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Nietzsche e o Caminho de Caim

E n s a i o E x t e m p o r â n e o

 

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Nietzsche e o Caminho de Caim

E n s a i o E x t e m p o r â n e o


Ernani Teixeira

Compreendestes estas palavras, meus irmãos?
Estais assustados: sente vertigens o vosso coração?
Escancara-se diante de vós, neste ponto, o abismo?
Late contra vós, neste ponto, o cão infernal?


(Do homem superior, 2, quarta parte)
Campinas, 03 de agosto de 1999.

INTRODUÇÃO
Advertência


Cabe aqui primeiramente uma espécie de advertência que, mostrando sua própria confusão, pretende, com isso mesmo, prestar algum esclarecimento acerca da natureza não apenas deste trabalho, mas também do próprio sólio do qual buscará extrair seu material.

Este trabalho será desenvolvido a partir do leitmotiv geral nietzscheano da ‘Inversão’, do qual tomaremos em especial alguns aspectos concernentes à inversão do que, a partir de Nietzsche (‘O cristianismo é um platonismo para o povo.’), nomeamos como ‘cristianismo-platonismo’.

Insistiremos em alguns aspectos pontuais do cristianismo, precisamente da história do cristianismo no período que se convencionou chamar ‘cristianismo primitivo’, que cremos ter especial interesse para o pensamento sobre a inversão nietzschiana do cristianismo. Aí, justamente, começam os problemas - pois vamos analisar no seio do cristianismo, movimentos que eram acusados de antagônicos ao cristianismo (invertidos, portanto), e mesmo no seio dessas - por assim dizer - facções encontraremos outras vertentes e divisões internas que se acusavam mutuamente de inversão...

Não bastasse isso, ainda temos de nos haver com o próprio Nietzsche que, disparando contra o cristianismo, revela-nos ainda, e inevitavelmente, as raízes de sua própria ‘cristandade’. Não é nenhuma surpresa, decerto, para o leitor de Nietzsche, uma vez que o conhece também por, com um martelo forjado pelo socratismo, empenhar-se na demolição o socratismo; com um discurso de ex-professor de retórica, vaticinar o descrédito do discurso; ao anunciar ‘eis a verdade:’, dizer em seguida ‘não há verdade’.

Tarefa, pois, vertiginosa, no mínimo, é a que nos espera neste trabalho, que pretendemos elaborar a partir da ‘Inversão’- girando o timão num barco a girar em torno de seu próprio eixo, ora deixando o casco à tona, ora submergindo-o, em meio a vagalhões altíssimos e ondas que se arrebentam umas contra as outras, o marujo pergunta: Inversão do que? Que inversão? Quem inverte?


Objetivo e procedimentos

Este trabalho pretenderá talvez audaciosamente, estabelecer uma hipótese de leitura para Nietzsche, relacionando o projeto nietzschiano ao que tentaremos demonstrar como sendo o drama caínico, o ‘caminho de Caim’.

Para tanto, buscaremos demonstrar como é que conseguimos situar o sentido de inversão do cristianismo-platonismo proposto pelo controvertido Nietzsche em meio às controvérsias do ‘cristianismo (helenizado) primitivo’.

Tomaremos, para tanto, prioritariamente, a querela que encontramos nos textos paulinos envolvendo o combate ao gnosticismo, tentando demonstrar por que eles identificam o gnosticismo como uma inversão do cristianismo. Apontaremos, em seguida, os elementos conflitantes no interior do próprio cristianismo e do gnosticismo no momento dessa querela. Em seguida, a partir do exame de conceitos importantes para o marcionismo, daremos especial atenção ao que, dentre os gnósticos, veio a ser chamado de ofidismo, tentando expandir esse entendimento e relacioná-lo, na medida do possível, ao cainismo que nos interessa.

Procuraremos, em seguida, investigar a origem dos conceitos e simbologias que nomeiam essas vertentes de gnosticismos, procurando ressaltar traços de suas origens tanto helênicas quanto judaicas (ou ainda persas, caldaicas e além), atendo-nos ao que nos parece ser mais significativo para a elaboração dessa hipótese de leitura de Nietzsche: as figuras da serpente e de Caim. Examinaremos a fundo, por fim, especialmente esta última, cuja história nos servirá de parâmetro para a aplicação da hipótese de leitura ao projeto nietzschiano.


DESENVOLVIMENTO


Nietzsche e Cristianismo

Não é o objetivo deste trabalho provar que Nietzsche era um cristão ou, tampouco, que o contrário disso era verdade. Contudo, faz-se necessário levar em consideração o inegável: Nietzsche não apenas era filho de pastor luterano, como contava em toda família, tanto do lado paterno quanto materno, vasta linhagem de pastores protestantes. Aos que entendem o que isso significa, é desnecessário explicar que, numa família protestante (por princípio ), a leitura assídua e atenta dos textos bíblicos faz parte do quotidiano tanto quanto o comer ou dormir, e, eventualmente, pode mesmo vir a fazê-lo ainda mais que esses.

De fato, aos quatorze anos, após haver ingressado no Colégio Real de Pforta, Nietzsche incluiu entre seus planos de estudos o latim e o hebraico, interessado em tornar-se pastor, como o pai - pelo que passou a dedicar-se intensamente também ao estudo sistemático de teologia, a partir dessa época. Embora a tenha abandonado para abraçar a especialização profissional em filologia clássica, sabemos ainda que, em 1871, quando lecionava esta disciplina em Basel, veio a conhecer Franz Overbeck, professor de teologia e de crítica do cristianismo, que veio a se tornar um de seus mais leais amigos até o fim de sua vida.

Ao lado das leituras de Heródoto, Tucídides e Platão, Nietzsche frequentava assiduamente os textos bíblicos: interessava-se não apenas pela leitura do antigo testamento - de cuja leitura instrumentava-se para sua crítica ao judaísmo -, mas também dos evangelhos - amparado por seu conhecimento filológico -, das epístolas em geral e em especial as paulinas - pois que possibilitavam a crítica ao que veio a denominar ‘cristianismo-platonismo’ - , assim como uma boa sorte de textos específicos sobre o cristianismo, tanto dos chamados ‘pais da igreja’ quanto de historiadores romanos contemporâneos do cristianismo primitivo. A busca da mais correta ou completa arregimentação argumentativa, um rigor inevitavelmente escrupuloso, uma disciplina vertiginosa: eis, pois, o que dificilmente deixaríamos de encontrar - às direitas ou às avessas - num filho de pastor protestante...


Nietzsche contra Cristianismo

 

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Por princípio, ou seja, que adota um dos conceitos fundamentais do pensamento protestante luterano (embora Calvino venha a adotar o preceito através de Erasmo): o de fundar a doutrina e a prática na interpretação dos textos bíblicos aos quais se tem acesso livre na língua materna - em oposição ao regime de acesso ao texto doutrinário praticado pela Igreja Católica, que selecionava os textos bíblicos a serem empregados, em latim, nas Missas.


A oposição proposta por Lutero entre a obediência à autoridade dos textos papais (considerados, pela Igreja Católica, como fruto da Revelação Contínua de Deus) como referência ou mesmo complemento para a leitura dos textos bíblicos, por um lado, e o incentivo ao estudo exclusivo dos textos bíblicos (considerados, quando muito - por Calvino, por exemplo -, como fruto da Revelação Progressiva de Deus) que devem ser interpretados de maneira fechada por ‘inspiração’, por outro, levou os protestantes a incluir no exercício de sua fé o apego obrigatório à leitura e interpretação dos textos bíblicos.

Contudo, Nietzsche propõe - o que quer que isso venha a significar, até este momento - uma inversão do cristianismo. Por enquanto, assumiremos apenas isso; elegeremos, então, uma espécie de cristianismo que nos ajude a entender de que maneira se dá, em Nietzsche, essa inversão.

Não foi à toa que Nietzsche designou o alvo de suas marteladas como o ‘cristianismo-platonismo’: resgata, assim, a um só tempo, as raízes judaicas e a copa helenizada - de um helenismo decadente, diria... Da mesma forma, não foi à toa que, à parte o próprio Cristo, a figura mais visada fosse Paulo, ou o que ele representa para o cristianismo - ou o cristianismo que ele apresenta.

Saulo de Tarso, como era chamado esse personagem antes de sua ‘conversão’ ao cristianismo, assim foi citado no livro intitulado ‘Atos dos Apóstolos’, VIII, 3: ‘Saulo, porém, assolava a igreja, entrando pelas casas e, arrastando homens e mulheres, encerrava-os no cárcere.’; e, em uma de suas epístolas (aos cristãos de Filipos, III, 4-7, assim se refere a si mesmo: ‘Bem que eu poderia confiar também na carne. Se qualquer outro pensa que pode confiar na carne, eu ainda mais: circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamin, hebreu de hebreus; quanto à lei, fariseu ; quanto ao zelo, perseguidor da igreja; quanto à justiça que há na lei, irrepreensível. Mas o que para mim era lucro, isto considerei perda por causa de Cristo.’ Paulo indica suas origens mesmo genealógicas no mais tradicional judaísmo e identifica-as, por princípio, à oposição ao cristianismo, esse cristianismo que agora anuncia, e em nome do qual inverte para si seus valores.

 

O farisaísmo, ao lado do saduceísmo e do essenismo, é uma das principais seitas judaicas, e a mais ‘segura’ dentre elas. Com certeza, surgiu no período anterior à guerra dos macabeus pregando um retorno ao apego à lei mosaica como uma forma de contra-reação ao espírito helênico que ia tomando conta dos judeus, e, incentivada pela forte perseguição de Antíoco Epifanes (175-164 a.C.), organizou-se em partido político. Suas principais crenças eram: uma espécie de predestinação mais ou menos harmonizada ao livre-arbítrio, a imortalidade da alma, a ressurreição do corpo, a inexistência do espírito, recompensas e castigos numa vida futura conforme a vida presente, a prisão eterna das almas dos ímpios e o reviver das almas dos justos em outros corpos (At. XXIII, 8; Antig. XVIII, 1-3; Guerras II, 8, 14).
Em oposição a esses temos os saduceus, cujas origens remontam a tempos mais antigos, por volta de 300 a.C. (domínio persa e grego sobre os hebreus), quando teria vivido Zadok - de quem segundo os rabinos, retiram o nome - o membro da aristocracia sacerdotal fundador da seita e simpatizante da cultura grega, traço que essa comunidade manteve. Aliando-se a isso o interesse e envolvimento político que sempre foi outra característica do grupo, obtiveram apoio de João Hircano, Aristóbulo, Alexandre Janeu, e, mesmo à época do domínio romano e de Herodes, quando os sacerdotes eram saduceus, conseguiram estabelecer um espaço para suas próprias leis nas jurisdições políticas e legais dominantes. Reclamavam a si o título de melhores observadores da lei de Moisés, e defendiam posições às vezes opostas às dos fariseus, como: negação da ressurreição e juízo futuro; morte da alma com o corpo; não interferência de Deus nas ações humanas, sendo a recompensa ou punição no presente em função da própria virtude ou insensatez - e vieram, finalmente, a se aproximar de um aristotelismo ao menos nos critérios de investigação.
Temos, aqui, portanto, já dois pólos a considerar: fariseus judaicizantes e saduceus helenizantes em posições opostas - que judaísmo, e que helenismo? Quem inverte quem? E mais: pois ambos se dizem fiéis à lei mosaica, lei que Paulo diz haver vindo transvalorar, transmutando para si o lucro em perda, a partir de Cristo... Mas Paulo propõe um judaísmo cristianizado em oposição ao judaísmo mosaico, e o faz platonizando... E, como veremos mais à frente, se opõe à helenização do cristianismo.

zelo, perseguidor da igreja; quanto à justiça que há na lei, irrepreensível. Mas o que para mim era lucro, isto considerei perda por causa de Cristo.’ Paulo indica suas origens mesmo genealógicas no mais tradicional judaísmo e identifica-as, por princípio, à oposição ao cristianismo, esse cristianismo que agora anuncia, e em nome do qual inverte para si seus valores.

Nietzsche certamente não encontraria dificuldades em demonstrar, às marteladas, por que esse cristianismo platonizado das disciplinas do espírito em nada difere do judaísmo mosaico das dietas alimentícias, ou por que o próprio enunciado platonizante ‘estou crucificado com Cristo; logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim ’ só ecoa eficientemente em ouvidos que recebem igualmente bem o outro enunciado judaizante ‘sem derramamento de sangue, não há remissão ’. É justamente contra isso que Nietzsche levanta a voz: sua inversão de valores pretende resgatar o corpo e dizer sim à vida; restituir o mundo renegado pelos trasmundos e, mais que simplesmente restabelecer o homem, pretende propor o super-homem.

No entanto, resta ainda ver que esse cristianismo paulino, tão assumidamente pleno de contradição quanto o próprio pensamento nietzscheano, é ele mesmo também construído a partir de um esforço semelhante ao de Nietzsche - apontar as inversões de um sistema que deseja subverter ou transvalorar. E não falamos aqui da passagem do judaísmo mosaico para o judaísmo cristão, ou da mudança da lei para a graça, mas do fato de que a grande maioria das epístolas de Paulo foi escrita tendo como um dos propósitos prioritários combater o gnosticismo através da contra-argumentação: não são apenas proposições, em sua maioria, mas, sim, reações.

 

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platonizando... E, como veremos mais à frente, se opõe à helenização do cristianismo (e os primeiros sintomas da vertigem vão surgindo...).

Epístola aos Gálatas, II: 19, 20.

Epístola aos Hebreus, IX: 22. O fato da autoria dessa epístola não poder ser atribuída a Paulo é de pouca importância, pois o que mais importa é o fato de haver sido endereçada aos Hebreus, que liam no Livro Levítico, XVII: 11 o seguinte: ‘A vida da carne está no sangue. Eu vo-lo tenho dado sobre o altar para fazer expiação pelas vossas almas, porquanto é o sangue que fará expiação em virtude da vida.’ .

Epístola aos Romanos VII: 19 e ss. - ‘Não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço. (etc.)’.


Cristianismo e Gnosticismo

Origens do Gnosticismo

Quando nos referimos ao gnosticismo, devemos entender que, sob essa mesma designação, estão correntes muito diferentes de pensamento - assim igualmente nomeadas por aqueles que dessas fileiras não participavam, mas eventualmente viam nelas algo de comum. Todas, de fato, poderiam ser ditas como tendo algo em comum, a saber: sua origem no empenho em resolver a questão da origem do mal.

Tanto o cristianismo judaizante quanto o helenizante deixavam a desejar em suas respostas a essa questão. Se, por um lado, as raízes judaicas do cristianismo encontradas no interpretacionismo mosaico não apenas negavam a propriedade do mal à matéria do mundo visível - posto que fora Deus quem o fizera, e julgara-o bom -, como ainda chegavam a admitir que a essência do mal pudesse ser apenas a asserção do desejo individual contra o desejo de Deus (egoísmo), é também verdade que, por outro, o próprio cristianismo judeu do novo testamento não oferece mesmo nenhuma grande tentativa de resolver a questão. É, portanto, no misticismo judaico da cabala, que propõe um Deus absolutamente pleno de todas as potências, a quem pertence a criação e a destruição, o amor e a ira, o bem e o mal, que encontraremos o que mais se aproxima do pensamento helênico, e explicaremos por quê.

