Fragmento do livro
Teoria do Tempo da Eternidade - Cap. 18
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Fragmento do livro
Teoria do Tempo da Eternidade - Cap. 18
Roberto de Castro de Oliveira

A atual marca de diversidade em que se encontra o conhecimento, tanto de natureza científica quanto não-científica, tem colocado o indivíduo frente-a-frente com seus principais dilemas, através de um sem números de teorias, na maioria das vezes discordantes entre si. Isso obriga esse indivíduo a que tome partido de uma certa fonte e tenha de romper com as demais, optando por admitir que a sua escolha tenha sido a de maior bom senso. O debate e as mútuas acusações que se dão entre as ciências e as não-ciências (o conhecimento religioso, o místico e o esotérico) não resolve o maior dentre todos esses dilemas, que venha dar conta do verdadeiro sentido da existência. No entanto, esses conflitos se dão em maior número no campo teórico, sem que nenhum deles alcance suficiência de comprovação, e mais raramente no campo prático, no qual vemos os resultados serem encaminhados para soluções muito semelhantes. Mas isso requer melhor esclarecimento.
Ao pretendermos apresentar a teoria que aqui denominamos como sendo a TEORIA DO TEMPO DA ETERNIDADE, nunca nos passou pela cabeça apresentar essa teoria como sendo nova, muito ao contrário, ela já se encontra presente na história do conhecimento sob outras denominações, nas principais religiões e filosofias primitivas, como o Taoísmo, o Budismo, o Hinduismo, o Judaísmo, em sociedades ditas primitivas, em formas arcaicas de religião, entre outras. Todavia, em todas essas teorias vemos equívocos teóricos sendo cometidos, mesmo que não haja comprometimento para a prática dessas doutrinas. Muito pior seria o contrário, em que se tivesse uma teoria dita correta e uma pratica considerada puro equivoco. Por sua vez, as teorias presentes nas diversas instâncias do conhecimento moderno vinham se distanciando cada vez mais de uma concepção de tempo favorável à integração, até que as teorias sistêmicas foram enfim constituídas, e possibilitando toda uma ressignificação do conhecimento e de toda a sua inter-relação. Mas não podemos negar que os conflitos teóricos ainda persistem, e queremos aqui demonstrar que esses conflitos podem enfim ser superados com a simples correção do caráter temporal implícito a todas essas teorias, e como por magia poderemos ver um sem número de divergências atingirem o nível de consenso.
Do ponto de vista holístico, precisamos primeiramente conhecer e compreender de um processo que aqui denominaremos de Nutrição Espiritual, algo semelhante ao processo nutricional que empregamos para alimentar nosso corpo, e que aqui empregaremos com o sentido de nutrir essa coisa espiritual que todos nós possuímos, cuja necessidade nutricional também tem caráter essencial. Não se trata de uma teoria apenas mística ou religiosa. Nós somos assim, uma coisa denominada Espírito (essência), que se encontra nesse momento fundida com essa outra coisa denominada Corpo (matéria). Da mesma forma como respiramos o ar e sugamos o oxigênio para dentro do corpo, levando aos pulmões e depois até a corrente sanguínea, também realizamos simultaneamente uma outra respiração denominada respiração cósmica, cujo caráter é essencialmente espiritual, e nos faz sentir todo o perfume do mundo, do universo, permitindo que entremos em contato com o nosso mundo essência. Mas sempre fazemos isso de maneira automática, da mesma forma como respiramos com o corpo de maneira automática. Ninguém conta a quantidade de vezes que respira e suga o oxigênio ou as impurezas contidas no ar, e nem por isso deixa de respirar. A respiração cósmica também é automática e natural, e enquanto espíritos nos vemos obrigados a realizá-la incessantemente. Alem da