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| Lima
Duarte fazendo Sassá Mutema __________________
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Lima
Duarte fazendo Sassá Mutema
Ele
queria fazer uma P-O Sassá Mutema é um dos seus bons personagens. Como se sente, qual a sensação de fazer um bóia fria? Lima Duarte- É muito estranho porque fazer uma novela que tenta fazer uma prospecção da realidade política brasileira hoje, tentar trabalhar a formação da liderança brasileira numa emissora como a Globo é muito difícil porque estes grandes complexos de comunicação no Brasil não sabem dar de cara consigo mesmo. Eu quero me referir ao Civita, à Globo, Silvio Santos, quando eles topam com eles mesmos é fogo. Eu acho que todos nós, eu o Lauro e a Globo estamos perdendo a oportunidade de fazer um grande trabalho. P- Você quer dizer que não está fazendo o Sassá como concebido originalmente? Como era e o que você está conseguindo realizar? LD- Eu pensava no começo, quando me foi proposto, fazer um grande trabalho. Quando me foi proposto eu pensei que a gente podia fazer uma parábola do brasileiro, os caminhos que o brasileiro tem escolhido para crescer enquanto Nação. Eu pensei que eu pudesse fazer um ser social que retratasse tudo isso. E como seria então o Sassá Mutema como eu imaginei? Ele era um nada: ele nunca tinha feito sexo, ele era virgem, ele não sabia ler nem escrever, nada, nada... P- Nonada do Guimarães Rosa? LD- É nonada, um sujeito absolutamente virgem. E ai começamos a construí-lo. Ele então era aquele sujeito que quando toca nas flores as flores crescem, quando toca nos bichos, os bichos comungam com ele, enfim esta força natural, esta força autêntica legítima que é do nosso destino, que é típica do povo brasileiro, considerando é claro essas pequenas etnias, as mil nações indígenas, o caboclo, a nossa formação. Mas enfim parece que este é o nosso destino, a pureza, a emoção pura e dela tirar sustento, comida, enfim crescer. Era o Sassá. Mas ele vai crescendo, vai aprendendo coisas vão colocando coisas na cabeça dele colocam o amor, a insídia, a suspeita, colocam o ciúmes, ensinam ele a ler, ele descobre o fantástico mundo que está atrás da palavra impressa e vai caminhando,vai ficando pronto, ficando um homem , um homem maravilhoso e a gente acaba descobrindo que ele perdeu muito nesta caminhada e que ficou na verdade um chato, um idiota, corrupto, corrompido e corruptor igual a todos os outros. Então eu pensava que a gente podia pedir ao povo que pensasse um pouco nessa caminhada e o que estamos perdendo. Ou seja, para ser uma grande Nação, estamos perdendo aquela pureza tão nossa que estamos sacrificando no altar do progresso. Quer dizer, o Brasil cresce dizimando suas florestas, poluindo seus rios, matando seus índios, matando pequenas etnias. Era nisso que eu pensava e aí quando o povo visse o Sassá Mutema, o destino que ele cumpriu e pensasse nele: olha aí um grande senador, um homem importante, mas aquele outro era tão mais interessante tão mais rico quando era fiel. Enfim, um homem que perdeu sua identidade cultural, que é nada menos o que nós, o povo brasileiro está sofrendo: uma perda de identidade cultural. P- Ou seja, você estava propondo ao público se ver no espelho do Sassá Mutema e verificar que afinal o sucesso não vale a pensa se for conseguido à custa do sacrifício do que é mais bonito no povo que é justamente sua pureza original? LD- Eu pensava nisso tudo, nessas coisas grandiosas e inclusive fazendo um personagem cuja essência é a mudança Ele fala: ieu, todo perplexo, aturdido e descobrindo coisas, porque ele era um personagem em mudança como de fato está mudando. Mas eu não sei se tudo isso, a profundidade que o tema merece vai ser pesquisado na novela, vai ser feito pela novela. Talvez disso tudo resulte apenas um personagem engraçadinho. P- Você acha que esta situação é verossímil, um bóia fria se transformar num homem bem sucedido, e além de tudo um herói? LD-
Não é um herói, nem bem sucedido, é apenas
dentro da proposta que é de analisar a formação da
liderança brasileira. Eu acho que um bóia fria realmente