Embora as escolas gregas professassem, em seus discursos de escopo basicamente cosmológico, opiniões que ainda distavam de uma solução pontual para o problema do mal, poderíamos traçar o seguinte percurso com alguma clareza: os eleatas assertavam o dogma de que o Uno sozinho existia, sendo que a pluralidade e a mudança não tinham existência real (cf. Parmenides); Platão também não chegou a elaborar nenhum tratamento sistemático, embora aparentemente associasse o mal à matéria (em oposição a, sendo que este último é identificado com, por exemplo no Timeu); essa concepção foi adotada pelos platonistas e neoplatonistas (Plotino), e influenciou Orígenes e outros pensadores do cristianismo. Foram, contudo, sobretudo os estóicos que elaboraram as soluções helênica para a existência do mal no universo suposto como perfeito, que acabaram sendo vulgarizadas no meio do pensamento cristão através do conjunto mal-amarrado das seguintes expressões: primeiramente, de uma maneira geral, que nem todas as coisas que aparentam ser más realmente o são; em seguida, de uma maneira mais ampla, que a imperfeição da parte é necessária à perfeição do todo, uma vez que a existência do bem (e do um) conota a do mal (e do outro) da mesma forma como não pode existir um de dois contrários sem o outro. Esses traços são ainda, apesar das grosseiras distorções, bons representantes do pensamento essencialmente helênico, uma vez que a solução é, quando muito, negativa, apontando o mal como uma espécie de contrário do bem ou ausência dele - muito de acordo com o espírito grego, que prezava mais a idéia de ‘unidade da natureza’ do que a de ‘mal na natureza’, que sempre esteve mais pronto a aceitar a natureza por inteiro, assim diríamos...

Por outro lado, o que parecia-nos surgir eventualmente como uma espécie de oposição entre bem e mal nisso que acima expusemos, de que encontraremos traços a seguir no pensamento gnóstico, tem sua origem no pensamento oriental - e mesmo o que os gregos apresentam disso deve-se originalmente aos orientais. Mais proximamente, embora com uma influência menor, temos o pensamento persa, que sustentava a hipótese dualista da existência de dois princípios eternos opostos de bem e mal, os quais se mantêm em perpétuo conflito: isso é o que sustenta o zoroastrismo, de acordo com o qual o mundo material foi criado bom - céus, água, terra, árvores, relva, homem - pelo poder do bem (Ormuzd), mas o poder do mal (Ahriman) contra-operou criando animais e plantas de gêneros contrários e infligindo nos homens os males da fome, nudez, sono, idade, doença e morte. Ao homem, pois, restava escolher de que lado da guerra pelejaria. Ainda a partir daí é que temos como origem de traços fundamentais do gnosticismo, a herança do mitraísmo persa - uma espécie de religião de mistério que tinha em Mitra seu deus-herói, o qual, após uma última ceia em que celebrara o sucesso de seus labores remidores desempenhados durante o tempo que esteve na terra entre os homens, ascendeu aos céus, donde ajudaria seus sectários terrenos em suas batalhas contra o poder do mal. Os iniciados passavam por sete estágios de desenvolvimento - o que prefiguraria a passagem da alma pelos sete céus - e, através de cerimônias místicas incluindo abluções, refeições sagradas e ritos sacramentais, passavam por diversos graus de elevação.

Já a origem mais remota, embora mais presente (via helenismo), para essas soluções do problema do mal é localizada no pensamento hindu, que supõe uma existência original absolutamente pura e boa a qual, através de uma contínua descendência (emanações), procede deteriorando-se gradualmente em estágios sucessivos de mais baixa e imperfeita existência até chegar ao mal, o ponto mais afastado da fonte de toda existência. Disso advêm as idéias de que a matéria é identificada com o mal - conquanto não possamos dizer propriamente ‘matéria’ como algo existente, mas como mera aparência, ilusão - e a existência deve libertar-se de sua contaminação através da aniquilação da matéria.

Todas essas idéias foram vertidas para dentro do pensamento cristão dos primeiros séculos, propondo, por exemplo, as seguintes questões: se a matéria é essencialmente má, o Deus Supremo (que é bom), não pode havê-la criado, bem como o Redentor (que é divino) não pode haver encarnado; assim, o criador do mundo, o Demiurgo, deve ser distinto do Deus Supremo - quer como eterno rival ou servo rebelde -, e o corpo do Cristo e seus sofrimentos eram apenas aparentes, ou, no mínimo, que o Cristo impassível de sofrimento era separado do homem passível de sofrimento no qual ele apareceu. Naturalmente essas especulações não dão conta nem de uma pequena parte do imenso conjunto de preocupações daqueles que vieram a ser chamados ‘gnósticos’ e que reuniam, entre si, pontos de vista tão diversos a respeito do Demiurgo quanto do papel soteriológico do Cristo, do valor das escrituras do antigo testamento quanto dos evangelhos. Isso é, pois, o que agora tentaremos, brevemente e na medida do nosso interesse para este trabalho, mostrar.


[Intervalo: o que está invertido?

De todas as diversas correntes de gnosticismo, poucas nos interessam em mais do que um aspecto passageiro, e nos esforçaremos em alinhar de maneira sintética, pois, apenas esses. Se o fazemos agora com alguma rapidez, sob essa justificativa, cabe explicar que a aparentemente incoerente vagareza com que buscamos alguns fios remotos justifica-se como sendo fruto do empenho em coletar os elementos que mostrem onde estão os sinais de ‘+’ ou ‘-’, os pólos aos quais devemos estar atentos se estamos lidando com a questão da Inversão - ou se pretendemos demonstrar através de que caminho a estamos conduzindo. Onde estão os pólos? O que está sendo invertido? - essas são as perguntas que não devem abandonar cada uma dessas considerações que aqui são apontadas, e é com elas que prosseguiremos nossa investigação.

Como foi demonstrado, é impossível dissociar claramente o que, daquilo sobre o que os primeiros especuladores do cristianismo teorizavam, era fruto de gnosticismo e o que era fruto de judaísmo - não apenas pois o judaísmo interpretacionista mosaico dividia-se em farisaico (hebreizante) e zadoquista (helenizante) , mas também pois o próprio gnosticismo reunia em si elementos tanto do pensamento extremo (hindu) e médio-oriental (babilônico, iraniano) quanto do pensamento helênico; tanto de religiões de mistério (persa, egípcia) quanto de judaísmo e cristianismo. Os sinais de ‘+’ e ‘-’, portanto, entram na girândola da vertigem tanto mais quanto se procura identificá-los - e se ainda podemos açambarcar a todos modulando-os, como que numa demonstração matemática, em um só conjunto, prosseguiremos na busca de identificar alguma real oposição.]


Os Gnosticismos

Assim, em lugar de descrever fielmente cada variante em particular, traçaremos uma espécie de plano geral do gnosticismo, apanhando não apenas as idéias comuns à maioria das vertentes, mas, sobretudo, aquelas que mais nos interessam - tanto enquanto desenvolvimento das origens que apresentamos, quanto, justamente, para o que pretendemos demonstrar a partir dos conflitos em que se houve o cristianismo paulino com ele.

O gnosticismo apresenta dois dramas distintos: um espiritual e cósmico, outro material e terreno, histórico. No mais elevado dos céus estaria o sol divino, o fogo central, o Deus Supremo, intocável, inabordável, incognoscível, inefável, o qual, mediante poder criador, delegaria seu poder numa interminável série de emanações até as formas inferiores.

Originalmente, essas emanações seriam apenas trinta, uma sucessivamente menos poderosa que a outra, sendo que a última dessa série, portanto a mais distante do resplendor original, teria criado o mundo, e era chamada de Demiurgo . Era impensável atribuir esse feito ao Deus Supremo, posto que jamais se aproximaria do drama histórico inferior, mas também pois o mundo e seu caos, matéria que é, só poderia haver sido criado por essa emanação que, carente de poder e distante do fogo central, teria realizado uma obra imperfeita.

O sentido do universo seria o retorno ao fogo central num plano geral, e a elevação da alma - liberta de sua prisão da matéria - para ele , num plano específico. A libertação da alma de sua prisão na matéria poderia ser, por assim dizer, ‘ajudada’ através de

 

e cinco seres espirituais. Assim, o mundo espiritual todo, a totalidade da existência espiritual, é assim expressa pela palavra mística ’ (Deus-sol) eventualmente encontrada em pedras gnósticas, que, de acordo com as associações a números que se faziam ao alfabeto grego .

Na maioria dos sistemas gnósticos, o Demiurgo era identificado com o Deus dos judeus do AT, irascível, sedento de sangue, volúvel, autor de maldades e ignorante das coisas mais elevadas, para quem a palavra de ordem era ‘justiça’- daí a ‘lei’ -, preocupado apenas com seu povo escolhido, o qual mantinha submetido pelo terror da quebra dessa lei que trazia o ‘olho por olho, dente por dente’. Já o Deus Supremo, dualisticamente, era identificado com o Deus dos cristãos do NT, bondoso, apartado de qualquer materialidade, imutável, origem de todo bem e fonte de todo conhecimento perfeito, para quem a palavra de ordem era ‘amor’ - daí a ‘graça’ - pronto a, generosamente, aceitar homens de qualquer proveniência que amassem o conhecimento. Em alguns sistemas, todavia, o Demiurgo aparece como o Cristo do NT, embora outros dentre eles atribuíssem a esse último uma posição superior. Não se deveria identificar, contudo, esse ‘aeon’ com o Jesus de Nazaré - o ‘aeon’ haveria apenas se apossado de seu corpo (por ocasião de seu nascimento - ou batismo, conforme a maioria das vertentes que o atestam) até a morte por crucificção, momento em que o abandonou: em alguns manuscritos aparece no Evangelho de Mateus (XXVII, 47), a seguinte variante: ‘Meu poder, meu poder, por que me abandonaste?’.

Quanto à espécie de libertação possível, os gnósticos dividiam os homens em três categorias:
i. os pneumáticos (isto é, os concernentes ao espírito) - aqueles que, através do conhecimento, atingiriam uma redenção superior;
ii. os psíquicos (isto é, os concernentes à alma) - aqueles que, através da fé (como os profetas), atingiriam uma redenção inferior;
iii. os hílicos (isto é, os concernentes à matéria) - aqueles que, por estarem tão envolvidos e apegados à matéria, o próprio princípio do mal, jamais conseguiriam deslindar-se da mesma, perecendo com ela quando a grande deflagração a consumisse.
Irineu esclarece (Contra Heresias I, 7, 5) que os gnósticos associavam a cada categoria um dos três primeiros filhos de Adão: à primeira, Sete (o filho que veio a substituir Abel, e de cuja descendência proveio Noé e Jesus); à segunda, Abel (o filho morto, o primeiro a fazer sacrifício cruento e que recebeu aprovação de Deus); à terceira, Caim (o filho homicida, que revoltou-se contra Deus e dele se apartou).

O processo de elevação era entendido como, na verdade, um retorno: o homem material guardava em sua alma imortal resquícios da divindade donde proveio longinquamente, e sua ‘nostalgia da origem’ o impulsionava de volta. Essa volta era somente possível pela intermediação de um poder imediatamente superior que transmitiria ao homem o conhecimento (daí ‘gnosis’) específico necessário à ascensão ao próximo nível - assim, as sucessivas passagens de um círculo a outro constituíam o caminho da alma que se elevava.

uma disciplina esclarecida pelos conhecimentos que cada vertente indicava , fossem eles ascéticos ou licenciosos . Assim, o gnosticismo acabava por apresentar, a seu modo, um aspecto soteriológico - o que significa que o conflito básico com o cristianismo paulino era mesmo inevitável.

O próprio conflito entre o cristianismo paulino e o judaísmo mosaico em geral da época parece ter sido um dos principais motivos de algumas distinções nos gnosticismos. Uma delas, embora seja difícil chamá-la tão rapidamente de gnóstica, foi o marcionismo: os seguidores de Marcion - filho de um epíscopo de Sinope, na região Ponto, chegado a Roma por volta do ano 144 - não professavam qualquer doutrina de emanações, mas criam que o Cristo era, da parte do Deus Supremo, o enviado a revelar aos homens o Deus de Amor e ab-rogar a lei e os profetas, representantes que eram do Demiurgo, agora vencido e aprisionado no inferno. Criam na absoluta novidade e grandiosidade desse cristianismo sem qualquer aproximação com idéias - sempre presentes em quase todas as formas tanto de judaísmo quanto cristianismo - como evolução e desenvolvimento da religião ou progresso da revelação de Deus adaptada às eras. Assim, à exceção do evangelho de Lucas, rejeitavam todos os escritos que não fossem aqueles de Paulo , o único em quem confiavam como havendo corretamente entendido o sentido da nova revelação. Criam que a influência do Demiurgo

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Conhecimentos de ordem esotérica, mediado por artes mágicas e cerimônias místicas, que normalmente se faziam inserir num corpo de tradição dito antiqüíssimo, como todas as religiões de mistérios.

Vertentes judaizantes e orientalizantes, herdeiras tanto das formas de mosaísmo que conservavam as dietas vegetais e as proibições ao corpo quanto dos remotos traços do pensamento oriental que bem se acomodavam a essas práticas locais. Para os gnósticos ascetas (que, naturalmente, não se casavam, negando-se a colocarem mais almas nas prisões da matéria), a mortificação do corpo se tratava de uma espécie de ‘cooperação’ instruída do homem com o sentido universal da destruição da matéria, pelo que, por isso, elevava-se acima da matéria ao desapegar-se dela com sua atitude que, pretendiam, deveria chegar ao extremo não apenas de desprezar o corpo, mas de poder mesmo ignorá-lo.

Vertentes helenizantes, herdeiras dos rituais dionisíacos, em que a embriaguez, a orgia e o dilaceramento da carne eram componentes simbólicos presentes. Para os gnósticos licenciosos, nada do que se passava com o corpo poderia afetar a alma, e as restrições impostas pelo Demiurgo que aprisionou as almas na matéria deveriam ser vencidas, pelo que, justificando cada experiência como uma espécie de ‘conhecimento’, entregavam-se a práticas que os levassem a toda sorte de limites físicos para, assim, triunfar sobre o corpo. Sob o lema (‘dai à carne as coisas da carne e ao espírito as coisas do espírito’, citado por Ireneu, i, I: 11, 12 - cf. Clemente de Alexandria, Strom. iii, 5), praticavam, assim, toda sorte de abusos.

Mesmo esses eram, naturalmente, como era comum à época, adaptados - partes sendo suprimidas ou alteradas - à conveniência do corpo doutrinário que se ia formando. A Epístola aos Hebreus era atribuída a Paulo, e um dos textos principais.