respiração, também é preciso nutrir o nosso corpo com diversos tipos de alimentos, e isso também tem de ocorrer todos os dias. Também precisamos de água, bastante água, para que possamos hidratar nosso corpo, nossa pele, transformando-se em sangue, em energia, e que sempre esteja ao nosso dispor, a todo instante, pois nunca deixamos de consumir energia. O nosso corpo é uma máquina que consome energia tal qual qualquer outra máquina, como é o carro, como é a geladeira, ou outro equipamento físico. Da mesma forma que alimentamos o nosso corpo e precisamos recorrentemente reabastecê-lo, o mesmo procedimento deve ser adotado para o espírito. Só que aqui, precisamos compreender qual seja o tipo de alimento necessário ao espírito, para que possamos aplicar a ele a dieta que lhe seja mais saudável. O espírito nutre-se principalmente pela oração, ou pela meditação, ou pela reflexão, ou pela prática de ações consideradas éticas, provocando o seu abastecimento e a sua satisfação. Nós não podemos deixar de oferecer ao espírito essa forma de alimento. E isso vem confirmar o que já estava escrito e afirmado principalmente nas religiões. Nesse ponto, todas elas são concordantes, independente do credo ou da cultura a que pertençam. Quando praticamos qualquer desses procedimentos, estamos alimentando nosso espírito, cuidando para que fique saudável, e ao mesmo tempo promovendo a harmonia do universo totalitário com o individual. Mas é preciso lembrar que neste momento, exatamente neste momento, nosso corpo e nosso espírito encontram-se vestidos um dentro do outro, através de uma conexão plena, inviolável, e todo procedimento que eu vier a adotar em um irá automaticamente provocar uma reação no outro. Na medicina, até cunharam um termo para representar esse tipo reação, a psicossomática, que nada mais é do que um reflexo patológico que ocorre no corpo em razão de um descuido psíquico. E nosso espírito nada mais é do que o mais autêntico representante da nossa psique.
Nosso espírito precisa ser nutrido muito mais do que se imagina, para que também possa se manter saudável não apenas o nosso corpo, e sim o todo que somos. Ninguém pode se considerar apenas corpo nem apenas espírito, e sim o conjunto que reúne duas formas distintas de um ser se fazer representar, cujo significado é único. O próprio Jesus, quando diz aos fariseus que devemos dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus, está reafirmando exatamente isso, que nesse momento somos simultaneamente espírito e corpo, e não podemos cuidar de um em detrimento do outro, nem vice-versa. Vai chegar o momento em que seremos apenas espírito, mas aí toda uma cortina de mistério será aberta, e não nos veremos mais aprisionados a uma visão distorcida de tudo aquilo que realmente somos. O César a que Jesus se refere nada mais é do que o poder material constituído, ao qual pertencemos, e por isso precisamos nutri-lo adequadamente. Isso deve se dar através do trabalho, do pagamento de nossos impostos, de todas as nossas obrigações sociais, a participação como indivíduo moral, como sujeito político, como cidadão, como chefe de família. Mas não podemos abrir mão de que também seja nossa obrigação praticar a transcendência, fazendo notar que somos muito mais que um simples corpo, e que essa outra coisa que também somos, precisa igualmente ser nutrida, sob o despertar de uma consciência que ultrapassa a visão de simples animal, amparada no princípio que fez Jesus se tornar um escândalo para os que esperavam por um salvador vestido de cavaleiro dentro de uma armadura. Em contrapartida, sua armadura era o seu espírito e a sua espada era o seu amor. Só o amor reconcilia o corpo e o espírito do homem, e o absolve de qualquer existência transitória, e o faz eterno em todo tempo e espaço, para nunca mais deixar de sê-lo.
