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Arte
noir, o butoh além de dança __________________
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Arte
noir, o butoh além de dança Ana Lúcia Vasconcelos
Enquanto a dança tradicional japonesa foi sempre ligada ao folclore,
com seu estilo próprio, tendo entre seus temas de eleição
os relacionados com a natureza-nas comunidades de pescadores, tinham por
tema o mar, enquanto os povos das montanhas inspiravam-se para suas coreografias,
nas transformações do tempo, nas mudanças e na qualidade
da luz, variáveis segundo as estações do ano, a dança
contemporânea apresenta uma mudança fundamental de estilo
e de postura.
Passos
no negrume
Bu significa dança e toh - passos, e estas palavras vêm sempre
ligados: Un é escuro e Kohu que é negrume, para significar
a dança no escuro, passos no negrume da existência, deixando
claro que os criadores do Butoh querem deixar aos homens a advertência:
apesar de toda sua civilização e conhecimento, o ser humano
continua a ser uma poeira no universo ainda longe da perfeição.
Ushio Amagatsu define o estilo do butoh como uma homenagem ao homem, ao
ser humano. A cabeça raspada e o corpo pintado de branco é
uma simbologia para traduzir a simplicidade. Através da brancura,
homem apaga as marcas individuais para privilegiar o aspecto global do
grupo, da humanidade.
Trabalhando
com o
Ushio Amagatsu considera difícil explicar seu processo criativo.
Normalmente, ele explica, todas as obras partem de um processo de vida.
“Às vezes uma se assemelha a outra, as pessoas dizem, mas
para mim são diferentes. Parto da descontinuidade para a continuidade
de um trabalho. Pode ocorrer de várias maneiras. Se vou a um museu
e, por exemplo, fico intrigado com uma obra começo a dialogar com
ela. Outro exemplo: se pegarmos o tema vento, é possível
associá-lo àquilo que sentimos entre o braço e o
corpo quando fazemos o movimento de alongar o braço para a direita.
Olhando no espelho como os ocidentais costumam fazer, é possível
até imitar o movimento do vento. No entanto, me interessa outra
perspectiva. Como se o espelho estivesse dentro do corpo. Cada um de nós
tem uma força dentro capaz de perceber o que é a sensação
do vento. Sensibilizar o ponto em que se percebe isto com maior clareza
e transparecer através do corpo esta sensação seria
o verdadeiro vento para mim. Assim, mesmo que todo um grupo realize o
mesmo movimento, o gesto será diferente. Cada pessoa tema o seu
captador. Por isso é importante que muitos” movimentos não
sejam predeterminados.
Quanto a influencia dos elementos da natureza e a técnica butoh,
sua preocupação principal é com relação
ao globalismo das coisas e aos simbolismos. “Se encontramos um desenho
na parede de uma caverna não quer dizer que o desenhista viu o
animal lá dentro. Na dança também é assim.
A dança seria o trabalho de fixação das sensações
do corpo. As sensações nascem na natureza. O corpo filtra
e simboliza”.
No Brasil, mais exatamente em São Paulo, o primeiro a lançar o Butoh foi o coreógrafo e criador cênico Takao Kusuno no espetáculo Corpo I que ganhou o prêmio de Melhor Coreografia da Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA) de l979. Com este espetáculo Takao criou grande impacto, já que sua coreografia quebrava os cânones da dança conhecida até então, inclusive a contemporânea brasileira, pois o Butoh é uma dança de tensões e não de sensações. “Ela é altamente impactante” na opinião de Jo Kahshi, da Fundação Brasi-l Japão, “principalmente pela sua imprevisibilidade”. No Butoh não há a perseguição a musica. Ela corre paralela, e às vezes em total desencontro com ela, o que a torna altamente imprevisível para o público”. Entrevista
de Mário Kodama I P- O que é o butoh para o senhor? Kazuo Ohno - É uma pergunta difícil de responder. Cada dançarino tem seu próprio butoh. Não existe um método, porque a dança é a expressão do interior de cada um. Por isso é singular em cada pessoa. Para mim, o butoh é, com palavras simples, apreciar a vida, minha e dos outros. I. P. - O senhor teve alguma influência da dança ocidental? Ohno - Posso dizer que tive influência do balé clássico depois de Isadora Duncan (1878-1910), que tirou as sapatilhas e começou a dança livre, rompendo com as formas do balé; também de Mary Wigman (1886-1973), que pertenceu à dança de vanguarda alemã dos anos 30 e uma das criadoras do expressionismo na Alemanha. A dança de Wigman era completamente diferente do balé e da dança de Duncan. Era uma dança que nasce no interior, na intimidade do ser humano.
I. P.- Onde o senhor aprendeu a dançar?
I. P. - Como o senhor conheceu Tatsumi Hijikata (um dos mestres que, com Kazuo e Min Tanaka, criaram o butoh nos anos 60)? Ohno - Ele assistia às minhas apresentações e um dia veio me visitar. Foi assim que nos conhecemos. Meu filho Yoshito começou a carreira com Hijikata na peça "Kinjiki”, baseada na obra de Yukio Mishima , em 1959 , que chocou o público e o mundo da dança do Japão daquela época. I. P. - E como surgiu o butoh? Ohno - Penso que meu butoh nasceu como o ser humano nasce do corpo da mãe, e aconteceu no momento em que interpretei a personagem Divina da obra "Nossa Senhora das Flores" (de Jean Genet), em julho de 1960. Nesse instante a minha vida brotou da escuridão e brilhou em cinco cores. Esta foi nossa (dele e de Hijikata) primeira apresentação e começamos a trabalhar juntos. Mas as primeiras apresentações que fizemos tinha mais as características de Hijikata. I. P. - Como foi o processo de transformação que o senhor sofreu até chegar ao butoh? Ohno - Eu penso que há algo em comum entre a energia de nascimento de uma vida e a do nascimento do Universo. Existe uma força centrípeta entre mãe e filho, como entre o Sol e os planetas do sistema Solar. Tudo o que existe nesse mundo é ligado profundamente com o Universo. Mas a dança moderna não incluía esses fenômenos básicos da natureza, as relações entre ser humano, morte, vida, amor, universo, natureza e outros temas essenciais, nem o expressionismo alemão. O envolvimento com estas questões foram nossos mestres e crescemos com elas. É isto que expresso no meu butoh.
Ohno - Não tenho conhecimento de que alguém esteja fazendo algo realmente novo. Há muita gente que procura chamar a atenção só por ser esquisito excêntrico. Mas não conheço ninguém que trate das questões filosóficas essenciais como as que eu trato. Talvez eu seja o único que as tento expressar. Não adianta pensar com a mente como é que se deve viver. A vida tem que ser descoberta no dia-dia O que apresento no meu butoh é tudo que eu vivo na minha vida. Premeditar as coisas nem sempre dá certo. Por exemplo, guerras, devastação do meio ambiente são feitas pelas pessoas que planejam demais. Acho que nós devemos dar mais importância aos sentimentos e respeitá-los. I.P. - Quantas vezes o senhor foi ao Brasil? E o que achou?
Fonte:
Jornal: International Press- Entrevista de Mário Kodama - intérprete,
Kunihiro Otsuka, Seção: Lazer e Cultura - Página
5-B - Japão, 24 de setembro de 1995.
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Jornalista Ana Lucia Vasconcelos Web designer-Edson Souza
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