 

permanecia na terra, pelo que fundaram comunidades de vida ascética e celibatária, pois viam nessa prática a única solução para que o domínio do Demiurgo não aumentasse - o corpo perecível e seus desejos mantidos em cheque através de uma vida virtuosa e de boas obras. As comunidades marcionitas perduraram até o século VII, com seus próprios cânones .

Contudo, foram os seguidores de Carpócrates que geraram as vertentes que nos interessam mais diretamente. Carpócrates, pensador de orientação platônica que viveu em Alexandria nos princípios do século II, tinha em comum com o marcionismo a rejeição ao judaísmo, e cria que isso deveria ser buscado através do escape do controle dos poderes que regravam o mundo material. Postulava que o homem atingiria redenção não através da obediência às leis, mas através do desenvolvimento do espírito, uma vez que as ações materiais eram desprovidas de qualquer valor moral - boas ou más apenas na opinião dos homens presos ao mundo material. Alguns de seus princípios foram construídos a partir de adaptações que promoveu nos conceitos platônicos de anamnese e transmigração .

Muito embora as fontes mais antigas não suportem qualquer hipótese de uma reprovação clara à licenciosidade, esse antinomianismo de Carpócrates parece haver permanecido, com ele, apenas teorético, uma vez que inculcava uma vida de perfeita pureza.

 

O que vem particularmente ao caso, uma vez que o problema geral posto por Marcion - a dificuldade de conciliação entre diferentes textos tidos como revelação do plano divino - foi o que ocasionou, como uma espécie de contra-reação, a posterior compilação de um cânon e mesmo, mais adiante, a redação de um Credo, o chamado ‘Credo dos Apóstolos’, o qual, se examinado de perto, se perceberá como uma espécie de sucessão de contra-afirmações* de pontos específicos do gnosticismo particularmente marcionista. Novamente temos a repetição do mesmo gesto paulino ao qual nos referimos anteriormente - que a igreja tenha construído suas bases mais firmes (o cânon e o Credo) no intuito de apontar as inversões de um sistema, de reagir contra ele...

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* 1. Todo-Poderoso... 2. nascido da virgem Maria... 3. sob Pôncio Pilatos... 4. foi crucificado (...) e morreu, e se levantou de novo ao terceiro dia, vivo dentre os mortos, e ascendeu aos céus, e está sentado à destra do Pai... 5. virá a julgar... 6. a Santa Igreja... 7. a ressurreição da carne.

Fedro, 246 e ss. Todo conhecimento humano não é devido às experiências terrenas, mas é não mais do que recordação daquilo que as almas viram no mundo suprasensível. Para Carpócrates, todo aquele que fosse capaz de alcançar essas realidades suprasensíveis receberia um ‘poder’ espiritual que o tornaria superior aos poderes do mundo; assim, tal poder teria sido recebido por Homero, Pitágoras, Platão, Aristóteles, Pedro e Paulo, tão certo como preeminentemente o teria sido por Jesus - o homem perfeito - e da mesma forma o seria com qualquer homem que, como Jesus, fosse capaz de rejeitar as leis do mundo.

Contrariamente àquelas almas que vivessem em perfeita pureza, as quais, com a morte do corpo, iriam para Deus, aquelas que não o fizessem necessitariam expiar suas faltas passando sucessivamente por vários corpos até que fossem salvas e atingissem comunhão com Deus.

Seus seguidores, contudo, trouxeram o princípio à prática, tornando-o mesmo proverbial como impulsionador para a deliberada imoralidade. Assim ensinava, pois, seu filho Epifanes, tendo como sectários os gnósticos que se dispunham a alargar suas experiências em cada aspecto da vida ao extremo. Foi esse, enfim, o berço do cainismo e do ofidismo, a partir dos quais pretendemos que as questões pertinentes à inversão se deixem mais evidentemente transparecer.

Novamente, contudo, a questão que se coloca é: inversão do quê? Logo...

Gnosticismo contra...

Embora não haja registro de nenhum nome individual em especial, os ofitas foram, segundo Hipólito (v, 6), os primeiros a assumir para si o nome de ‘gnósticos’, asseverando que apenas eles tinham o conhecimento das coisas profundas. Conhecidos como ‘adoradores da serpente’, os ofitas usavam-na como emblema religioso (relíquia do totemismo), uso comum mesmo em todas as localidades particularmente receptivas ao gnosticismo (isto é, Fenícia e Egito): a serpente representava o princípio vital da natureza (à qual creditavam também o ser depositária de um princípio real) , e a figura de um círculo com uma serpente no meio (como a letra ?) representava o mundo a ser resgatado de seu atual dominador mau, e conduzido de volta a seu estado original que a boa serpente representa. Esse dominador era, para eles, o Demiurgo, o Deus dos judeus do AT, que era visto como um poder maligno que agia em hostilidade ao Deus Supremo, sendo a Queda a emancipação do homem da autoridade desse ser malevolente - a serpente era o símbolo da verdadeira sabedoria e liberdade, desejando ser amiga do homem contra o invejoso Jeová, cujas regras deveriam ser vencidas, pelo que as

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Ophiani - segundo Clemente e Orígenes -, ou ophitai - segundo Hipólito e Epifanes.

A leitura que promoviam da passagem do Gênesis - como narrando o episódio da desobediência promovida pela serpente como uma insurreição visando a elevação do homem contra um Demiurgo mesquinho, mentiroso, vingativo e irascível - era muito difícil de ser combatida, pois alinhavava-se com os seguintes pontos:

1. O Demiurgo proibiu o homem de provar o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal (II, 17);
2. A advertência foi de que morreriam no dia em que dele provassem (II, 17);

 

invertiam ao reler as passagens do AT invertendo os valores da leitura tradicional, entendendo os personagens usualmente indicados como maus como bons e oprimidos pelos escravos de Jeová; entendendo, assim, por exemplo, Moisés e Elias como forças malignas da história humana e, respectivamente, o Faraó e Acabe como santos homens a favor do bem.

Muito próximos a esses, os cainitas, por sua vez, emprestavam o nome de Caim, que tinham por herói , justamente a quem algumas ordens gnósticas associavam a categoria mais baixa , mais indissoluvelmente ligada à matéria e, portanto, ao mal. Argumentavam em nome da necessidade de compreender as noções de ‘bem’ e ‘mal’ como fruto da lei do Demiurgo que os aprisionara na inferioridade, cujo primeiro contendedor humano e, portanto, patrono da tarefa redentora, fôra Caim.

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2. A advertência foi de que morreriam no dia em que dele provassem (II, 17);
3. A serpente revelou que isso nunca aconteceria - que era certo que não morreriam se provassem o fruto proibido (III, 4);
4. A serpente ainda revelou a verdadeira natureza do propósito do Demiurgo: não queria que o homem, provando do fruto dessa árvore, se tornasse como ele, de olhos abertos e conhecedor do bem e do mal (III, 5);
5. A mulher ‘viu que a árvore era boa para se comer, agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento’ (III, 6);
6. Havendo provado do fruto, aconteceu exatamente o que a serpente dissera: abriram-se-lhes os olhos, e tornaram-se conhecedores do bem e do mal (III, 7 e 22);
7. Ao contrário do que o Demiurgo advertira, não morreram no mesmo dia (V, 3-5);
8. Irado, o Demiurgo maldisse a natureza, degradando-a, e impôs à sobrevivência do homem mais dificuldades (III, 17-19);
9. Por fim, o Demiurgo, revoltado com a insurreição do homem, expulsou-o do jardim, privando-o, assim, da possibilidade de, graças ao fruto da árvore da vida, viver eternamente (III, 22).

Em função dos símbolos que empregavam em seus ensinamentos e ações, abundaram as lendas em torno dos ofitas - por exemplo, que tomavam uma serpente para que rastejasse sobre o pão eucarístico a fim de abençoá-lo nas orgias homicidas que promoviam como paródias dos ágapes cristãos. Entretanto, não há sinal de qualquer prática imoral naquela que, tida como uma das obras restantes mais importantes do gnosticismo, parece claramente pertencer a essa escola: a Pistis Sophia (Sofia Piedosa). Existe apenas uma versão copta, provavelmente incompleta, e acredita-se que tenha sido escrita originalmente em grego, por volta do ano 200; é composta na forma de um diálogo no qual os discípulos, homens e mulheres, propõe questões a Jesus, o qual responde expressando conceitos gnósticos. Há uma tradução latina de Schwartze, indicada na edição da tradução em inglês publicada pela Theosophical Publishing Society.

Juntamente com outros, como Coré, por exemplo, de quem se falará mais adiante.

ver nota 9.

Aqui precisaremos nos deter com um pouco mais de calma e examinar mais atentamente do que estamos tratando ao nos depararmos com um sistema de pensamento que toma por herói Caim.


Caim

O solo do qual essa escola extraiu a figura de Caim não foi, certamente, o texto exclusivo da Torá, mas também toda a tradição de comentários que sobre ela foram feitos pela literatura rabínica, e, fundamentalmente, a imagem mais ou menos definida que, a partir daí, foi-se construindo através dos séculos nessa cultura . Visitaremos, pois, os mais importantes testemunhos acerca de Caim extraídos desse conjunto na medida do interesse para a nossa presente investigação, eventualmente confrontando-os com comentários de intérpretes cristãos, quando igualmente útil.

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“1 Coabitou o homem com Eva , sua mulher. Esta concebeu e deu à luz Caim ; então disse: Adquiri um varão com o auxílio do SENHOR . 2 Depois deu à luz a Abel , seu irmão. Abel foi pastor de ovelhas, e Caim, lavrador. 3 Aconteceu que no fim de uns tempos trouxe Caim do fruto da terra uma oferta ao SENHOR. 4 Abel, por sua vez, trouxe das primícias do seu rebanho, e da gordura deste. Agradou-se o SENHOR de Abel e de sua oferta; 5 ao passo que de Caim e de sua oferta não se agradou. Irou-se, pois, sobremaneira Caim, e descaiu-lhe o semblante. 6 Então lhe disse o SENHOR: Por que andas irado? e por que descaiu o teu semblante? 7 Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado jaz à porta; o seu desejo será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo. 8 Disse Caim a Abel, seu irmão: Vamos ao campo. Estando eles no campo, sucedeu que se levantou Caim contra Abel, seu irmão, e o matou. 9 Disse o Senhor a Caim: Onde está Abel, teu irmão? Ele respondeu: Não sei: acaso sou eu tutor de meu irmão? 10 E disse Deus: Que fizeste? A voz do sangue de teu irmão clama da terra a mim. 11 És agora, pois, maldito por sobre a terra cuja boca se abriu para receber de tuas mãos o sangue de teu irmão. 12 Quando lavrares o solo não te dará ele a sua força; serás fugitivo e errante pela terra. 13 Então disse Caim ao SENHOR: É tamanho o meu castigo, que já não posso suportá-lo. 14 Eis que hoje me lanças da face da terra, e da tua presença hei de esconder-me; serei fugitivo e errante pela terra: quem comigo encontrar me matará. 15 O SENHOR, porém, lhe disse: Assim qualquer que matar a Caim será vingado sete vezes. E pôs o SENHOR um sinal em Caim para que o não ferisse de morte quem quer que o encontrasse. 16 Retirou-se Caim da presença do SENHOR, e habitou na terra de Node , ao oriente do Éden . 17 E coabitou Caim com sua mulher; ela concebeu e deu à luz a Enoque . Caim edificou uma cidade e lhe chamou Enoque, o nome de seu filho. 18 A Enoque nasceu-lhe Irade ; Irade gerou Meujael , Meujael a Metusael, e Metusael a Lameque . 19 Lameque tomou para si duas esposas: o nome de uma era Ada , a outra se chamava Zilá . 20 Ada deu à luz a Jabal : este foi o pai dos que habitam em tendas e possuem gado. 21 O nome de seu irmão era Jubal : este foi o pai de todos os que tocam harpa e flauta. 22 Zilá, por sua vez, deu à luz a Tubalcaim , artífice de todo instrumento cortante, de bronze e de ferro; a irmã de Tubalcaim foi Noema . 23 E disse Lameque às suas esposas: Ada e Zilá, ouvi-me; vós, mulheres de Lameque, escutai o que passo a dizer-vos: Matei um homem porque ele me feriu, e um rapaz porque me pisou. 24 Sete vezes se tomará a vingança de Caim; de Lameque, porém, setenta vezes sete. 25 Tornou Adão a coabitar com sua mulher; e ela deu à luz um filho, a quem pôs o nome de Sete porque, disse ela, Deus me concedeu outro descendente em lugar de Abel, que Caim matou. 26 A Sete nasceu-lhe também um filho, ao qual pôs o nome de Enos : daí se começou a invocar o nome do SENHOR.”

O texto acima é uma transcrição do que encontramos no capítulo IV do Livro de Gênesis , que suscita as seguintes ponderações iniciais:

É absolutamente fundamental o fato de Caim ser lavrador: ora, ‘lavrar a terra de que fora tomado’ foi a tarefa legada pelo SENHOR a Adão e, naturalmente, continuada pelo

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O nome Ada significa ‘Beleza’.

O nome Zilá significa ‘Sombra’.

O nome Jabal significa ‘Rio-corrente (sobre terra)’.

O nome Jubal significa ‘Terra úmida’.

O nome Tubalcaim significa ‘Forjado (feito na forja)’.

O nome de Noema significa ‘Doce, Aprazível’.

O nome Adão significa algo como ‘Homem Vermelho’.

O nome Sete significa ‘Substituto’.

O nome Enos não encontra tradução; aproxima-se, talvez, pelo aramaico, de ‘fonte (origem)’.

Versão Almeida.

Conforme a narrativa da formação do homem a partir do pó da terra em Gên. II, 7. O legado da tarefa encontra-se em Gên. III, 23: note-se que a produção, pelo homem, de seu próprio alimento, é a implicação aparentemente mais simples dessa tarefa, como vemos em Gên. III, 17-19: ‘E a Adão disse: Visto que comeste da árvore que eu te ordenara que não comesses, maldita é a terra por tua causa; em fadiga obterás dela o sustento durante os dias de tua vida. Ela produzirá também cardos e abrolhos, e tu comerás a erva do campo. No suor do rosto comerás o teu pão, até que tornes à terra, pois dela foste formado - porque tu és pó, e ao pó tornarás.’ Lembrando-se antes, ainda, que a princípio o homem se alimentava apenas dos frutos e das árvores naturalmente abundantes do Éden, sem que, para isso, tivesse que cultivá-los (Gên. II, 9). Duas árvores se distinguiam: a ‘árvore da vida’ e a ‘árvore do conhecimento do bem e do mal’ - sendo que suas localizações fazem com que sejam confundidas uma com a outra (Gên. II, 9 e Gên. III, 3) -; a primeira garantia, a quem dela sempre comesse, vida eterna; a segunda tornava quem dela provasse conhecedor do bem e do mal, como

seu primogênito Caim. ‘Lavrar a terra de que fora tomado’ é entendido pela tradição mística dos meios rabínicos como o cultivo desse novo si - mesmo: o homem foi tomado de uma terra que foi julgada boa por Deus, ao passo que, com a queda, a terra se tornou maldita, sendo prova disso sua mutação e produção de elementos perniciosos e agressivos.