Como dizia o apóstolo Paulo: “O amor tudo transforma”. E tanto transforma que nos faz transcender. Mas não é um amor pacato apenas, muito ao contrário, chega a ser revolucionário, violento, arrebenta cadeias, estoura grades, rompe correntes e instala o homem no tempo para o qual ele foi concebido: a eternidade. Daí que é preciso passar a viver a eternidade em todos os momentos, pois, afinal, ela é o único tempo, e os demais são apenas sombras que se deixam projetar no fundo de uma caverna. Quando compreendemos que o tempo, enquanto eternidade, já é uma realidade, não mais estamos obrigados a tratar a morte enquanto mistério sobrecarregado de pavor, justamente em virtude de seus segredos. Temos uma verdade incontestável: não iremos passar por uma mudança temporal. Não estamos passando por um momento regido pelo tempo sucessivo que irá desaguar em outro chamado eterno. Estamos desde o primeiro momento habitando a eternidade enquanto tempo, todavia nos deixando condicionar por uma informação de transitoriedade em razão de um apego excessivo, por nos deixar nutrir por alimentos materiais somente, e com isso nos excluindo de uma possibilidade muito mais intensa. Nas religiões, por exemplo, no catolicismo, que é uma tradição cristã, vemos a vida eterna ser tratada enquanto um destino no qual seremos lançados depois da nossa morte e de nosso juízo final. E que seremos julgados em razão de nossos pecados, cometidos aqui, agora, mas o julgamento somente se dará em um tempo que vem depois. Isso é um grande equívoco, já que o próprio Jesus nos dá uma lição de eternidade totalmente divergente, que não se trata de um tempo enquanto quantidade e sim de um tempo enquanto consciência, bastando somente que sejamos capazes de nos desapegar dos aspectos transitórios da existência. Nas religiões protestantes é muito pior. Muitas delas afirmam que depois da nossa morte ficaremos adormecidos em um sono profundo, aguardando pela volta de Jesus, quando então todos serão julgados e receberão as suas sentenças. A mentira primeira é quanto à volta de Jesus. Ele nunca irá voltar. Sabe por quê? Porque ele nunca saiu do meio de nós, nunca se afastou da nossa convivência, nunca usou relógios, nunca fez conta do tempo em calendários. O Jesus homem público nunca esteve amarrado no tempo. É o próprio homem que tem adaptado o discurso Jesus para uma realidade temporal contrária à que foi proferido. Jesus nunca se referiu ao tempo de outra maneira se não enquanto duração, que é a eternidade. Então, essa tolice de ficar afirmando que o homem permanecerá adormecido aguardando pela volta de um Jesus em forma de matéria é o juízo dos homens que dormem e acordam olhando para os relógios. E como se não bastasse, ainda materializam de maneira perversa a figura do demônio, que se constitui em puro simbolismo, passando a personificá-la, a recriá-la a partir das sombras, e com isso permitir a aproximação das pessoas com as teologias movidas pelo medo e não pelo seu reconhecimento enquanto criaturas espirituais. No espiritismo, no budismo, no hinduísmo e em outras religiões que pregam alguma forma de reencarnação ou renascimento, também ocorrem outras formas de tolice. Para que houvesse alguma possibilidade de reencarnação ou qualquer coisa do gênero, primeiramente era preciso que a fórmula do tempo obtida pela Física correspondesse ao que realmente foi afirmado. A fórmula da Física se refere a tempo enquanto medida, e a ela aplica-se quantitativos. Por sua vez, é algo que está relacionado a movimento, a espaço, e que mais tarde foi objeto de convenção para o estabelecimento de uma referência entre estados, organizações, astrônomos, e outras espécies de ciência. Duração não tem nada a ver com tempo. Então foram lá os teóricos das religiões que de alguma maneira imaginaram ser possível a reencarnação e emprestaram o tempo da Física para ser empregado a ninguém mais do que o próprio espírito. Querem com isso obrigar o Espírito a usar relógio, a se deixar guiar por calendários, a um ir i vir no tempo e no espaço, coisa alucinada tanto quanto as bestiais produções da ficção científica, tanto na literatura quanto no filmes. Entendam bem isso! A reencarnação ou renascimento, ou qualquer coisa parecida é impossível. Isso não é uma questão de dogmatismo religioso ou de coerência científica. Isso se dá em razão de que a eternidade, única categoria de tempo que realmente existe, não admite qualquer possibilidade de separação no tempo, e portanto um mesmo espírito não pode ocupar outros corpos sendo determinado que esses estágios, ou reencarnações, estejam separados uns dos outros