples, homem vagando por cidade desconhecida, a principal força do filme vem de uma relação criada na tela entre espectador-personagem: Xavier Lafitte como o homem sem nome. E seu relacionamento imaginético com a cidade e as pessoas que o cercam: as ruas e personas de Estrasburgo. Os 84 minutos de duração do filme de Guerín são muito mais uma reflexão sobre a liberdade e a força do nosso olhar como espectador (não como espectador do filme, mas como espectador da vida acontecendo, como é o caso do homem sem nome) do que qualquer possível laço narrativo que vá se criar nesse ambiente.


O que fascina é o movimento, o segredo está escondido na confusão de rostos e vozes que são observados por nós, espectador-personagem, entre fregueses de um café, logo no início do filme. Mas existe mesmo um segredo? Usando um caderno para anotações e desenhos - a ferramenta de interpretação-leitura para nosso personagem - ele mesmo parece se confundir ao tentar refletir seu olhar nos desenhos e textos. Das cabeças que se recortam no café; ao conversar, ficar em silêncio, mexer no cabelo, aos reflexos que se confundem pelas janelas envidraçadas dando um sentido duplo de dimensão. Que pelos certeiros enquadramentos de Guerín, compartilhamos um jogo de interação quase transcendental nesses olhares, planos e reações


Seu ápice provavelmente é quando vemos as folhas de uma árvore próxima refletindo suas sombras nas páginas brancas do caderno do homem, como uma pintura projetada que se movimenta, e ele, apenas com o lápis paralisado, observando. O reflexo direto de seu objeto em sua ferramenta, ou seja, não existe meio de criação-interpretação, apenas de olhar: é disso que En la ciudad de Sylvia se trata.E com o movimento, vem a energia. Talvez ela seja o segredo que conquista a nós e a nosso personagem. A imanência da cidade e seus corpos, um elemento sempre presente em qualquer lugar do mundo, elevado aqui a um nível sensorial por Guerin que pode nos remeter a vitalidade dos filmes de Hou Hsiao-Hsien. Mas que em Sylvia, adquire tons particulares quando vemos a exata feição do rosto dessas pessoas, personagens outra vez sem nomes, mas que explicitamente carregam um peso que captamos junto a nossa observação. Ou seja: Guerín chega a uma das máximas do cinema, relacionar uma imagem a um possível pensamento/sentimento interior sem mostrar nada a não ser a própria imagem estampada. E é nesse primitivismo da imagem e da observação que o filme nos propõe seus diversos jogos de interação.


Ainda na cena no café, quando observamos o rosto de um freguês sentado, com uma feição visivelmente conturbada em um plano que dura cerca de um minuto e ao final ele apenas diz “Não” para a pessoa ao seu lado, privando-nos da pergunta inicial. Nesse momento o primitivismo do seu “Não” adquire uma densidade ainda maior em nós, que estamos nos baseando outra vez pela imagem, e não por qualquer outra informação mais prática e óbvia. Por isso o distanciamento em Sylvia é uma prática a favor de seu objetivo enquanto estudo de uma imagem pura e sem pré-conceitos em relação a seus significados. Um rosto que diz não, uma frase dita em um ouvido, alguém que fuma indiferente da conversa que acontece ao seu redor. Imagem pela imagem. Guerin vai celebrando nossa capacidade de observação durante toda a interação de olhar da cena do café. Sendo uma dessas imagens em especial que tira nosso personagem de seu estado de calma, mas por um motivo que outra vez nos é privado. Dai em diante, o homem sem nome passa a seguir pelas ruelas de Estrasburgo uma mulher que o chamou a atenção no café.


Agora a interação não é mais de pessoa-pessoa e sim cidade-pessoa. Sylvia, nome o qual o homem chama a mulher misteriosa do café, vai entrando em uma espécie de simbiose com a cidade durante os vários minutos em que existe um tipo de perseguição contida entre ambos os personagens. Os reflexos da cidade no corpo e na maneira de se locomover de Sylvia vão nos seduzindo a medida que o personagem do homem vai chegando mais perto dela. O trem que atravessa ambos, criando outra vez a dimensionalidade aonde se esconde o filme. As roupas leves de Sylvia que caminha confortável, até um jogo de esconde-esconde geométrico que desnorteiam no meio de um labirinto sem informações, mas bastante forte em sua capacidade funcional.


Porém Sylvia não existe, e se um dia existiu, não é mesma pessoa que nos seduziu até o momento, ou pelo menos não é a pessoa que nosso personagem achou que seria. Por isso todo um jogo de perseguição que durou minutos e atingiu uma densidade bastante rara, foi apenas para concluir que Homem se confundiu com Mulher. Não era quem ele achava que seria. Mas existe mesmo uma grande diferença nisso? O menos que precisamos aqui é informação. A densidade primitiva de Guerin é atingida outra vez pela distância, pela completa nulidade de informações e apenas teorias que deixam a construção de seu filme ainda mais curiosa. É nessa falta de histórico que vive En la ciudad de Sylvia, o que importa não é o que acontece ao nosso redor, mas como nos enxergamos o acontecimento. Mas o que é um acontecimento? Aqui não é drama, é energia e atmosfera que emana do corpo e da cidade. Não existe trama, existe o olhar. Homem é sozinho em sua completa jornada, e mesmo quando ele conversa com alguém em uma boate - o que poderia ser sinal de um laço dramático qualquer que seja - a música é alta e não ouvimos nada em absoluto, apenas sua expressão e a da pessoa com quem ele conversa, e isso já é o necessário para nos cativar outra vez.


Sendo a última parte do filme o que melhor conclui seu objetivo. Como não existe necessidade de um acontecimento dramático para um laço afetivo de observação, por que não parar em um ponto de espera de trem e se encantar com o movimento? O que talvez vire uma obsessão ou uma celebração dentro do homem sem nome. A distancia que há entre nós e ele é a mesma que existe entre ele e as pessoas ao seu redor. Não sabemos seu nome, não sabemos seus motivos. Mas ainda assim, trocamos um tipo de interação com ele que, apenas pela observação, nos levam a conclusões fortes e emotivas, mesmo que boa parte delas não consigamos racionalizar no momento. Mas quem precisa de razão para contemplar? A beleza sensorial que Sylvia nos proporciona é rara e altamente reflexiva.


Saiba mais sobre o filme e seu autor

http://www.contracampo.com.br/89/mostraciudadsylvia.htmArthur

Tuoto, 23 anos é cineasta independente e crítico de cinema e vive em São Paulo. Seu trabalho inclui curta-metragem, videoarte, videoclipe, documentário e fotografia. Com um trabalho que busca, na experimentação da narrativa digital, um cinema atmosférico e celebrativo, seus vídeos já foram exibidos em diversos festivais nacionais e internacionais, assim como em vários canais de TV. Sua obra tem como principais temas: alienação, solidão e espiritualidade. Vive em São Paulo, Brasil. / Curitiba - PR / Brasil.

http://arthurtportfolio.blogspot.com/


 

 

 

 

 

 

Jornalista Ana Lucia Vasconcelos

Web designer-Edson Souza