A própria matéria do homem se tornou, assim, corrompida, e necessitada de cultivo para que sobrevivesse - as comunidades essênicas viviam do plantio que faziam para sua própria subsistência, e entendiam a disciplina desse trabalho como fundamental em suas práticas ascéticas. Os componentes agressivos da natureza são assim entendidos na medida em que são, entre si mesmos, conflitantes; da mesma maneira, admitiam os cabalistas que o homem tornara-se, com a posse do conhecimento do bem e do mal, sede de conflitos, assim, internos, entre essas duas potências eternamente rivais (herança do zoroastrismo), sendo sua tarefa adquirir a maestria desses conflitos .

A corrupção da matéria teria ainda, para os cainitas de raízes ofidistas, sido causada não pela transgressão do homem, pois sua mudança de categoria ao tornar-se conhecedor do bem e do mal teria sido uma elevação, mas pelo Demiurgo que não desejava que isso ocorresse - para que fosse eternamente soberano sobre o homem, conspirando contra o propósito geral do universo - e que, não havendo conseguido a desejada sujeição, vingou-se do homem tornando a natureza ainda mais imperfeita e degradada , mais próxima da possibilidade da destruição na deflagração final.

 

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o SENHOR. Essa última possibilidade foi interditada pelo SENHOR - contudo o homem, levado pela mulher e esta pela serpente, provou do tal fruto e se tornou, como Deus, conhecedor do bem e do mal. A expulsão do homem do Éden, portanto, deu-se, segundo o SENHOR (Gên. III, 22 e 23), por um lado, para que não viesse a comer também da árvore da vida e viver eternamente, e, por outro, para que lavrasse a terra - agora maldita - de que fôra tomado.

Conquanto o mito da parelha desigual do pensamento platônico tivesse, no máximo, uma relação apenas muito longínqua com isso, a aparente proximidade (uma vez que não há nenhuma ‘coincidência’ conceitual - são problemas de ordem completamente diversa) certamente levou alguns grupos gnósticos de tendência judaizante a relacionar ambas as tradições também nesse ponto.

É curioso, de posse dessas informações, revisitar o sentido da intenção do autor da Epístola aos Hebreus na passagem do capítulo VI, 7 e 8. Naturalmente, apropria-se do vocabulário e mesmo ideário das correntes judaizantes que abundavam nessa comunidade, com a finalidade de ‘dissipar os falsos ensinamentos’ e ‘reconduzi-los à verdade’.

A tarefa, portanto, de ‘lavrar a terra de que fôra tomado’, foi revestida pelos cainitas de muitos e profundos significados herdeiros das mais diferentes tradições, o que era ainda acentuado pelo fato de continuar a exercê-la Caim, o iniciador dessa tradição mística passada, como a bênção, do pai para o primogênito.

Apenas graças a esses esclarecimentos é que podemos estar prontos para receber a segunda ponderação com a devida importância: Abel era pastor de ovelhas. Isso o põe em oposição a Caim na mesma medida em que o alinha ao Demiurgo: o pastoreio de outras criaturas repetia o mesmo gesto da pretensa dominação demiúrgica sobre os homens. A alimentação com as carnes do rebanho estava fora de questão, segundo a literatura rabínica, pois que todos os povos antediluvianos seriam vegetarianos - a alimentação carnívora somente teria surgido como necessidade, em função da escassez de vegetação, após o dilúvio, e Noé e seus descendentes teriam sido os primeiros praticantes da mesma , portanto.

Assim, os cainitas chegavam mesmo a fabricar interpretações que desabonavam mesmo o suposto significado, nas interpretações místicas, do cobrir-se com as peles animais - diziam que representava o fazer-se animal, assumindo a condição de inferioridade, em função do exercício de um poder desvirtuado como o do Demiurgo, que visa a sujeição do inferior e não a aspiração à elevação. Mesmo as folhas de figueira cosidas como cinta por Adão e Eva, no momento da descoberta de sua nudez , recebiam as mais tortuosas interpretações que tomavam de empréstimo a simbologia dos mapas cabalísticos do corpo humano místico, e tinham na questão da consequencialidade do conhecimento seu mote principal, escamoteando o problema do medo .

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Em Gên. IX, 2 e 3 os cainitas encontravam o pacto do Demiurgo com o perverso Noé, que deu-se nos seguintes termos: dava a Noé e sua descendência o poder de dominar os animais pelo terror (réplica de sua relação com os homens) e alimentar-se deles, sendo o tributo devido pelo homem ao Demiurgo, por tal aliança, a prática sacrificial cruenta e incruenta, as libações sangrentas sobre o altar - ao homem, a carne; ao Demiurgo, o sangue.

De fato, muitas das comunidades ascéticas usavam não tecidos de lã, mas de linho e linho retorcido.

Gên. III, 7.

Gên. III, 9.

 

Ao chegarmos, contudo, à cena das ofertas - a qual desencadeia os fatos que mais apresentam a maioria dos traços que formaram, através das diferentes tradições, a figura Caim -, é necessário conduzir a leitura, a partir desse ponto, dentro de um esquema ‘dramático’ que este presente trabalho propõe como comum também à hipótese de leitura de Nietzsche que apresenta.

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ETAPAS DO DRAMA CAÍNICO
(Capítulo IV de Gênesis)


1. (1-4) Caim ofereceu a Deus uma oferta do fruto da terra. As oposições entre esse gesto e o de seu irmão podem ser mapeadas a partir do próprio significado das atividades que cada um desempenhava e com cujos respectivos frutos fizeram suas ofertas: Abel, perfeitamente inserido em seu lugar na ordem desejada pelo Demiurgo - sujeitador das criaturas inferiores e sujeitado pela ordem superior -, ofereceu um sacrifício ‘das primícias do rebanho e da gordura deste’ ; Caim, no entanto, ocupando sua posição (apenas aparentemente dúbia) nessa ordem - por um lado, buscando elevar-se por seu auto-cultivo,

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Vide supra.

Ou, leia-se: (em oposição a ‘exercer’ sua posição) ‘sendo exercido’ a estar posto em um lugar.

Ou, leia-se: na ordem do desejo do Demiurgo.

Inaugurando, segundo a tradição, a prática dos sacrifícios que mantinham o altar do Templo continuamente regado pelo sangue de animais, que mantinham a coluna de fumaça da gordura queimada sempre erguida no céu. Esse Deus insaciavelmente sedento de sangue é assim apontado tanto pelos marcionitas quanto pelos carpocratistas em geral, ávido por incorporar a si, por sua natureza vil, ‘a vida que há no sangue’, o qual exigia constantemente de seus seguidores oprimidos e aterrorizados. Sabe-se, contudo, que a prática de sacrifícios vegetais também ocorreu largamente.

Ou, leia-se: ‘exercendo’ sua posição.

Há tentativas de comentários que propõem, sem que haja nenhuma corrente definida de interpretação, que Caim, com seu gesto, buscava demonstrar o respeito inevitavelmente devido à ordem superior (preceito fundamental em todas as diferentes vertentes da tradição judaica sejam elas mais ou menos místicas). A Epístola de Judas, ao citar (v. 9) uma passagem do Apocalipse de Moisés, diz que nem mesmo o arcanjo Gabriel se atreveu a proferir juízo infamatório contra a autoridade superior do diabo, quando e

por outro, reconhecendo respeitosamente essa potência subjugadora -, fez sua oferta do fruto da terra. Essa oferta, pois, marca o primeiro estágio do drama caínico: o reconhecimento respeitoso, por parte do que busca a consciência de si, da ordem mais potente.

2. (5-9) Caim ira-se e revolta-se contra Deus. Esse ponto é especialmente rico em problemas, todos eles ligados às diferentes correntes interpretativas da passagem. O primeiro leitor dirá: ‘Qual o problema, pois, se trata-se apenas de que Caim desejava agradar a Deus e, como Deus dele e de sua oferta não se agradou, irou-se’ - ao que levantam-se todas as leituras cainitas e respondem com duas objeções, sendo a primeira praticamente consensual e aproximadamente como se segue: ‘Pois o problema não é esse, pois Caim não queria agradar a Deus: a oferta nada tem em comum com os sacrifícios propiciatórios provocados pelo medo, mas é um gesto de coragem - como um arauto que, ao anunciar a um rei que seu emissário, um príncipe, lhe guerreará, escolhe as mais polidas palavras, é assim que a oferta de Caim diz, com o mesmo respeito e a mesma altivez, “Eis aqui à frente, sobre o solo, o que sou; e eis-me aqui onde estou, a fazer o que faço e a dizê-lo, assim: Eis aí o que sou” ’.

A segunda, cujo desenvolvimento envolve as mais diversas especulações, gira em torno de um mesmo ponto inicial: que Caim não se irou consigo mesmo, mas contra Deus. Caim não se haveria irado por ‘não haver conseguido a amizade de Deus’ - por que a desejaria? Caim não se haveria irado consigo mesmo por ‘não ter eficientemente bajulado Deus’. Enquanto algumas poucas opiniões são de que Caim se irou por Deus não haver atentado para seu

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Gabriel se atreveu a proferir juízo infamatório contra a autoridade superior do diabo, quando em luta contra ele. O fato, pois de estar em luta contra uma potência superior não implica em desrespeito a ela. A propósito, a organização das hierarquias angélicas, herança não apenas da literatura rabínica como também da cabala, sempre esteve presente na tradição judaica mesmo antes do gnosticismo ou dos neoplatonismos das vertentes helenizantes. Voltaremos ainda a tratar dessa Epístola posteriormente.

É praticamente impossível transcrever tais argumentos sem travestir os termos de um vocabulário de tom nietzscheano...

Também a Septuaginta traz os verbos, respectivamente à ação de Deus em relação a Abel e sua oferta e Caim e sua oferta,

gesto - enquanto atentou para o de Abel -, as mais inflamadas e numerosas são de que Caim irou-se apenas porque quis irar-se - e não porque Deus o ‘provocara’ -, restando ainda aquelas que defendem a sutileza de que Caim, havendo percebido que Deus não atentara para seu gesto, quis irar-se. De qualquer forma, são em maioria essas que aceitam que Caim irou-se por si e contra Deus, e não por Deus e contra si.

Essa ira, contudo, está, aí, apenas nascendo. Pois Deus, em seguida, dirige-se a Caim e lhe propõe o que os cainitas interpretam como sendo, na verdade, uma mentirosa ‘desorientação’: ‘se ages no sentido correto, pois bem; se não ages no sentido correto, erras o alvo; o que volta-se para ti, em ti, deves dominá-lo. ’. A isso, Caim não responde , mas age: chama seu irmão para o campo, e mata-o. Novamente Deus dirige-se a Caim e, dessa vez, lhe pergunta onde está o irmão. Ao que Caim responde da maneira mais altiva: ‘Não sei; acaso sou eu tutor de meu irmão?’. Essa resposta duríssima de Caim implicou em algumas interpretações: a primeira, uma ironia em resposta a outra - como o Demiurgo poderia perguntar, como se não o soubesse, onde estava Abel?; a segunda, uma provocação, ou o primeiro ‘ataque’ mais claro de Caim contra Deus - Abel, que estava submisso a Deus, não foi por este protegido contra seu irmão, pelo que Caim dispara algo como ‘acontece que não sou eu, mas tu, o responsável por meu irmão.’.

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Talvez uma das partes de interpretação mais difícil: a abundância de termos - tanto no original quanto na versão grega - que sugerem, repetida e sucessivamente (inda que distantemente ou nas origens), noções de sentido (orientação), direção e movimento parece formar um todo confuso, como um amontoado de vetores ou setas que, amontoadas, parecem indicar muitas direções. O termo para ‘agir bem’ ou ‘agir corretamente’ indica não apenas justeza, mas correção de sentido; o termo para ‘pecado’ indica erro do alvo, meta; o termo para ‘desejo’ indica aquilo que volta, retorna. O discurso de Deus, portanto diz: ‘Esse sentido, no qual vais, está errado - e aquilo que, em ti, vai em tua própria direção (aquilo que quer voltar para si), isso deves dominar.’, o que admite duas interpretações:
1. que são dois problemas distintos - ou seja, que o erro de estar no sentido errado é um problema isolado, e o de dever dominar o movimento para si mesmo é outro;
2. que ambos perfazem um só problema - e aí temos duas possibilidades: que o erro é estar no sentido errado por estar em direção a si mesmo, ou que o erro é estar no sentido errado por estar contra a potência.

O Targum (conjunto de comentários da Torá que começaram a ser escritos por volta do século VI a.C.), contudo, traz, em Gênesis IV,7, essa notabilíssima resposta de Caim a Deus: ‘Não há julgamento, nem juiz, nem vida futura; nenhuma boa recompensa será dada aos justos, nem a condenação será aplicada aos maus.’ - a qual parece pretender negar a lei que o oprime, fundando, assim, com essa negação daquela lei, a sua própria (e de sua geração, como se verá mais adiante).

Apresentado pelos gnósticos em geral como um Deus que, preocupado com as coisas inferiores, interessa-se apenas pelas mesquinharias que bisbilhota todo o tempo na vida de seus servos, como o que têm na cozinha, como lavam as partes do corpo, e, fundamentalmente, oprimidos que são sob essa vigilância implacável de cada pequena ação que cometem para fora de tal lei tirânica e vingativa, como lhe pagarão os incessantes tributos sangrentos de terror.

Esclarecendo a ironia:
1. acaso sou eu...? - a pergunta é ‘acontece de ser eu...?’;
2. sou eu...? - a ironia pergunta com sinal posit


A isso Deus respondeu com um ‘contra-ataque’ ainda mais duro: como lêem os cainitas, maldizendo e maldizendo, em sua ira vingativa. A estranha imagem que surge, do sangue que clama da terra, lembram sempre ao citar o servo de Deus: sua vida é lamuriar-se , e as chances de poder assistir à vingança que exige são mínimas . Dirige Deus suas maldições a Caim primeiramente, e, em seguida, à terra sobre o qual morreu Abel . A essa amaldiçoa impedindo-a de, cultivada, ser fértil para Caim; a Caim, amaldiçoa-o tanto de não receber a

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2. sou eu...? - a ironia pergunta com sinal positivo o que nega assim ‘certamente não sou eu...’;
3. sou eu...? - a ironia faz incidir sobre um a questão que quer de fato fazer incidir sobre o outro ‘és tu...’;
4. tutor de meu irmão... - as palavras ‘tutor’ e ‘responsável’ (KJV: keeper, mantenedor) das versões tentam traduzir o termo que tem o sentido aproximado (tanto no grego quanto no hebraico) de ‘guardador’ (de algo que está preso, atado, como um cativo sob um carcereiro ou uma ovelha por um pastor); a ironia, portanto, é a de Caim dizer a Deus ‘tu aprisionas e mantens cativo esse - esse meu irmão’.