no tempo; e o nosso Espírito não sabe o que vem a ser tempo, o nosso Espírito só reconhece o que seja eternidade. Essa outra coisa, essa outra teoria é fruto de uma justificação lógica a um assunto que não pertence ao campo da lógica, principalmente de uma lógica cartesiana. Percebam quanto equívoco está sendo cometido em diversas áreas do conhecimento, tudo em razão de uma teoria do tempo irreal. Ou pior que isso, surreal. De modo surrealista, que é uma maneira de recriar a realidade através de uma realidade fantástica simplesmente. Se a reencarnação se constitui puro equívoco, o mesmo não se pode admitir em relação à mediunidade, às terapias de regressão e outras coisas do gênero. Isso nada mais é do que acessar as conexões desse sistema, de atuar através das inter-relações cósmicas de todo o universo, da totalidade, porque todas as vidas estão sujeitas ao principio da conexão, integradas, regidas por um tempo sincronizado e simultâneo. O mesmo pode se dizer quanto às pessoas denominadas santas pelos católicos. Os santos foram pessoas consideradas éticas, de comportamento exemplar, e em razão disso foram aclamados a uma categoria de santidade pela Igreja Católica. Quando se reza por um santo, estamos exercendo democraticamente um canal de comunicação com esse mesmo santo, mais uma vez fazendo uso claro das conexões desse sistema, através de uma via válida, legítima, que é a conexão sistêmica. Embora o santo não se encontre materializado à minha frente, esse canal de conversação se dá em um outro nível, muito mais intenso, e posso conquistar a correspondência desse santo a todo momento, desde que para isso eu saiba me sintonizar com esse santo, ou com qualquer outra pessoa, viva ou morta enquanto corpo, e a inspiração desse santo pode perfeitamente me retornar sob a forma de um benefício espiritual. Não há nenhuma forma de tempo que me separe desse santo, nem de Jesus, nem de Deus, nem das pessoas da minha família que já tenham falecido. Isso não se trata de religião simplesmente, é muito mais que isso. É fruto de uma teoria que integra princípios de diversas outras teorias, inclusive a Física Quântica. Mas em nenhuma delas poderá se admitir uma consideração abstrata de tempo sob um tratamento de tempo real. Todas essas teorias se mostrarão coerentes e integradas por ocasião de uma simples correção do fator temporal a elas implicadas.
Há outros paradigmas a serem quebrados, e para isso será preciso que retomemos a teoria sistêmica. Capra vai nos falar em detalhes dessa teoria cuja metáfora ele estabelece com a teia da aranha para representar a visão sistêmica. Diferentes cientistas atribuem nomes diferentes a ela: teoria dos sistemas dinâmicos, teoria da complexidade, dinâmica não linear, dinâmica das redes, atratores caóticos, fractais, estruturas dissipativas, auto-organização, sistema autopoiéticos, entre outros. Tudo segue o mesmo princípio, o sistema, como se tudo dentro da totalidade fosse organizado segundo esse padrão, sendo todo corpo espiritual, mineral, vegetal ou animal considerado vivo e interconectado, compondo uma extensa rede de conexões. Enquanto novo paradigma, que pretende romper definitivamente com o modelo cartesiano de interpretação dos sistemas vivos, também é preciso romper definitivamente com o argumento temporal que se aplique a esse sistema. Os sistêmicos têm sido capazes de estruturar uma nova idéia movidos de um intenso holismo mas, ao adotarem um critério temporal fragmentado para o sistema, voltam a sentar à mesa com Descartes, colocando em uso procedimentos completamente destituídos de qualquer senso holístico, muito ao contrário, chegando a ser até mais cartesianos que o próprio Descartes. Eu fico me perguntando: como alguém pode se afirmar ser holístico e ao mesmo tempo se deixar reger por um princípio temporal que admite ser aristotélico-cartesiano-newtoniano-kantiano e materialista para representar a intensidade de uma totalidade que não pode ser submetida a qualquer limite? Ou então, que se escolham outros nomes. Por exemplo, teoria dos sistemas restritos. Já que se pretende restringir o conhecimento, as conexões, as inter-relações, com a delimitação de fronteiras, exigência de passaportes, alfândegas e outras coisas do gênero. Veja bem, como não são apenas as religiões que cometem equívocos abissais. Obrigar uma teoria tão intensa como é a teoria sistêmica a se fazer valer de referenciais temporais iguais a relógios de sol é tão ultrajante quanto é para as religiões reencarnatórias querer obrigar os espíritos a se deixarem comportar de acordo com os relógios e calendários humanos.