não, mas um homem do povo que fale a linguagem do povo, chegar
lá, é completamente verossímil. Usa
memória emotiva P- Gostaria que contasse seu processo de criação de um personagem. Como funciona até alcançar, digamos à forma final? LD- Eu trabalho muito sobre a memória emotiva... P- Stanislavsky? LD-Stanislavsky- tem até um capítulo falando disso, mas meu negócio é mais Brecht. Eu não sou Sassá Mutema. Sassá Mutema é minha maneira de ver o Brasil. Eu não me confundo com o personagem. P- Você usa o distanciamento brechtiano... LD- Exatamente eu me mantenho a distância do personagem. O Sassá Mutema não tem nada a ver comigo, nem eu com ele. Agora, eu para fazê-lo assim como ele anda, como ele fala, seu gestual, essa coisa técnica mesmo, eu uso a memória emotiva, tios meus, avô, pai, me lembro dessa gente que viveu daquele jeito. Meu pai é muito aquilo. Mas eu pretendo que o resultado seja brechtiano, ou seja, a minha técnica é o realismo crítico. P- Sei que você tem um personagem que é sua menina dos olhos, que é o Riobaldo de Grande Sertão Veredas do Guimarães Rosa. Pensa um dia fazer Guimarães Rosa no teatro? LD- Eu adoro Grande Sertão Veredas, tudo. É o meu Alcorão, meu livro de cabeceira. Diadorim, Riobaldo. Eu tenho um recital que, aliás, tem um nome lindo: Sertão Sertão, com slides, computação gráfica porque eu gosto disso tudo misturado, coisas medievais com a ultima palavra da tecnologia. Fiz só para viajar, fui até Washington, Filadélfia, algumas cidades dos Estados Unidos. Na verdade é um paralelo entre a obra de Guimarães Rosa e William Faulkner que é uma coisa muito hermética. Digamos que com ele eu não participaria da entrega do Oscar (risadas), é muito difícil de vender. P - Sei que você é uma pessoa muito ligada ao campo. Tem alguma propriedade rural? LD- Não sou ligado ao campo, só nasci no campo. Inclusive porque hoje o campo não é mais o que era. O campo que eu gosto está mais dentro de mim do que isso que a gente vê. Quando eu vou ao campo é uma decepção... Mas eu tenho um sitio em Indaiatuba. P- E você vai muito lá? LD- Muito, tenho lá meus discos, livros, meus netos a gente passa os fins de semana. P- Você vive entre São Paulo, Rio e este sitio? LD- A idéia é morar lá um dia... P- Você nasceu no Desemboque, interior de Minas.Como é isso de ser mineiro ? Você chega a se sentir um corpo estranho na cidade? LD- Agora, quando eu vou lá? P-Não, eu quero dizer se você se sente um corpo estranho nas cidades grandes em geral? LD- Ah. Muitas vezes. Inclusive fica aquela coisa no fundo que é o seguinte: se as coisas não derem certo aqui eu tenho para onde voltar. (Risadas) Se não der certo eu volto para a minha terra. P- Mas aí, você volta? LD- Acho que não. P- Você virou paulistano, não é? LD- Eu vim para São Paulo com 14 anos e posso dizer que sou paulistano porque cresci junto com esta cidade. Cheguei logo depois da Guerra, São Paulo tinha 1 500 habitantes era uma gracinha de cidade, uma delicia. Nós crescemos juntos. Enfim, este processo de crescimento eu acompanhei bem. Mas de Minas eu tenho lembrança da minha terrinha lá, bois, cavalos eu trabalhava com meu pai, ele tinha uma invernada e eu trabalhava com bois, pastoreava. Meus pais, avós todos mexiam com isso. Trabalhavam na terra e eu cresci fazendo isso, essas coisas de lidar com animais, bois, cavalos. Agora, hoje mudou muito, tem o que se chama de agro indústria, que mudou muito o tipo de comportamento da relação do homem do campo. P- Tudo mudou hoje, as relações, o tipo de propriedade... LD- É isso não existe mais, talvez lá no Brasil perdido... P- A TV hoje é hoje o que o cinema foi nas décadas de 30,40, 50, ou seja: lançadora de moda no sentido mais amplo, quer dizer, responsável por mudanças até de comportamento, através das novelas, casos especiais, enfim da programação geral. Você vê isso como perigoso ou inevitável? Acredita que as pessoas envolvidas no processo como diretores, autores, atores tenham grande responsabilidade nisso? LD-
Inevitável, mas o que fazer? Ela existe, está aí,
o que é preciso é compreendê-la tentar alterá-la.