Pois ‘a vida está no sangue’, e o sangue do servo de Deus é o sangue de Abel, que, depois de morto, clama a Deus da terra.

Esse é um ponto especialmente rico. Como se verá mais à frente, o Demiurgo é visto como o barganhador das vinganças, e mesmo o mestre delas: pois todo o tempo vinga-se de seus próprios súditos, quando se sente abandonado ou preterido, e promete-lhes vinganças por suas mortes. Assim, levam os súditos uma vida de terror e lamúrias, da qual saem apenas oferecendo ao Deus, com suas mortes, mais um motivo para exercer sua opressão vingativa. ‘Mas’, perguntam os cainitas, ‘de que vale uma vingança para aquele que deseja ser vingado se ele não fizer dela parte, ou, pelo menos, se não estiver vivo e sabedor da mesma?’.
O melhor exemplo de ‘sangue-de-Abel’ é encontrado no livro dos Salmos, particularmente em Salmos de Davi e de Asafe (por exemplo: LII, LIII, LIV, LVIII, LXIII, LXXIII, CXL), onde, dizem, encontram o fiel retrato do súdito perfeito de Deus: ‘sendo exercido’ completamente e crendo-se exercer; reclamando covardemente e como um fraco vingança contra os inimigos mais fortes; bajulando e oferecendo sangue a seu vingador, de quem só pode louvar os feitos do passado.
Lendo, às avessas, esses e outros salmos, dizem ainda encontrar aí, nas descrições que Davi faz daqueles de quem tem medo e contra quem pede vingança, as evidências de que Davi encontrava-se, na verdade, rodeado das mais excelentes pessoas, dos nobres patriarcas do cainismo, perante quem, contudo, não podia deixar de ser apenas um fraco, um medroso e um lamuriento, pelo que acham mesmo muito justo que Davi seja um ‘homem segundo o coração de Deus’.
Outras descrições interessantes encontram-se na Epístola de Judas e na primeira Epístola de Pedro, essas muito acertadamente dirigidas contra os gnósticos que assolavam as comunidades cristãs, mas disso trataremos ainda mais adiante.

A imagem não é banal: Deus refere-se a essa terra como aquela ‘cuja boca se abriu para receber, das mãos de Caim, o sangue do irmão’. A poderosíssima inversão que vêem aqui os cainitas é a de que Caim inverteu o gesto do irmão; analisando os elementos que compõem cada um dos sacrifícios, temos:

1. i. Abel (inserido na ordem do Demiurgo, sendo por ele oprimido e, assim também, oprimindo os animais);
ii. o animal (inferior a Abel, é morto e tem seu sangue oferecido a Deus);
iii. Deus (sendo a potência reverenciada, recebe o sangue do animal).

2. i. Caim (revoltado contra o Demiurgo, sendo por ele oprimido e, assim também, oprimindo Abel);
ii. Abel (irmão mais fraco de Caim, é morto e tem seu sangue oferecido à terra);
iii. a terra (sendo a potência reverenciada, recebe o sangue de Abel).

Assim, a ira do Deus invejoso volta-se contra essa terra, e nela vinga-se também.

 

força daquele solo (isso bem entendido) como de ser um errante sobre a terra . Abatido, Caim diz: ‘da tua presença hei de esconder-me, e quem comigo se encontrar me matará .’; pelo que Deus, para que ninguém o matasse, põe-lhe um sinal e jura sete vinganças contra aquele que o ferisse de morte .

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Isso é, de não poder ser mais um ‘cultivador do solo de que fôra tomado’, de não ter mesmo um solo em que fixar-se, isto é, de tornar-se um fraco ou mesmo morrer.

Tanto a interpretação judaica quanto a cristã parecem concordar na maioria dos pontos sobre a leitura dessa passagem. Propõem que Caim assim raciocinou, a partir de seu medo:
a. da tua presença hei de esconder-me para que teu olho que me impele a ver minha culpa não me alcance*.
b. quem comigo se encontrar me matará pois é certo que, embora me torne fugitivo e errante sobre a terra, ainda encontrarei a retribuição pelo mal que cometi**.

A essas atitudes de Caim, no entanto, as leituras cainitas fazem corresponder as seguintes explicações:
a. da tua presença hei de esconder-me para que não mais me amaldiçoes ou à terra em que estiver;
b. quem comigo se encontrar me matará pois estarei, agora, muito fraco.

*a imagem que um intérprete moderno usou para argumentar acerca dessa declaração é, no mínimo, curiosa. Lembra-se, ele, do instrumento de suplício empregado na França como recurso para que o suspeito viesse a declarar-se culpado: algo como uma caixa ou um cubículo de madeira no qual o suspeito era aprisionado, sendo que em todas as paredes encontravam-se olhos que o observavam incessantemente; depois de algum tempo aprisionado, o suspeito acreditava ser impossível esconder sua culpa dos olhares perscrutadores que observavam, por todas as direções e durante todo o tempo, tudo o que fazia, tão igualmente certo de que seus menores movimentos o delatavam, quanto de que a esses olhares nada escapava e tudo percebiam que o indicasse como culpado. Certamente um cainita teria aprovado a comparação da vida sob Deus ao suplício dentro dessa caixa.

** O comentário baseia-se no mesmo princípio, mas com um apelo ainda mais idealista e psicologizante: existe inevitavelmente a culpa, e esta atormenta quem por ela é possuído. Assim, a errância de Caim pela terra e seu medo de ser morto assim são entendidos: que Caim, aterrorizado em sua culpa, procuraria sempre fugir daquilo que parecesse apontá-la; no entanto, esse terror da culpa faria com que olhasse a todos que dele se aproximassem como sabedores de sua culpa e possíveis executores de seu justo e inevitável castigo final.
Os apologetas, preocupados com a extirpação do problema da hipótese da ‘raça pré-adâmica’ (surgida para tentar solucionar o problema da origem da mulher de Caim, por exemplo), acabaram desenvolvendo um argumento interessante: que Caim, na verdade, temia a vingança de seus próprios irmãos mais moços, que puniriam Caim com o justo castigo da morte (pois este matara seu irmão). Para que não se sucedesse o que, na verdade, seria um outro fratricídio, Deus intervém e assume para si a vingança. Esse argumento funciona particularmente bem, pois, coerentemente, pois mostra a um só tempo Deus evitando o aumento da violência entre os homens e instruindo-os de que apenas ele detém o poder do exercício da justiça perfeita; no entanto, podemos supor que isso seria facilmente assim invertido numa leitura cainita: Deus, na verdade, impede o exercício da força e da violência (ver nota 75) entre aqueles que oprime, e quer, opressoramente, exercitar apenas ele sua força - pelo que assenhoreia-se de toda vingança (Deuteronômio XXXII, 35; Salmo XCIV, 1).

Como foi dito, a interpretação cainita da passagem não se dá pelo caminho que arrisca o bom cristão, pois propõe que o receio de Caim não era em relação aos fracos como seu irmão, mas aos fortes como ele, com os quais pudesse se defrontar nesse período de fraqueza. Ainda mais: embora saibamos que o número sete era o

Assim, o fato decisivo desse segundo episódio é a resposta de Caim (v. 9), que podemos entender como: a revolta do que, buscando ter consciência de si, é oprimido pela potência superior, contra ela, assim, guerreando.

3. (16) Caim retira-se da presença de Deus. Esse episódio, embora seja o mais curto, não é, por isso, menos significativo: a terra aonde foi Caim chamava-se ‘Exílio’, e era retirada da presença de Deus; não foi, contudo, Deus que decretou o exílio de Caim, mas o próprio Caim que, por si mesmo, decidiu retirar-se da presença dele (v. 14, 16), exilar-se numa terra que ele mesmo escolhera para si. Dessa terra, além de ser retirada da presença de Deus, a única coisa que é dita é que se localizava ao oriente do Éden: daí os cainitas reportarem ao oriente a origem de muitas de suas práticas e princípios - o oriente teria sido o berço do cainismo . Caim escolheu uma terra que escapasse da contaminação desse Deus.
O que marcaria, pois, o terceiro passo do drama caínico seria isso: o afastamento consciente e voluntário para longe da opressão da potência superior.

4. (17-22) Caim estabelece-se numa terra e constrói uma cidade. Um dos primeiros e mais notáveis feitos de Caim é que dá à cidade o mesmo nome de seu filho (‘Iniciado, Começado’), identificando essas suas duas ‘obras’ ou ‘criações’ uma com a outra.

O que, com ‘Iniciado’, se inicia é um outro tipo de vida, uma dinastia e uma civilização: a descendência de Caim vem a mostrar os traços dessa - que são, quanto ao que se refere aos homens, o retorno à terra, a fertilidade , a força, a violência, a civilidade guerreira e a arte ; quanto ao que se refere às mulheres, a beleza e a obediência aos homens, proporcionando a estes descanso e prazer . Os primeiros indícios, assim, de organização social, espírito bélico e estratégico, desenvolvimento dos ofícios, surgimento da música - todos eles são encontrados na cidade de Caim: Caim é, portanto, uma espécie de iniciador de uma humanidade humana, uma humanidade que prescinde de Deus - essa é sua obra.

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preferido também de Deus, o sentido de suas sete vinganças, contudo, permanece um mistério - como poderia Deus vingar-se sete vezes contra alguém, ou qual vingança seria sete vezes pior que a morte?
Começando pelo sinal, é conveniente notar que, no original, a palavra que normalmente é traduzida como ‘pôs’ indica mais certamente algo como ‘apontou’ - donde os comentadores sugerem que Deus, na verdade, não imprimiu qualquer marca física em Caim que afugentasse ou servisse de alerta contra aqueles que quisessem fazer mal contra ele, mas que Deus apontou um sinal (é a mesma palavra usada quando Deus estabeleceu o arco-íris como sinal de sua aliança com Noé) exterior qualquer que servisse para que Caim se lembrasse dessa espécie de acordo.
A isso ajuntam os bons cristãos que Caim, desonrando tal pacto, foi para um lugar para longe da presença de Deus, onde não se sentiria perseguido pelo compromisso ou dívida com o mesmo. Outros dizem ainda que Caim de fato não se arrependeu, e que todo seu discurso e fuga se dão não, por culpa do feito e arrependimento, mas por medo do castigo e terror.

O que, de um ponto de vista histórico ou antropológico, diríamos, faz algum sentido, em face do que expusemos anteriormente acerca das origens do gnosticismo.

 

Cabe aqui ainda, no entanto, um exame mais minucioso do que seria essa humanidade fundada com a cidade da geração caínica. Seus princípios formam um sistema fechado, que é:
I. o cultivo do ‘si mesmo’ ;
II. a violência contra o que tenta impedir isso :
a. sendo essa violência fruto da abundância de força;
b. sendo essa força fruto da fertilidade proveniente do cultivo do ‘si mesmo’.

 

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Como assim indicam essas três características os nomes de Irade, Meujael, Metusael e Lameque (notas 30, 31 e 32), e mesmo o comportamento desse último, pelo que se lê em seu juramento (v. 23 e 24).

Como assim indica o nome de Tubalcaim (nota 37) e a atividade de Jubal (v. 21).

Ver os significados dos nomes de Ada, Zilá e Noema (notas 33, 34 e 38), e como Lameque as trata (v. 23).

Aqui, curiosamente, Jubal é apresentado como o patrono dos instrumentos de corda e de tubo (sopro). Curiosamente, pois são, por assim dizer, as duas grandes ‘ordens’ de instrumentos divinos primitivos encontrados no ideário grego como, respectivamente, a lira (Apolo) e o aulos (Diôniso) - o que não passou despercebido dos atentos leitores cainitas, os quais propuseram que isso era justamente a indicação da ‘paternidade original’ da música como sendo dos homens, e não dos deuses. Respondiam mesmo às comunidades de tendência helenizante (mantenedoras de formas de rituais orgiásticos* e para quem a figura de Diôniso era muitas vezes posta ao lado da - ou mesmo identificada com a - de Caim**), onde isso não era aceito, que deveriam abandonar os hábitos que, afirmavam, se haveriam insinuado entre eles por culpa da ignorância dos oprimidos que sacrificam a seus deuses.

*nas quais se praticavam libações e sacrifícios.

**Diôniso era também tido como uma emanação - precisamente o ‘aeon-guia’ responsável pelos seres da terra, dos estágios inferiores.

Como assim o representam tanto o ‘lavrar o solo de que fora tomado’ de Caim quanto as atividades civilizatórias desempenhadas por sua geração - a isso se poderia, modernamente, chamar de princípio da cultura : o cultivo da origem que dá a identidade...

Como assim o representa não apenas a revolta de Caim contra Deus, mas também os próprios indícios de conflitos e violências existentes nessa terra sem Deus - pois uma existência sem Deus está longe de ser uma existência sem guerra, mas a guerra que há é humana e proveniente dos conflitos entre as mútuas abundâncias de força.

 

[(23, 24 e cont. ) Dessa humanidade, o personagem que ganha voz no texto do Gênesis é Lameque, como exemplo do que ia se tornando o homem (lido, por um lado, pelos tementes de Deus como exemplo de impiedade ; e, por outro, pelos não-tementes de Deus como exemplo de humanidade ), que diz:

‘Matei um homem porque ele me feriu,
E um rapaz por que me pisou.
Sete vezes se tomará a vingança de Caim;
De Lameque, porém, setenta vezes sete .’

Não é, contudo, o último dessa geração de que se tem notícia. Com o término do capítulo IV de Gênesis (v. 25 e 26) e todo o capítulo V, é descrita a geração de Sete, o filho que veio a substituir Abel ; com o capítulo VI, todavia, volta-se a tratar da geração caínica, sendo que aí estão presentes todos os traços que dela poderíamos esperar: férteis (v. 1), suas mulheres são belas (v. 2), seus homens, valentes (v. 4), e atraem a atenção mesmo de outras

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Dentro desse parêntesis pretendemos tratar de fatos que já não mais pertencem propriamente ao que chamamos de drama caínico, mas que acreditamos serem úteis para tornar mais claro, por apresentar de uma maneira aplicada, o que se propõe como último estágio desse drama.

Por sua altivez em não apenas matar, mas também se vangloriar de tê-lo feito.

Por sua alegria e força: matou o que lhe feriu, e celebra sua própria força com um cântico no qual exalta sua própria natureza (ver nota seguinte).

