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A
Crítica de Schopenhauer à arte medieval
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A
Crítica de Schopenhauer à arte medieval
Igor Bezerra
Schopenhauer, na Metafísica do Belo, estabelece
dois modos de se conhecer: o que parte do princípio de razão
– espaço, tempo e causalidade – e, assim, conhece
as coisas tão somente em suas relações, e aqui
tem a ver com a vontade do indivíduo, e o conhecimento pelo qual
intuímos a Idéia das coisas, completamente destituídos
da vontade, onde o indivíduo se torna puro sujeito do conhecer.
O primeiro modo de conhecimento tem que ver com a ciência, enquanto
o segundo é próprio da arte e é obtido através
da contemplação desinteressada. Essa fuga do indivíduo
e o tornar-se puro sujeito do conhecer destituído de vontade
vem a ser o caráter genial estabelecido pelo filósofo.
Adiante, coloca que há dois modos de se chegar à apreensão
da Idéia, a saber: pela efetividade do mundo e pela obra de arte.
Contudo, apreender a Idéia pela efetividade é mais complicado,
uma vez que há grande possibilidade de nos envolvermos com a
natureza, guiados pelo princípio de razão, por nossa vontade.
Apreender a Idéia na efetividade vem a ser papel mais constante
no artista, que o faz e passa essa apreensão para a obra de arte.
Por seu turno, a obra de arte consiste em um meio facilitador da apreensão
da Idéia, onde toda relação possível com
a vontade é escamoteada e a efetividade já não
é mais para nós, dada a fixidez da obra. Portanto, a finalidade
da obra de arte é mediar de forma mais fácil a nossa apreensão
da Idéia.
Dado esse preâmbulo geral de onde parte o autor, cabe-nos agora
partir para a análise de como essas concepções
se dão – e se o fazem de forma satisfatória –
no período da Arte Medieval, mais precisamente no que toca a
arquitetura gótica e as artes plásticas do período
medievo. Schopenhauer distingue dois tipos de arquitetura: como simples
abrigo, a qual é necessariamente atrelada à vontade e
como bela arte, onde tem a finalidade estética e que nos interessa.
Em seqüência, o filósofo coloca que o objeto da arquitetura,
(que parte da pedra, a mais baixa expressão da Vontade), tem
que ver com rigidez, gravidade, coesão, dureza, luz, e que o
monotema desta arte é a luta entre gravidade e rigidez. Ou seja,
a arquitetura aqui consiste na maneira como, na pedra, se darão
esses dois valores. Se a gravidade vence, temos praticamente um amontoado
de pedra precipitado no chão.
Contudo, se temos essa luta de forma equilibrada, há aí
a bela arquitetura, onde, por maio de mecanismos, o prédio sustenta
todo o peso que quer desabar no solo. É capital notar que aqui
Schopenhauer é bastante grego em sua consideração,
e o melhor exemplo dessa arquitetura que ele apresenta seria justamente
daquela cultura, e o elemento mais principal, a coluna, que evita a
queda livre do entablamento e assim mantém a luta entre gravidade
e rigidez. Agora, se nos voltarmos para a arquitetura gótica,
veremos que não é isso o que se passa neste período
desta arte.
Temos aqui a completa derrota da gravidade pelos prédios gigantes
e suas torres e colunas altas que querem levar ao céu. Assim,
não temos a luta entre gravidade e rigidez na arquitetura gótica,
como fica exposta nesta afirmativa. “De resto, à arte arquitetural
gótica não é aplicável a minha teoria estética
sobre a arquitetura: a luta entre gravidade e rigidez não é
seu tema; quase até parece que sua Idéia fundamental seria
expor a vitória inconteste da rigidez sobre a gravidade, deixar
simplesmente aquela exteriorizar-se sem que a pressão da massa
se torne visível, pois tudo tende para cima, com formas pontiagudas,
e a massa situa-se embaixo”. (Schopenhauer, Metafísica
do Belo, Cap.11, p.146).
Donde se vê o oposto da arquitetura grega, preferida por Schopenhauer.
Mesmo adiante, no capítulo posterior ao da arquitetura-jardinagem
e pintura de paisagem – o autor esclarece: “Ora, a mesma
relação parece existir entre a arquitetura grega e a gótica:
a primeira é planejada objetivamente; a segunda, subjetivamente.
A arquitetura antiga traz as Idéias de gravidade e rigidez, a
exprimirem-se na pedra, à sua manifestação mais
clara mediante a luta em que as coloca: os fins subjetivos da utilidade
são com felicidade unidos a fins estéticos e objetivos.
Ao contrário, nos edifícios góticos, o fim subjetivo
do homem é salientado intencionalmente e expresso de maneira
tirânica: aí tudo se refere ao homem e a seu serviço...”
(Schopenhauer, Metafísica do Belo, Cap. 12, p. 151).

Catedral de Notre Dame, uma das primeiras construídas
em estilo gótico e uma das mais belas do mundo
Ou seja, as Idéias que se apreendem da pedra – gravidade
e rigidez – que se manifestam de forma mais acabada na luta entre
si, não ocorre na arquitetura gótica, portanto, esta não
se mostra capaz de apresentar às Idéias que se exprimem
naquela mais baixa manifestação da Vontade. Para tratarmos
agora da pintura medieval, faz-se necessária a distinção
entre conceito e Idéia. O conceito tem que vem com a ciência,
e pode ser conhecido e demonstrado completamente por qualquer um pelo
princípio de razão; a Idéia, como ficou claro,
é apreendida pela intuição do puro sujeito do conhecer
destituído de vontade e tem que ver com a arte. Assim, com relação
à natureza da arte, segue-se que: “A verdadeira e única
fonte de qualquer obra de arte é a Idéia apreendida. Ela
é haurida apenas da vida, da natureza, do mundo mesmo pelo gênio
ou por quem se entusiasma, em instantes, até a genialidade.”