O que ela tem que ser e que não é: veículo de distribuição
da produção cultural brasileira. A produção
cultural brasileira é muito rica, precária é a distribuição
porque os donos da televisão só pensam nos seus interesses
pessoais, todos eles sem exceção. A TV é o maior
veículo de comunicação: 40 milhões de espectadores,
vendo cada noite. Esse compromisso maior, que eu acho que os homens de
televisão deviam entender. Não tem isso de habitantes na
Itália, na França. P- Como vai, em sua opinião, a qualidade de vida no Brasil: desde a economia, saúde, educação, cultura. Ela melhorou nos últimos, digamos dez anos ou decaiu, mesmo considerando os movimentos alternativos cada vez mais atuantes, o Partido Verde, a proliferação de lojas e restaurantes preocupados com alimentação mais natural, enfim toda uma cultura alternativa, cuja expansão começou na década de 60? LD- Mal, nada vai bem, muito atrasada em relação a tudo, a 50% de potencia do ponto de vista social e a 80% do ponto de vista econômico. Esses números têm que ser modificados, uma discrepância muito grande, uma defasagem enorme e não podemos continuar assassinado assim nossas crianças, nossos índios, estas minorias todas. Tem que se tomar consciência que o Brasil é uma grande nação. Um dia há de ser um potencia pluripartidária, que seria o ideal, partidos através dos quais se possa exercer sua ideologia. Isso seria maravilhoso. O Brasil não tem isso: aqui os partidos são bandos, aglomerados, amontoados, todos cuidando dos seus interesses. Lamentável. O Partido Verde, esta coisa da ecologia são coisas do momento, ainda que eu ache que está na hora de se começar a pensar mesmo seriamente nisso tudo. P- Você é naturista, ou o Satwa é apenas um negócio? Você é adepto da alimentação natural, integral? LD- O Satwa é um bom negócio para mim. Eu sempre comi aqui, um dia me falaram: quer comprar? Eu tinha uma graninha sobrando e comprei. Mas já era freqüentador do restaurante, eu gosto. E a única coisa que eu falo para eles aqui é: tem que ser limpo, tem que ser honesto. Não me interessa que venda muito, que venda pouco, porque este mercado é muito complexo, muito sujeito a mentira, embustes, o comércio do verde, o mercado da ecologia. Então a única coisa que eu faço questão é que seja honesto porque inclusive todo o dinheiro daqui eu ponho no sitio e vai para pagar o colégio das minhas netas. Não sei se isso dá dinheiro ou não. P- Você fuma, bebe? LD- Não fumo e bebo menos que socialmente. P- Você disse que gosta da cidade. Mas há alguma coisa que te irrita na cidade? Ou nada te irrita na cidade? LD- São Paulo? P- Cidades em geral... LD- Se eu tiver que viver aqui, ganhar dinheiro, seria diferente porque eu acho São Paulo uma cidade muito dura, muito cruel. São Paulo você vive bem até os 40 anos, depois tem que sair porque ela fica muito difícil. Você tem que pegar um documento na cidade perde o dia inteiro, no trânsito. Mas é a melhor cidade da América Latina. Muito melhor que a cidade do México, por exemplo, que é um caos e talvez ganhe de Buenos Aires que tem aspectos muito interessantes. Mas acho que, como fôrça é São Paulo a cidade mais importante. P.- Você já pensou em viver fora do Brasil? LD- Não conseguiria. Já morei na Finlândia, morei em Roma, morei nos Estados Unidos. Vou todo ano, às vezes duas vezes ao ano, vou à Europa e Estados Unidos, ver teatro, negócios, etc. P.- Você já trabalhou fora do Brasil? LD- Já, trabalhei na Broadway, em Portugal, vou muito a Roma, Venezuela com teatro. Com o teatro de Arena então eu viajei muito. Mas não conseguiria viver fora do Brasil. E é idiota quem diz que consegue. Como é que você vai perder tão completamente a identidade cultural assim. Eu preciso da minha gente, do botequim da esquina, ver os amigos, do cavalo, ver como se ensilha, como é que monta, como é que cura uma bicheira, essa coisa é vital para mim, eu não consigo viver fora disso. Não sou patriota, sou brasileiro. Acho que o estado brasileiro é uma lástima, mas o país eu acho legal. Morar em Portugal, em Paris, seria xingado todos os dias pelo francês que é um dos piores cidadãos do mundo e que trata o resto do mundo como seres inferiores. P.- O que te encanta particularmente no campo e nas cidades ditas do interior? Não haveria muito de mistificação naquela imagem paradisíaca, aquela pseudo pureza que permearia todas as coisas ditas do campo? Há cidades hoje no interior que reúnem as desvantagens e as vantagens da cidade grande. Ou seja, não tem os atrativos culturais das grandes nem o contato da natureza do campo. Em compensação tem grandes Shoppings Centers.