Esse cântico é conhecido, na literatura rabínica, como ‘Cântico das Espadas’. Lendo-o mais atentamente, no original, percebe-se que ‘um homem’ e ‘um rapaz’ indicam a mesma pessoa, e que as palavras traduzidas como ‘feriu’ e ‘pisou’ se referem, na verdade, a diferentes golpes dados com os punhos; por outro lado, a palavra que é traduzida como ‘matei’ indica o haver ferido mortalmente com golpes de instrumento pontiagudo (daí o nome do cântico).
O último dizer, talvez o mais altivo, parece uma espécie de paródia da vingança proposta por Deus contra aquele que viesse a matar Caim (nota 66); pois, com ela, diz Lameque: ‘a vingança contra meus inimigos é minha (ou dos meus), e a força que a exerce é ainda maior’ (a expressão hiperbólica setenta vezes sete é um recurso poético comum no hebraico, indicando o mesmo sentido do superlativo muitíssimo ou muitissimamente). Existem ainda as interpretações que entendem que o cântico de Lameque celebra a própria força e o aumento da violência: se recebe golpes de punho, devolve golpes de espada; se é ferido, mata; se a morte de Caim merece sete vinganças, a sua, sete vezes sete; e se a vingança de Caim é executada por Deus, a sua, pelos seus - dos quais, desafiadoramente, jacta-se de serem ainda mais fortes.

Vale notar que Eva novamente diz ter obtido um filho de Deus, à semelhança de quando nascera Caim; contudo, quando do nascimento de Caim, o nome de Deus é Jeová, e já quando do nascimento de Abel, é Elohin (ver nota 25).

 

potências superiores por sua exuberância (v. 2-4) . Deus, pois, aparece indignado com tudo isso, e decide destruir essa humanidade .]

Portanto, recuperando o que tratamos acima, o que caracteriza o último passo do drama caínico é isso: a instauração (ou restauração) de uma ordem cujos parâmetros são seus próprios conflitos, e não a opressão da potência superior, da qual pretendem estar livres.

Essas são, assim, as quatro etapas do drama caínico.

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Este é, talvez, um dos pontos mais controversos dentre essas passagens. Os comentaristas mais ingênuos querem ver aí a descrição do processo de miscigenação entre a geração de Caim (as filhas dos homens) e a de Sete (os filhos de Deus); assim, explicam que a geração perversa contaminou a boa, a maldade tomou conta de todos e Deus, por isso, decidiu varrê-los da face da terra salvando apenas Noé e sua família dentre os homens.
O problema é que a expressão ‘filhos de Deus’ que as versões trazem (inclusive a LXX) é uma tradução imprecisa para o termo que designa não os humanos seguidores de Deus, como aparecerá no novo testamento, mas seres espirituais como anjos: em visões de profetas, eventualmente é o mesmo termo que aparece designando o mensageiro divino. Assim, esses seres espirituais são atraídos pela beleza das filhas da geração de Caim, tomam-nas para si por mulheres e geram nelas filhos (v. 2 e 4), os quais são fortes e poderosos, comparáveis aos próprios filhos de Caim, pois são, de ambas gerações, descritos como gigantes, valentes e varões de renome (v. 4).

A geração de Caim parece haver sido bastante fértil, pois o relato nos mostra que a terra foi-se povoando com ela (v. 1), e tudo o que dela se diz parece indicar que foi também bastante fiel a seus próprios princípios, pois é Deus mesmo quem reconhece que o homem era, de fato, carnal (v. 3), que todo o desígnio de seu coração era continuamente mau (v. 5), que sua maldade se multiplicava (v. 5), que a violência enchia a terra (v. 11 e 13), e que este era o caminho de todo ser vivente sobre a terra (v. 12). Ao passo que a descendência de Sete, chegando à oitava geração, traz em si apenas um representante (Noé e sua casa) que se mantém fiel a Deus [Enoque, da quinta geração, é o único outro citado como havendo sido igualmente piedoso, havendo ‘andado com Deus’ (V, 24) como Noé (VI, 9)] e que, por isso é poupado da destruição.
A leitura cainita aponta que Deus, assim, invejoso dessa relação entre os seres espirituais e a geração de Caim, bem como da prosperidade dessa geração forte e fértil em detrimento do fracasso da geração de Sete, decide novamente, pela terceira vez, fazer mal à terra [como, anteriormente, no Éden (III, 17 e 18), e com Caim (IV, 11 e 12)] e, assim, também aos homens (VI, 11-13 - ...‘eis que os farei perecer juntamente com a terra.’), sendo que essa revolta, contra o homem e a terra, atinge toda a natureza, de cuja criação chega a arrepender-se (VI, 6 e 7).

 


Cristianismo contra Gnosticismo

Por tudo que se acabou de expor, acreditamos que seja suficientemente claro por que o cristianismo apostólico (especialmente paulino) levantou-se contra o gnosticismo. É importante lembrar sempre que, quando nos referimos ao gnosticismo, assim, de uma maneira geral, estamos englobando aí muitas vertentes que, pelas razões também apontadas, podiam muito bem se considerar mutuamente como opostas. Isso parece trazer de novo o jogo da vertigem dos sinais de ‘+’ e ‘-’...

Encontramos nas Epístolas algumas descrições dos tipos de pessoas e comportamentos que os apóstolos identificavam como perigosos ao cristianismo (textos A), e também exortações à busca de um tipo de vida que apresentavam como legitimamente cristã (textos B).

- textos A

‘A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça; (...) Deus entregou tais homens à imundícia, pelas concupiscências de seus próprios corações, para desonrarem os seus corpos entre si; pois eles mudaram a verdade de Deus em mentira, adorando e servindo a criatura em lugar do Criador. (...) E, por haverem desprezado o conhecimento de Deus, o próprio Deus os entregou a uma disposição mental reprovável, para praticarem coisas inconvenientes, cheios de toda injustiça, malícia, avareza e maldade; possuídos de inveja, homicídio, contenda, dolo e malignidade; sendo difamadores, caluniadores, aborrecidos de Deus, insolentes e soberbos, presunçosos, inventores de males, desobedientes aos pais, insensatos, pérfidos, sem afeição natural e sem misericórdia. Ora, conhecendo eles a sentença de Deus, de que são passíveis de morte os que tais coisas praticam, não somente as fazem, mas também aprovam os que assim procedem.’ (aos Romanos I, 18, 24 e 25, 28-32)

‘Muitos andam entre nós, dos quais repetidas vezes eu vos dizia (...) que são inimigos da cruz de Cristo: o destino deles é a perdição, o deus deles é o ventre, e a glória deles está na sua infâmia, visto que só se preocupam com as coisas terrenas.’ (aos Filipenses III, 18 e 19)

‘Assim como no meio do povo surgiram falsos profetas, assim também haverá entre vós falsos mestres, os quais introduzirão dissimuladamente heresias destruidoras, até o ponto de renegarem o Soberano Senhor (...). Muitos seguirão suas práticas libertinas e, por causa deles, será infamado o caminho da verdade; também, movidos por avareza, farão comércio de vós, com palavras fictícias . (...) [Esses,] seguindo a carne, andam em imundas paixões e menosprezam qualquer governo. Atrevidos, arrogantes, não temem difamar autoridades superiores, ao passo que anjos, embora maiores em força e poder, não proferem contra elas juízo infamante na presença do Senhor. Esses, todavia, como brutos irracionais, naturalmente feitos para presa e destruição, falando mal naquilo em que são ignorantes (...). Considerando como prazer a sua luxúria carnal em pleno dia, quais nódoas e deformidades, eles se regalam nas suas próprias mistificações, enquanto banqueteiam junto convosco; tendo olhos cheios de adultério e insaciáveis no pecado, engodando almas inconstantes, (...), filhos malditos, abandonando o caminho reto, se extraviaram (...).’ (II Epístola de Pedro II, 1-3, 10-15)

‘Eles procedem do mundo; por essa razão falam da parte do mundo, e o mundo os ouve.’ (I Epístola de João IV, 5);

‘Ora, esses, da mesma sorte [que os anjos que não permaneceram em sua posição e os lascivos habitantes de Sodoma e Gomorra que foram, por essas coisas, castigados], quais sonhadores alucinados , não só contaminam a carne, como rejeitam governo e difamam autoridades superiores. (...) Quanto a tudo o que não entendem, difamam; e quanto a tudo que compreendem por instinto natural, como brutos sem razão, até nessas coisas se corrompem. Ai deles! porque prosseguiram pelo caminho de Caim (...) e pereceram na revolta de Coré . Esses homens são como rochas submersas, em vossas festas de fraternidade , banqueteando-se juntos sem qualquer recato, pastores que a si mesmos se apascentam, (...) ondas bravias do mar, que espumam as suas próprias sujidades.’ (Epístola de Judas 8, 10-13)

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Essa era uma acusação comum, dos ‘pais da igreja’, aos gnósticos e mesmo os sectários de outras profissões tanto místicas judaicas quanto de inspiração helenística: a de, à semelhança dos sofistas, cobrarem pagamentos pelos esclarecimentos e conhecimentos que ofereciam.

Os comentaristas indicam que, entre os chamados ‘falsos mestres’, alguns diziam receber suas revelações através de visões místicas, oracularmente.

Essa é a única referência explícita aos cainitas encontradas nos textos apostólicos.

Judas, aqui, refere-se ao episódio narrado no livro de Números XVI, 1-35, onde se lê que Coré, um membro da tribo de Levi, ajuntou-se a duzentos e cincoenta homens dos filhos de Israel, todos eles príncipes eleitos da congregação e varões de renome, e disseram contra Moisés e Arão, dizendo: ‘Basta-vos! pois que toda congregação é santa, cada um deles é santo, e o SENHOR está no meio deles: porque, pois, vos exaltais sobre a congregação do SENHOR?’. Ao que sucedeu que Moisés indignou-se, proferiu seus discursos e marcou com eles um ajuste de contas no dia seguinte. Assim, proferiu novamente Moisés seus discursos, ao final dos quais a terra abriu sua boca e tragou todos os homens de Coré, suas casas e pertences. A leitura cristã é clara: os que se ensoberbecem e desafiam as autoridades estabelecidas por Deus, são por ele castigados; já a leitura caínica


- textos B

* ‘Como viveremos ainda no pecado, nós que para ele morremos? Ou ignorais que todos os que fomos batizados em Cristo Jesus, fomos batizados em sua morte? Fomos, pois, sepultados com ele na morte pelo batismo (...); sabendo isto, que foi crucificado com ele o nosso velho homem, para que o corpo do pecado seja destruído, e não sirvamos o pecado como escravos. (...) Assim também vós, considerai-vos mortos para o pecado, mas vivos para Deus. Não reine, portanto, o pecado em vosso corpo mortal, de maneira que obedeçais às suas paixões, nem ofereçais cada um os membros do seu corpo ao pecado como instrumentos de iniquidade; mas oferecei-vos a Deus (...).’ (aos Romanos VI, 2-4, 6, 11-13)

* ‘Os que se inclinam para a carne cogitam das coisas da carne, mas os que se inclinam para o espírito, das coisas do espírito. Porque o pendor da carne dá para a morte, mas o do espírito, para a vida e paz; por isso o pendor da carne é inimizade contra Deus, pois não está sujeito à lei de Deus, nem mesmo pode estar: portanto os que estão na carne não podem agradar a Deus. Vós, porém, não estais na carne, mas no espírito, se de fato o espírito de Deus habita em vós; e se alguém não tem o espírito de Deus, esse tal não é dele. Se, porém, Cristo está em vós, o corpo, na verdade, está morto por causa do pecado. (...) Porque, se viverdes segundo a carne, caminhais para a morte; mas, se pelo espírito mortificardes os feitos do corpo, certamente vivereis.’ (aos Romanos VIII, 5-10 e 13)

* / ** ‘Não sejais sábios aos vossos próprios olhos. Não torneis a ninguém mal por mal; esforçai-vos por fazer o bem perante os homens; se possível, quanto depender de vós, tende paz com todos os homens; não vos vingueis a vós mesmos, mas dai lugar à ira [de Deus]; porque está escrito: A mim pertence a vingança; eu retribuirei, diz o Senhor. [Deut. XXXII 35] Pelo contrário, se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber.’ (aos Romanos XII, 16-20)

* / ** ‘Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios, e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes; e Deus escolheu as coisas humildes do mundo, e as desprezadas, e aquelas que não são, para reduzir a nada as que são.’ (primeira Epístola aos Coríntios I, 27 e 28)

* ‘Acaso não sabeis que o vosso corpo é santuário do espírito santo que está em vós, o qual tendes da parte de Deus, e que não sois de vós mesmos?’ (primeira Epístola aos Coríntios VI, 19)

** ‘Rejeitamos as coisas que, por vergonhosas, se ocultam, não andando em astúcia, nem adulterando a palavra de Deus.’ (segunda Epístola aos Coríntios IV, 2)

** ‘Tolerais quem vos escravize, quem vos devore, quem vos detenha, quem se exalte, quem vos esbofeteie no rosto.’ (segunda Epístola aos Coríntios XI, 20)

* / ** ‘Ele [o Senhor] me disse: A minha grandeza te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, mais me gloriarei nas fraquezas para que sobre mim repouse o poder de Cristo. Pelo que sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias por amor de Cristo: porque quando sou fraco, então é que sou forte.’ (segunda Epístola aos Coríntios XII, 9 e 10)

* ‘Estou crucificado com Cristo; logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim.’ (aos Gálatas II, 19 e 20)

* ‘Andai no espírito, e jamais satisfareis à concupiscência da carne. Porque a carne milita contra o espírito, e o espírito contra a carne, porque são opostos entre si; para que não façais o que porventura seja do vosso querer.’ (aos Gálatas V, 16 e 17)

** ‘Que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, vos conceda espírito de sabedoria e de revelação no pleno conhecimento dele, iluminando os olhos do vosso coração para saberdes (...) qual a suprema grandeza do seu poder (...), o qual exerceu ele em Cristo, ressuscitando dentre os mortos e fazendo-o sentar à sua direita nos lugares celestiais acima de todo principado e potestade, e poder, e domínio (...). Pôs todas as coisas debaixo dos seus pés, e, para ser o cabeça sobre todas as coisas, o deu à igreja, a qual é seu corpo, a plenitude daquele que a tudo enche em todas as coisas.’ (aos Efésios I, 17-23)

* / ** ‘Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados, nos quais andastes outrora, segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe da potestade do ar, do espírito que agora atua nos filhos da desobediência, entre os quais todos nós andamos outrora, segundo as inclinações da nossa carne e dos pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira. (...) Portanto, lembrai-vos de que outrora vós, (...) naquele tempo estáveis sem Cristo, separados da comunidade de Israel, e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança, e sem Deus no mundo.’ (aos Efésios II, 1-3, 11 e 12)

** ‘Ninguém vos engane com palavras vãs, porque por essas coisas vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência; portanto não sejais participantes com eles. (...) Porque o que eles fazem em oculto, o só referir é vergonha. (...) E não vos embriagueis com vinho, no qual há dissolução, mas enchei-vos do espírito.’ (aos Efésios V, 6, 7, 12 e 18)

* / ** ‘Não cessamos de orar por vós, e de pedir que transbordeis de pleno conhecimento da sua vontade, em toda a sabedoria e entendimento espiritual, a fim de viverdes de modo digno do Senhor (...) e crescendo no pleno conhecimento de Deus, sendo fortalecidos com todo o poder segundo a força da sua glória. (...) [Em Cristo] foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades - tudo foi criado por meio dele e para ele. (...) Porque aprouve a Deus que nele residisse toda plenitude. (...) O mistério que estivera oculto dos séculos e das gerações , agora, todavia, manifestou-se aos seus santos, aos quais Deus quis dar a conhecer qual seja a riqueza da glória deste mistério (...) o qual nós anunciamos (...) ensinando a todo homem em toda a sabedoria.’ (aos Colossenses I, 9-11, 16, 19, 26-28)

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Quanto à nomenclatura de todos esses casos em que são citadas designações de hierarquias potências superiores [que, mais tarde, a própria igreja recuperará como ‘hierarquias celestes’ com o neoplatonizante Pseudo-Dionísio - a partir do que estabelecerá sua própria hierarquia eclesiástica e ainda proporá a hierarquia humana do governo secular, submetendo-o a si (pois o poder só pode ser legitimado se exercido em nome de Deus, a coroa só pode ser colocada sobre a cabeça do soberano pelas mãos do sacerdote - e aí começam as longas disputas entre papas e reis, papas e papas, duques e cardeais, etc.)], ver nota 7.