Bérgson nos mostra de maneira genial que é preciso compreender a diferença entre o que vem a ser Duração e o que seja Tempo. Sua teoria é impar nesse sentido. Freud faz um trabalho brilhante de desvendamento do inconsciente humano, da atemporalidade implícita a esse inconsciente, da interpretação do sentido dos sonhos, desfazendo muito misticismo. Em seguida, Jung nos apresenta a idéia do Inconsciente Coletivo, tão fascinante quanto a teoria dos sistemas. Na teoria dos arquétipos do inconsciente coletivo, ele nos apresenta a idéia de que além de um inconsciente pessoal o homem também possua uma outra estrutura, a do inconsciente coletivo, que traz certa semelhança com a estrutura definida pelos sistêmicos, mas de igual maneira Jung aplica a essa estrutura uma noção de tempo sucessivo, razão por que considera que ao lado dos conteúdos inconscientes pessoais há outros conteúdos que não provém de aquisições pessoais, mas da possibilidade hereditária do funcionamento psíquico em geral. Embora as pesquisas de Jung apontassem nesse sentido, ele mesmo, de certa forma, achava escandaloso que o indivíduo trouxesse consigo provas irrefutáveis de possuir armazenado dentro de si toda a história da humanidade. Para Jung, ficou bastante claro que o homem não seja resultado apenas da sua história pessoal e das suas interações com seu mundo consciente, mas também demonstra estar em conexão com um turbilhão de informações que lhe parecia estar internalizado dentro do cérebro de cada indivíduo, ainda que de maneira inconsciente. Esse turbilhão de informações registra dados de todas as gerações, de todas as culturas, de todas as mitologias da espécie humana. O escândalo provocado em Jung dá-se justamente por ter aplicado à teoria dos arquétipos do inconsciente coletivo uma noção temporal sucessiva, cronológica, e dessa forma diversas sombras se fizeram projetar sobre essa sua teoria. Se tivesse aplicado a ela o tempo simultâneo, aqui denominado Eternidade, Jung teria percebido claramente que esse turbilhão de informações que dá conta dos universais humanos de todos os tempos não se encontra alojado em cada homem, mas que de fato compõe o sistema denominado arquétipos do inconsciente coletivo; e todos os homens se encontram conectados a esse enorme sistema em tempo real, sem qualquer marca de sucessividade, sem qualquer demarcação de tempo. De certa forma, Jung chegou muito próximo de compreender essa inexistência do tempo, quando tratou do tema que ele mesmo definiu como sendo a SINCRONICIDADE. Para ele, estava muito claro que o universo estava interligado por um tipo de vibração, e que as duas dimensões (física e espiritual) estavam sincronizadas entre si, o que dava a sensação de que certos eventos isolados parecessem se repetir (Déjà vu). Isso foi motivo de repetidos encontros entre ele e Einstein, no momento em que o físico desenvolvia a Teoria da Relatividade. Einstein prosseguiu em suas pesquisas através da Física exclusivamente, enquanto Jung optou por realizá-las no campo psíquico. Jung passou a definir a sincronicidade como sendo uma coincidência significativa entre eventos psíquicos e físicos. Um sonho de um avião despencando das alturas reflete-se na manhã seguinte numa notícia dada pelo rádio. Não existe qualquer conexão causal conhecida entre o sonho e a queda do avião. Jung postula que tais coincidências apóiam-se em organizadores que geram, por um lado, imagens psíquicas e, por outro lado, eventos físicos. As duas coisas ocorrem aproximadamente ao mesmo tempo, e a ligação entre elas não é causal, ou seja, uma não é decorrente da outra. Esse é um fato comprovadamente certo, que não pode mais ser tratado de maneira sobrenatural. Os fenômenos sincrônicos manifestam-se com muito maior freqüência do que podemos supor, basta que lhe dediquemos maior atenção. Ao ocorrer tal fenômeno (podemos denominá-lo corretamente como sendo um Déjà vu), e nos concentrarmos nele, a pessoa perde instantaneamente a noção de tempo-espaço, que em seguida volta a reinar sobre a consciência, devido a uma submissão pré-condicionada de maneira consciente. Jung muitas vezes se amargurou por não conseguir compreender como um evento remoto no tempo e no espaço fosse capaz de produzir uma imagem psíquica; ou como algumas pessoas pudessem antecipar situações, prever acontecimentos, sonhar com episódios que mais tarde viriam a ocorrer com extrema precisão. Não apenas com diversos de seus pacientes, mas também com ele próprio. Para seu conforto, chegou a admitir que os pensamentos fossem como pássaros: eles chegam e fazem ninho nas árvores da consciência por algum tempo, e depois alçam vôo de novo. São esquecidos e desaparecem. A matemática, por sua vez, é um produto puro da mente, e não se mostra em parte alguma do mundo natural. No entanto, as pessoas podem criar equações que rigorosamente predizem e captam objetos e eventos físicos. Os junguianos comentam que no inconsciente não há segredos. Todo o mundo sabe tudo. Pode-se comparar esse conhecimento com o “Olho de Deus”, o “Olho que tudo vê”. Antes de nós existirmos, existia o Sistema, devidamente sincronizado, alheio a qualquer coisa que se possa vir a denominar enquanto tempo. Jung reitera que os seres humanos têm um papel especial a desempenhar no universo. O nosso inconsciente é capaz de refletir o Cosmo e de introduzi-lo no espelho da consciência. Cada pessoa pode testemunhar o Criador e as obras Criativas desde dentro, prestando atenção à imagem e à sincronicidade. Pois o arquétipo não é só o modelo da psique, mas também reflete a real estrutura básica do universo. Ninguém é uma ilha. Nenhum ser vivo, seja ele de que natureza for, encontra-se desintegrado do todo. E o relógio dessa totalidade não possui ponteiros.