P.- Como você se sente sendo um ídolo muito assediado sempre nas ruas, nos lugares? LD- Eu aprendi a lidar com isso, às vezes perturba um pouco, mas o que fazer? Faz parte da coisa toda eu aceito. P.- Aliás, por falar nisso, você tem uma constante que é fazer muito personagens matutos, de certa forma simples, mas com grande fôrça interior, carismáticos. Você se sente bem fazendo este tipo? Parece que sim. LD- É até meio esperteza , porque se eu fosse fazer personagens ingleses, ou franceses eu teria que ter um publico inglês ou francês para aferir da qualidade do meu trabalho , para entender perfeitamente os personagens que eu faço. Mas eu fazendo personagens brasileiros eu tenho o Brasil para aferir e ele tem aferido, gostado muito do Sassá, do Zeca Diabo, do Sinhozinho Malta. Eu acho que tenho uma procuração do povo para interpretá-lo, o que é mais importante que uma procuração para representá-lo, em minha opinião. Os deputados e senadores têm uma procuração do povo para representá-lo, dado pelo voto. Mas eu tenho uma procuração do povo para interpretá-lo e este voto é dado com o coração, é incorruptível. O povo me autoriza a interpretá-lo todos os dias, todas as noites e eu vou lá e interpreto e eles me agradecem por isso. Por isso acredito que seja mais importante ser intérprete do povo, que representante e então é isso que eu quero: ser interprete do meu povo. P.-E os projetos futuros? Quando terminar a novela. LD- Estou estudando uma proposta que me fizeram para um filme em Macau, em Hong Kong que é uma co- produção portuguesa e francesa. Eles viram o Sinhozinho Malta em Portugal, o diretor adorou meu trabalho e me convidou para fazer o filme. Vou fazer em espanhol, isso numa cidade portuguesa incrustada na Ásia, na China. Eu me ligo muito nessas coisas de tradições culturais, de raízes, vou ficar louco com este personagem. P.- Você tem ascendência portuguesa? LD- Portugueses e índios. A minha avó, mãe de meu pai era muito índia, ela era pequeninha, encurvadinha e ela pitava um pito de barro. Ela ficava cachimbando miudinho e olhando o sol. Não sei o que ela procurava atrás do sol, mas devia ser uma coisa bela, porque o olhar dela era bonito. E este olhar é o que me sustenta na televisão e que eu tento reproduzir. O Brecht dizia: “eu quero nos meus atores o olhar de Galileu”. Eu quero para o Sassá Mutema o olhar da minha avó. P- Você lê muito? L D- Leio bastante e anàrquicamente, leio dez livros ao mesmo tempo , paro, volto, quer dizer depois de dois anos eu li todos. (Risadas) Só tem um que leio sistemàticamente que é o Grande Sertão Veredas. P.- Você é religioso? LD-
Não, sou ateu, não acredito em Deus, nada de esoterismo,
nada de misticismo, nada, nada, nem Tarô, nem astrologia. As quatro
patas no chão, só me interessa o ser humano, as relações
interpessoais. Leio tudo sobre isso: literatura, poesia, ensaios. É
isso. Trabalhos realizados em televisão
2006 - Boleiros 2
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Jornalista Ana Lucia Vasconcelos Web designer-Edson Souza
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