‘Pleroma’ - assim os gnósticos indicavam a abundância de poder das emanações superiores.

 

* / ** ‘Gostaria, pois, que saibais quão grande luta venho mantendo por vós (...) para que (...) tenham toda riqueza da forte convicção do entendimento, para compreenderem plenamente o mistério de Deus, Cristo, em quem todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento estão ocultos. Assim digo para que ninguém vos engane com raciocínios falazes. (...) Cuidado que ninguém vos venha a enredar com sua filosofia e vãs sutilezas, conforme a tradição dos homens, conforme os rudimentos do mundo e não segundo Cristo: porque nele habita corporalmente toda a plenitude da Divindade. Também nele estais aperfeiçoados: ele é o cabeça de todo principado e potestade. (...) Ninguém, pois, vos julgue por causa de comida e bebida, ou dia de festa, ou lua nova, ou sábados . (...) Ninguém se faça árbitro contra vós outros, pretextando humildade e culto dos anjos, (...) enfatuando sem motivo sua mente carnal. (...) Se morrestes com Cristo para os rudimentos do mundo, por que, como se vivêsseis no mundo, vos sujeitais a ordenanças: não manuseies isto, não proves aquilo, não toques aquiloutro. (...) Tais coisas, com efeito, têm aparência de sabedoria, como culto de si mesmo, e falsa humildade, e rigor ascético...’ (aos Colossensses II, 1-4, 8-10, 16, 18, 20, 21 e 23)

* / ** ‘Pensai nas coisas lá do alto, não nas que são aqui da terra; porque morrestes, e a vossa vida está oculta juntamente com Cristo, em Deus. Fazei, pois, morrer a vossa natureza terrena (...), uma vez que vos despistes do velho homem com os seus feitos, e vos revestistes do novo homem que se refaz para o pleno conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou.’ (aos Colossenses III, 2, 3, 5, 9 e 10)

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Ambas referências às correntes que conservavam práticas herdadas dos ritos dionisíacos, às quais nos referimos anteriormente (ver nota 13).

Outra idéia cara aos gnósticos era a de que partilhavam e buscavam os conhecimentos misteriosos das antigas tradições, como todas as religiões de mistérios assim o fazem.

As vertentes judaizantes, com suas dietas e práticas ascéticas, seu ritualismo rigoroso (ver nota 12), eram o alvo desses comentários. A referência, em seguida, a ‘culto dos anjos’ refere-se à preocupação que os judaizantes tinham, a partir de suas tradições místicas, em reverenciar uma hierarquia de anjos (estabelecida pela cabala) as quais acabaram sendo assimiladas aos princípios gnósticos como hierarquia de emanações, sendo as emanações-guias aquelas que chamavam de anjos.

 

** ‘Existem muitos insubordinados, palradores frívolos e enganadores, especialmente os da circuncisão [i.e., os judeus]. É preciso fazê-los calar, porque andam pervertendo casas inteiras, ensinando o que não devem, por torpe ganância (...); para que sejam sadios na fé, e não se ocupem com fábulas judaicas, nem com mandamentos de homens desviados da verdade. Todas as coisas são puras para os puros ; todavia, para os impuros e descrentes, nada é puro, porque tanto a mente como a consciência deles estão corrompidas. No tocante a Deus, professam conhecê-lo, entretanto o negam por suas obras.’ (a Tito I, 10, 11, 13-16)

* ‘De onde procedem as guerras e contendas que há entre vós? De onde, senão dos prazeres que militam na vossa carne? (...) Matais e invejais, e nada podeis obter; viveis a lutar e a fazer guerras. (...) Infiéis, não compreendeis que a amizade do mundo é inimiga de Deus? Aquele, pois, que quiser ser amigo do mundo, constitui-se inimigo de Deus.’ (Epístola de Tiago IV, 1, 2 e 4)

* ‘Não ameis o mundo nem as coisas que há no mundo. Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele; porque tudo que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não procede do Pai, mas procede do mundo.’ (primeira Epístola de João I, 15 e 16)

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Esse provérbio é especialmente notável, pois era uma espécie de lema dos gnósticos que criam poder, e mesmo dever, submeter-se a toda espécie de experiência. Tinham outra espécie de adágio, que dizia algo como: ‘o ouro pode ser mergulhado na lama que, ainda assim, não deixa de ser ouro’.


As duas coletâneas de textos acima perfazem um quadro razoavelmente claro de qual era a atitude que se desejava propor em oposição às atitudes daqueles gnósticos de várias vertentes que se encontravam nas comunidades cristãs; cremos mesmo que, por tudo que se esclareceu agora e se explicou anteriormente acerca das doutrinas gnósticas, sejam evidentes não apenas os pontos que os escritores julgavam conflitantes, mas também a possibilidade de fragilidade desses discursos de acusação ao serem tomados, particularmente, pelos cainitas - o que são acusações podem mesmo chegar a ser lidas como declarações elogiosas; o que é apresentado como modelo de virtude pode vir a ser lido como sinais de fraqueza e decadência.

Inverter, entretanto, era exatamente o intento de Judas ao referir-se aos mestres gnósticos como seguidores do caminho de Caim: a eles, que se diziam pneumáticos, acusa-os de serem, na verdade, hílicos . Essa inversão do gnosticismo, contudo, deu-se também internamente com a própria evolução de suas vertentes a princípio distintas em vertentes praticamente opostas - assim, por exemplo, como se deu o desenvolvimento que culminou na oposição entre as tendências helenizantes judaizadas (como aquelas combatidas por Paulo em Colosso) e as tendências judaizantes helenizadas (como a dos carpocráticos, dos quais, como foi dito, surgiram os ofitas e os cainitas); como não eram essas últimas as mais numerosas, a resposta do cristianismo foi eficiente.

O estabelecimento do cânon e do Credo garantiu, entretanto, apenas que também uma espécie de cristianismo sobrevivesse relativamente incólume e solitário, praticamente ainda secreto e marginalizado, esperando seu momento de poder ; o cristianismo que, definitivamente, triunfou, foi aquele que tornou-se a religião oficial de Roma e transformou-se, assim, em Universal como esse Império. Resgatadas, assim, as hierarquias e os ritos, o mistério e a força, esse cristianismo católico pôde vir a ser a potência que governou a Europa durante tantos séculos.

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Ver nota 9.

Esse cristianismo que o Protestantismo estabelecido com a Reforma veio a legitimar precisou aguardar, assim, uma dezena de séculos para que pudesse vir a ganhar a voz dos reis e das potências bélicas e econômicas; até então sobreviveu no mesmo limbo das seitas secretas consideradas hereges e, ironicamente, mosaítas (rejeição herdada dos movimentos gnósticos como o marcionismo, por exemplo).

Nietzsche e Caim


Nietzsche nunca poderia ser alinhado, naturalmente, ao pensamento ofita ou cainita, embora não seja impossível supor que algum dia viesse a ter sentido por eles alguma espécie de simpatia: a presença constante das cobras, víboras e serpentes em seus textos, sobretudo no Zaratustra , não é, certamente, uma simples coincidência. De fato, a serpente é, ao lado da águia, um dos animais que fazem companhia ao Zaratustra, e são as cobras, ainda, que introduzem a figura de Caim:

‘Mas, no ponto em que o caminho dava a volta em torno de uma rocha, mudou, de repente, a paisagem e Zaratustra ingressou num reino da morte. Erguiam-se, ali, negros e vermelhos penedos: não havia ervas nem árvores nem canto de pássaros. Era, justamente, um vale que todos os animais evitavam, também os animais ferozes; e somente uma raça de cobras, feias, gordas, verdes, iam lá, quando velhas, para morrer. Por isso os pastores chamavam o vale de A morte das cobras.
Zaratustra, porém, mergulhou numa negra recordação de que já estivera uma vez nesse vale. E muitas tristezas oprimiram-lhe o ânimo; de sorte que começou a caminhar lentamente e cada vez mais lentamente, até que, por fim, parou. Então, porém, ao levantar os olhos, viu, sentada no solo, qualquer coisa com figura de homem, qualquer coisa inominável. E, súbito, apoderou-se de Zaratustra uma grande vergonha (...). Mas eis que o morto ermo entrou a produzir sons, que brotavam do solo em gorgolejos e borborigmos (...): e transformou-se, por fim, em voz e fala humana - que assim soou:
“Ó Zaratustra! Zaratustra! Adivinha meu enigma! Fala! Fala! Que vem a ser a vingança contra a testemunha? (...) Adivinha, então, o enigma (...) - o enigma que sou eu! Vamos, fala: quem sou eu?”

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Pelas evidências que temos de que conhecia muito bem não apenas os textos bíblicos, mas também a história das doutrinas.

Vale lembrar que o próprio nome ‘Zaratustra’ é retirado de uma das religiões ou sistemas religiosos persas (zoroastrismo) que serviu de origem para vertentes do gnosticismo. Não sem valor, também, é lembrar que esse personagem de Nietzsche, ao atingir um dos momentos ‘redentores’ ao final de suas aventuras, realiza com seus eleitos uma ceia antes de deles despedir-se para sempre, como assim também o fez Mitra (e, naturalmente, o Cristo), na qual pronuncia, como ele, as palavras: ‘Agora já morri. Tudo acabou’ (como também, igualmente, o ‘está consumado’ do Cristo).


(...)
“Eu bem te conheço”, disse, com brônzea voz; “és o assassino de Deus! Deixa-me ir embora. Não suportaste aquele que te via - que te via sempre e até o mais fundo do teu ser, ó tu, o mais feio dos homens! Tiraste vingança contra essa testemunha!”
Assim falou Zaratustra, e queria ir embora dali; mas a figura inominável agarrou-lhe uma ponta da vestimenta e recomeçou a gorgolejar, procurando as palavras. “Fica!”, disse por fim -
(...) Ao encontro de quem queria eu iria senão de ti?”

(Zaratustra, quarta parte, O mais feio dos homens)


O mais feio dos homens, pois, figura completamente assimilada à terra (é da terra que sua voz sai), para quem as palavras são difíceis, esse é o que se vingou de Deus e assassinou-o - essa figura tem o mesmo sentido da de Caim, pois, e certamente também não como mera coincidência. É ainda ele, o mais feio dos homens, justamente o primeiro a, dentre os homens superiores reunidos na caverna de Zaratustra, dizer o mais completo ‘sim’ à vida - é ele quem, tropeçando nas palavras, enuncia o eterno retorno do mesmo .

Caim, no entanto - que tipifica o exemplo daqueles que se nomeiam por ele, os cainitas - é claramente não uma meta, mas uma ponte para o Zaratustra, como esse mesmo diz em sua declaração de amor aos homens superiores , e como o próprio mais feio dos homens declara no final da passagem acima transcrita. Mais que simplesmente uma ponte uniforme, Caim traz consigo um drama em etapas (conforme apresentamos) que parece encontrar, em Nietzsche, uma possibilidade de aplicação:


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ETAPAS DO DRAMA CAÍNICO
(Aplicado ao Projeto Nietzscheano)


1. (Caim ofereceu a Deus uma oferta do fruto da terra.) O reconhecimento respeitoso, por parte do que busca a consciência de si, da ordem mais potente: Nietzsche reconhece o poder da potência contra a qual seu pensamento se insurgirá - por isso mesmo, por ser uma potência respeitável, é que a escolhe por inimiga. É impossível separar isso, como dissemos no início, de considerações sobre aspectos da vida pessoal de Nietzsche - na qual, de fato, encontra-se também o mesmo reconhecimento respeitoso durante todo seu processo de auto-investigação.


2. (Caim ira-se e revolta-se contra Deus.) A revolta do que, buscando ter consciência de si, é oprimido pela potência superior, contra ela, assim, guerreando: a morte de Abel representa o que em Nietzsche se dá como o apontamento de todas as formas de tipos oprimidos e opressores por parte dessa potência que combate: a figura, pois, de Abel (que, sendo sujeitado, era também sujeitador - das ovelhas ) prenuncia não apenas a do Cristo, o pastor-mor, que será exaustivamente combatida, mas todas as figuras que a ele podem ser relacionadas (o trasmundano, o desprezador do corpo, o pregador da morte - enfim, todas as imagens exemplares do cristianismo apostólico que os cainitas procuravam inverter, como foi demonstrado).

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Não apenas aos pulos e brados, como durante todas as andanças e encontros do Zaratustra, mas também através das palavras (notavelmente coincidentes com o tom das críticas gnósticas em todos os pontos, e apontadas contra imagens caras a Paulo) do velho papa sem ofício que, sendo longamente íntimo de Deus, observou também sua morte e o narra assim:
‘O meu amor o serviu durante longos anos, a minha vontade seguiu inteiramente a sua vontade. Mas um bom servidor sabe de tudo e, também, das coisas que seu senhor esconde de si mesmo.
Era um Deus oculto, cheio de mistérios. Em verdade, mesmo a ter um filho não chegou de outro modo, senão por caminhos escusos. No limiar da fé acha-se o adultério.
Quem o gaba como um Deus do amor, não forma do amor um conceito bastante elevado. Pois não queria, esse Deus, ser também juiz? Mas quem realmente ama, ama acima de prêmio e de castigo.
Quando era jovem, esse Deus vindo do Oriente era duro e vingativo e edificou um inferno para deleite dos seus prediletos.
Finalmente, porém, ficou velho e mole e combalido e compassivo, mais semelhante a um avô do que a um pai e mais semelhante, ainda, do que qualquer outra coisa, a uma velha avó trôpega. Quedava-se, murcho, sentado a um canto do fogão, queixando-se da fraqueza das pernas, cansado do mundo, cansado de ter uma vontade; e, um dia, morreu sufocado por sua excessiva compaixão. (...)
Era, também, obscuro. Quantas vezes não se enfureceu conosco, esse irado resmungão, de que o compreendíamos mal! Mas, então, por que não falava mais claro? E, se isso dependia dos nossos ouvidos, por que nos deu ouvidos que o ouviam mal? Se havia lama em nossos ouvidos, muito bem! quem a pôs lá dentro?
Coisas demais de lhe malograram, a esse oleiro que não completara o aprendizado. Mas que se vingasse em seus vasos e criaturas de que lhe haviam saído mal - isto foi um pecado contra o bom gosto.’