A Teoria do Tempo da Eternidade alivia completamente o fardo que muitas vezes Jung acusou ser pesado demais, mas também pode causar em todos nós igual sensação de alívio, sem que sejamos precisos sair à caça de assombrações em meio às cavernas de nosso inconsciente. E é exatamente essa mensagem que Jesus quer transmitir ao paralítico, quando lhe diz que os seus pecados estão perdoados. Jesus quer dizer que os pecados são como fardos, e que ninguém está condenado por antecipação e, portanto, ninguém possui qualquer fardo do qual não possa se livrar. Diante dos mestres da lei, que não compreendiam o teor da mensagem de Jesus, ele dá ordem ao paralítico para que se levante, tome o seu leito e ande. Naquele momento, Jesus interpreta para os homens céticos a verdade que não são capazes de enxergar: a de que ninguém está condenado por antecipação, e em qualquer momento que desejar poderá se desfazer de seu fardo. Nisso, a consciência de eternidade se revela enquanto possibilidade de libertação, de reconhecimento da existência, pondo fim a um sem número de teorias tolas e reforçando as práticas, em sua grande maioria. Ser eterno, desde já, é uma delícia, mas é preciso que não nos esqueçamos de que a Eternidade é ética por si mesma, e não em razão de uma intervenção humana. Jung procurou deveras por esse sentido que a sua teoria tanto carecia. Quem sabe, se o seu relógio de parede tivesse despencado sobre a sua cabeça, em semelhante momento ao da maçã que desabou sobre a cabeça de Newton, dando-lhe de presente a compreensão da teoria da gravidade, muito provavelmente Jung teria feito esclarecer em sua teoria que não há nada de mágico nesses fenômenos existenciais, e que se torna imprescindível para compreendê-los que enterremos de vez qualquer teoria absurda que dê conta da existência do tempo fragmentado.
Esse modelo de tempo fragmentado não passa de um fantasma. E os fantasmas, por sua vez, escondem-se em meio às sombras, do lado oposto ao que vem a luz. Por sua vez, a Eternidade é um facho incandescente que torna tudo nítido, e a sua compreensão é passo fundamental para a compreensão dos demais mistérios. A Eternidade já nos pertence, ou somos nós que pertencemos a ela, desde o primeiro momento. Não podemos insistir em dissecá-la, como método que pretenda declarar a sua posse ou então o seu extermínio.
Tolo é o homem que insiste nesse exercício.
Roberto de Castro de Oliveira nasceu em Itapaci- Goiás em 1964. É graduado em Letras e Matemática .Dirigiu até agora uma livraria especializada em livros de psicologia em Goiânia da qual está se desfazendo para se dedicar apenas a palestras sobre o texto que iniciou ha cerca de dez anos : uma intrigante pesquisa sobre o TEMPO, e cujos resultados foram adaptados em formato ensaio- narrativa no livro TEORIA DO TEMPO DA ETERNIDADE - O FIM DO MISTÉRIO DO TEMPO que está à espera de uma editora.
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