(Schopenhauer, Metafísica do Belo, Cap. 15, p. 177). Portanto,
Schopenhauer não admite uma obra de arte autêntica que
expresse por desejo próprio um conceito, como acontece com a
alegoria, e é mostrado a seguir: “Uma alegoria é
uma obra de arte que significa algo outro que o exposto nela. [...]
algo diferente do que diz (ao alegórico opõe-se o quirológico).
Contudo, o que é intuitivo, por conseguinte a Idéia exprime-se
por inteiro, imediata e perfeitamente a si e não precisa da intermediação
de algo outro para ser indicado. ”(Schopenhauer, Metafísica
do Belo, Cap. 15, p. 180). Assim, não interessa para arte representar
um conceito e, se uma obra alegórica é bela, o é
justamente pelo que tem de intuição da Idéia, mas
não pelo seu conceito, uma vez que a arte aqui não poder
servir para estes fins. Ora, mas é exatamente isso o que se dá
na pintura medieval: a prioridade da representação de
um conceito – no caso, alguma passagem bíblica –
em detrimento da apreensão da Idéia, ou seja, a preocupação
na pintura medieval é a de passar uma história ou moral
bíblica para os iletrados da época (praticamente todos)
do que se apresentar como um medium facilitador da apreensão
da Idéia. É o que se percebe nas palavras do historiador
de arte inglês Sir Ernest Gombrich: “Pois esses artistas
não se propunham criar uma semelhança convincente com
a natureza ou fazer coisas belas: eles queriam transmitir a seus irmãos
de fé o conteúdo e mensagem da história sagrada”
(Gombrich, A História da Arte, Cap. 8, p. 165). E também
as figuras são dispostas de modo a não deturparem a mensagem
que deve ser passada, como se lê em: “Não viu [o
artista] nenhuma razão para representar a sala onde a cena ocorreu;
isso poderia meramente desviar as atenções do significado
interior do evento” (Gombrich, A História da Arte, Cap.
8, p. 166). Ademais, e em concordância com isso, os pintores medievais
não criavam propriamente a peça a ser pintada, mas partiam
de modelos estabelecidos anteriormente, os quais já estavam consagrados
para passar a mensagem da bíblia de forma inequívoca para
os fiéis, como esclarece mais uma vez Gombrich: “Tampouco
um artista medieval da Europa Ocidental teria entendido por que haveria
de inventar novos métodos [...] de representar uma história
sagrada quando os antigos métodos serviam tão bem a esses
fins.” (Gombrich, A História da Arte, Cap. 8, p. 163).
Vemos então que a necessidade de uma perfeita transmissão
da mensagem bíblica, de um conceito, é associada a não-necessidade
de criação artística, de intuição
e representação da Idéia, o que se configura um
duplo problema, e recebe, destarte, uma dupla crítica schopenhauriana,
como se vê adiante: “Totalmente ao contrário, porém,
procedem os imitadores, os maneiristas, imitatores, servum pecus.
Estes estão bastante conscientes de sua atividade, pois na arte
lidam com conceitos.” (Schopenhauer, Metafísica do Belo,
Cap. 15, p. 178).Portanto, encontra-se duplo problema na pintura medieval:
a preocupação da passagem de um conceito que acaba por
desembocar na falta de criação e repetição
de modelos antigos, o que inibe a expressão da Idéia pela
obra de arte, que vem a ser sua finalidade.
Posto isto, vemos que na análise da arte medieval na
Metafísica do Belo, no caso da arquitetura gótica,
e a partir da referida obra no caso da pintura, com o apoio d’A
História da Arte, de Gombrich, Schopenhauer acaba por
não conceder status de plena arte aos objetos de nosso estudo,
dado o seu pensamento profundamente grego no tocante à arquitetura,
que não corresponde à arquitetura gótica. E ainda:
sua concepção geral de arte, ou seja, apreensão
das Idéias pela intuição do puro sujeito do conhecer
destituído de vontade não se coadunar com as práticas
da pintura do período medievo, que se preocupa com a passagem
de um conceito, como ficou demonstrado. Isso, no entanto vai sofrer
mudanças lentas a partir do pintor italiano Giotto di Bondone,
já na Idade Média Tardia, que começa a rejeitar
os modelos preestabelecidos e passar a trabalhar em sua própria
criação, a partir de onde já é possível
perceber a concepção de Schopenhauer. No entanto, não
pretendemos firmar como pedra basilar essa concepção acerca
da arte medieval e aí ficarmos estanques, uma vez que nada parece
definitivo em arte e mesmo em qualquer outra coisa. O que nos interessa
e dá prazer aqui é esse exercício de compreensão
e interpretação de duas expressões da cultura humana.
Leia mais sobre Schopenhauer
E
sobre arte medieval
Igor
Bezerra, 21 anos, natural de João Pessoa, bacharel em
Filosofia pela UFPB artista plástico e escritor.
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