Como curiosidade, e mais do que isso: o próprio Zaratustra é referido como ‘sábio do oriente’ pelo rei da esquerda (quarta parte, A saudação).

O livro do Zaratustra começa dizendo que para lá fora, e, que ao cabo de dez anos, pleno de excessiva sabedoria, resolvera dela sair, pedindo ao sol uma bênção à ‘taça que quer transbordar, a fim de que sua água escorra dourada, levando por toda parte o reflexo da bem-aventurança [do sol]!’.

 

A altivez com que Caim combate Deus é a mesma com que o próprio Zaratustra anuncia a morte de Deus - pois, em ambos os casos, trata-se, na verdade, de estabelecer o homem (a caminho do super-homem, para Nietzsche); de igual forma, o grande ‘golpe de punho’ de Nietzsche contra Deus, a publicação do Zaratustra (e dos livros que a partir dele surgiram), é um gesto absolutamente solitário e forte, prenhe de si mesmo.


3. (Caim retira-se da presença de Deus) O afastamento consciente e voluntário para longe da opressão da potência superior: assim como Caim exila-se em Node, a oriente do Éden, também o Zaratustra precisa de sua caverna, de sua montanha, e para ela retorna para fugir do povo e reencontrar seus animais e a natureza - é lá que se cultiva a si mesmo . Em sua vida pessoal, é sabido que também Nietzsche era, por assim dizer, hóspede frequente de suas próprias montanhas e cavernas, tanto por como habitava quanto por seus recatados hábitos .


4. (Caim estabelece-se numa terra e constrói uma cidade.) A instauração (ou restauração) de uma ordem cujos parâmetros são seus próprios conflitos, e não a opressão da potência superior, da qual pretendem estar livres: isso é o que, em Nietzsche, costuma-se chamar, na falta de um termo melhor , de ‘estetização da vida’. Se melhor o pudéssemos designar, diríamos apenas: ‘o fazer a vida - uma obra’, e apenas isso.

Assim como a obra de Caim é a cidade que funda para fora da presença de Deus, também há em Nietzsche o princípio de uma atitude fundante a partir da negação de Deus . E da mesma forma que a lei na cidade de Caim é que não há lei , e que os hábitos que são nela cultivados são aqueles que entre os servos de Deus são abominados, assim também o viandante e sombra, ao relatar todo o trajeto de Zaratustra - uma vez havendo-o acompanhado de muito perto -, diz:

‘Contigo vagueei pelos mundos mais frios e distantes. (...)
Contigo almejei por tudo o que é proibido, pelo que há de pior, de mais remoto; e, se alguma virtude possuo, é a de que não temi nenhuma proibição.
Contigo destrocei tudo aquilo que, algum dia, meu coração venerara, derribei todos os marcos de fronteira e de ídolos, deixei-me atrair pelos mais perigosos desejos - em verdade, não há delito sobre o qual eu não passasse uma vez.
Contigo desaprendi a fé nas palavras, nos valores e nos grandes nomes. (...)
“Nada é verdade, tudo é permitido”: assim eu dizia para animar-me. (...)
Com demasiada freqüência, corri atrás da verdade, colado aos teus pés; e, então, ela pisou minha cabeça. Às vezes, eu pensava mentir e eis que, somente então, encontrava - a verdade.
Coisas demais se me tornaram claras; agora, nada mais me importa. Nada mais existe que eu ame - como ainda haveria de amar-me a mim mesmo?
“Viver como me apraz ou não viver de todo”: assim quero, assim quer também o ser mais santo. Mas, ai de mim! como posso ainda, eu, ter alguma coisa - que me apraza?
(A sombra, quarta parte)

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Tornou-se anedótico da educada dissimulação de Nietzsche o episódio em que, perguntado num domingo por uma jovem se fora ao templo, respondeu a ela: ‘Hoje, não fui.’

Nada mais natural, contudo, que a ‘falta de um termo melhor’ - pois estamos tratando ou tentando designar algo em que a própria linguagem é desconstruída. Não é à toa que a figura de Caim no Zaratustra, o mais feio dos homens, gorgoleja e borborigma para falar, e o faz muito lentamente (‘como a água, durante noite, em canos entupidos’ - pela longa falta de uso: falar é fazer uma concessão a quem ouve...). Mais significante, ainda, é o fato de que, ao meio-dia de Zaratustra, assim falou esse ao seu coração: ‘Silêncio! Silêncio! Não acaba o mundo de atingir a perfeição?’.

Ao apresentar-se ao velho papa, Zaratustra assim fala de si mesmo: ‘Sou eu, o ímpio Zaratustra, o sem Deus, quem te fala; quem é mais ímpio do que eu, para que eu me regozije de seus ensinamentos?’.

Ver nota 60.

 

Pois a construção que Nietzsche propõe é feita não sem antes uma demolição, e a própria construção, depois disso, não é - pelo menos em seu início - menos violenta que essa - como assim temos do próprio Zaratustra:

“O homem é mau” - assim falaram, para meu consolo, todos os sábios. Oxalá isso fosse verdade ainda hoje! Pois o mal é a melhor força do homem.
“O homem deve tornar-se melhor e pior” - isto ensino eu. O pior que tudo é necessário para o maior bem do super-homem.’
(
Do homem superior, 5, quarta parte)

A violência, por certo - bem como as demais características guerreiras da geração caínica -, a encontramos igualmente como parte do vocabulário de Zaratustra:

‘O medo, com efeito - é a nossa exceção. Mas coragem, gosto pela aventura, pelo incerto, pelo que ainda não foi ousado - coragem parece-me toda a pré-história do homem.
Ele invejou e arrebatou todas as virtudes dos animais mais bravios e mais corajosos; somente então tornou-se - homem.
(Da ciência, quarta parte)

‘Mas eu não poupo os meus braços e as minhas pernas, eu não poupo os meus guerreiros; como poderíeis, vós [que sois fracos], servir para a minha guerra?
(A saudação, quarta parte)

‘Hoje é dia de vitória: já recua, já foge o espírito de gravidade, o meu velho e mortal inimigo!(...)
Também deles [os homens superiores] foge o seu inimigo, o espírito de gravidade. (...) [Pois alimentei os homens superiores] com alimento de guerreiros, com alimento de conquistadores: despertei novos desejos.’

(O despertar, quarta parte)

vocabulário esse que vai expandindo a idéia de ‘força ’ para uma espécie de ‘amor’ não menos forte, absolutamente afirmativo a tudo, que é dirigido, pois, à vida e ao mundo:

‘Quem for dos meus, deverá ser homem de ossos fortes e, também de pés leves -
Bem disposto para guerras e festejos, sadio e robusto, não uma criatura sombria, não um devaneador; e pronto para o que houver de mais difícil como para a sua festa.
Aos meus e a mim cabe o que há de melhor; e, se não nos dão o melhor, nós o tomamos: a melhor comida, o céu mais puro, os pensamentos mais fortes, as mulheres mais bonitas!’

(A ceia, quarta parte)

‘É a mim que tu queres, ó mundo? Sou mundano, a teu ver?
(...) então quisestes a volta de tudo -
Tudo de novo, tudo eternamente, tudo encadeado, entrelaçado, enlaçado pelo amor, então, amastes o mundo -
- Ó vós, seres eternos, o amais eternamente e para todo o sempre.’

(O canto ébrio, 7 e 10, quarta parte)

O projeto nietzscheano, entretanto, não se conclui com o estabelecimento disso - que não é possível nomear senão como ‘a obra’ -, mas justamente com a compreensão de que não é possível estabelecê-lo senão como continuum:

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Em todos os seus sentidos (vigor, beleza, fertilidade), o que nos reporta, novamente, à geração de Caim com seus varões valorosos, suas belas mulheres, sua música, etc. A música está presente em toda a quarta parte do Zaratustra (não só Zaratustra canta, mas também os homens superiores), e também a dança (os pés leves, do homem que aprendeu a erguê-los, sobre a terra).

‘Viso, acaso, à felicidade? Eu viso à minha obra! (...)
Esta é minha manhã, o meu dia raiou; sobe, agora, sobe no céu, ó grande meio-dia!’
Assim falou Zaratustra, e abandonou sua caverna, ardoroso e forte, como um sol matinal surgindo detrás de escuros montes.

(final - O sinal, quarta parte)


À trajetória do Zaratustra, que vai, portanto, para além do drama caínico, só podemos associar os fatos da vida de Nietzsche até certo ponto; pois, assim como
as palavras vão se perdendo quanto ao que diz respeito a seu projeto, o mesmo se dá quanto ao que diz respeito à sua vida.


Apêndice


[figura 1: (mural) o burro crucificado e seu adorador] *
Fig.: Inscrição popular descoberta em Roma em meados do século XIX (em grego: Alexâmenos adora seu Deus).


(Nas ruínas de Roma encontrou-se um grafito anticristão do século II, provavelmente feito por algum estudante gozador. Pendurado na cruz, um homem com cabeça de burro, e aos pés do desenho a frase: “Alexâmenos adora seu Deus” Alexâmenos não deixou por menos. Podia ter dado a outra face, mas preferiu escrever ao lado uma resposta afirmativa ao insulto gratuito: “Alexâmenos fiel”.)


Do primeiro dia

Depois que se foi Zaratustra de sua caverna, ficaram os homens superiores consternados, pois não sabiam o que fazer: lá fora, o leão que esse deixara os impedia com rugidos ameaçadores de sair sequer para apanhar algumas das muitas pombas que infestavam de sujeiras a porta da caverna, para que lhes servissem de desjejum. Começavam mesmo a incomodar-se com o burro que ali com eles também dormira, pois o álcool do vinho que fizeram-no beber atacara-lhe as funções, e passava mal.

Assim, decidiram destruir, com golpes do bastão que Zaratustra ali esquecera ou abandonara, o altar que improvisaram em homenagem ao burro na noite anterior. Das ripas que sobraram fizeram uma cruz tosca e pequena, à qual ataram pelas patas e pelo tronco o animal, e puseram-se a contemplar divertidamente seu suplício, saudando-o com acenos de mão e sorrisos e cantos. Como demorasse a morrer, e estavam muito leves para cometer qualquer violência, decidiram disputar sortes sobre uns papéis que, como um manto frágil, forravam o chão sob a cruz.

Os dois reis, contudo, objetaram:
‘Como podemos lançar sortes e desejar ganhar estes papéis que não sabemos para que servem? A nós, apenas nos lembra a náusea da fraude da cidade...’
‘Pois por que não investigam minuciosamente de que se trata? Se observardes bem, vereis que neles está escrito algo’, disse o homem consciencioso.
‘Não sei ler’, respondeu, gorgolejando lentamente cada palavra, o homem mais feio do mundo, de cuja boca saiu um hálito terrível que fez todos os rostos se virarem para buscar ar fresco em outra parte.
Mas o leão espreitava à porta, e voltaram-se novamente para o centro.

‘Conheço essas palavras’, disse o velho papa sem ofício, ‘mas não me recordo o que significam. Porque não as interpreta para que todos possamos apreciar seu som?’, disse, dirigindo-se ao homem consciencioso, que estava ao seu lado, enrolando-se em suas mantas.
‘Interpretá-las, todas? Isso seria demasiadamente longo, e gastariámos aqui muito tempo, e meu ventre já começa a pedir por pão’, resmungou esse.
‘Toma, aqui, do pão que comemos ontem, como paga por seus esforços, e, agora, lê!’, ajuntou o mago, que já estava impaciente.
‘Pois bem, lerei:
Nietzsche e o Caminho de Caim”, isso é o que diz aqui essa folha com as letras maiores, mas não sei o que poderia ser isso.’
‘Deveras, conheço essas palavras’, repetiu o velho papa sem ofício.
‘Deixa-o ler, importuno, que a ninguém interessam tuas lembranças’, disse rispidamente o mago, erguendo as mãos.
‘Ouví, que assim começam os escritos: “Cabe aqui primeiramente uma espécie de advertência que, mostrando sua própria confusão, pretende, com isso mesmo, prestar algum esclarecimento acerca da natureza não apenas deste trabalho mas também do próprio sólio do qual buscará extrair seu material.” - então, pois! também eu conheço essas palavras!’, exclamou, estupefato, o homem consciencioso. ‘Trata-se de um farsante, como muitos que conheci - um farsante!’
‘Se assim o é, desinteressa-nos ainda menos’, disseram os dois reis, levantando-se e indo para o canto.
‘Ao passo que, a mim, interessa-me sobremaneira’, disse o mago, e chegou-se mais para perto. ‘Lê, homem!’

E, havendo-se esquecido das sortes que lançavam, passaram toda a manhã e a tarde lendo os papéis escritos, rindo-se das fraudes que continha e fazendo cânticos e danças com as melancolias que destilava. O velho papa e o mago acabaram por embriagar-se, e se beijaram abraçados. O homem consciencioso rabiscou grande parte das folhas, feliz em haver reaprendido como se mente com palavras, e, havendo aprendido essas mentiras, acreditou novamente nelas, e logo as esqueceu. O homem mais feio do mundo atirou os dois reis à fera que espreitava a entrada da caverna, para que sua fome fosse saciada, e dormiu com a cabeça recostada sobre lombo do animal.

A tudo isso, o burro, da cruz, disse: ‘I-A’, e morreu ao entardecer.

Ernani Teixeira nasceu em Curitiba, onde dividiu sua educação escolar entre o colégio luterano Martinus e a escola militar. Filho de um pastor protestante e de uma professora de piano foi na infância aluno assíduo tanto da Escola de Música e Belas-Artes quanto da Escola Bíblica Dominical. Mudou-se para Campinas/SP aos 14 anos e deu continuidade aos estudos de violino com José Gramani. De volta do mosteiro cartuxo para onde se retirou quando interrompeu o curso de Filosofia na Unicamp, reingressou na mesma instituição onde se graduou em Composição Musical sob a orientação de Almeida Prado. Lá também fez seus estudos de Mestrado em Filosofia Antiga sob a orientação da Profa. Dra. Maria Sylvia de Carvalho Franco, relacionando os princípios matemáticos pitagóricos descritos no relato da criação do mundo pelo demiurgo do Timeu (Platão) a princípios estéticos gerais através das proporções musicais. Lidera ao violino desde 2002 um quarteto de hardbop e um trio de swing com os quais gravou discos, produziu shows e se apresenta regularmente nas casas de jazz de São Paulo e interior, desenvolvendo atualmente suas pesquisas de Mestrado em Música (também na Unicamp) sob a orientação do Prof. Dr. Esdras Rodrigues sobre a linguagem ‘parisian swing’ de Stéphane Grappelli. É adepto da sociabilidade de bistrô e de sofá, ambientes cotidianamente preferenciais para a amizade e a gastronomia, não necessariamente nessa ordem.


 

 

 

 

   

 

 

 

Jornalista Ana Lucia Vasconcelos

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