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Páscoa é
Passagem para a Vida
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Dom Benedicto de Ulhôa Vieira
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Páscoa
é
Passagem para a Vida
Ana
Lúcia Vasconcelos
António
Pires de Évora (1411-1434)
(Museum (Budapeste, Hungria)
O
significado da palavra Páscoa-pessach, em hebraico, é passagem.
Para os judeus é passagem da escravidão para a liberdade.
Escravos do faraó do Egito foram libertados por Moisés,
atravessando, o Mar Vermelho a “pé enxuto”, conforme
narram as Escrituras Sagradas. Para nós cristãos também
é passagem: do estado de morte pelo pecado, para o estado de vida,
na graça de Deus. Estado de graça, diga-se, em que podíamos
estar mergulhados desde sempre, desde a criação do homem,
já que Deus, o Todo Poderoso o Santíssimo Criador de todas
as coisas nos dera o paraíso. Ocorre, porém, e isto todos
sabemos, que nosso primeiro ancestral se transvia, peca, ou seja, se separa
da Infinita Bondade, da Infinita Misericórdia, do Infinito Amor
do seu Criador, para seguir seus próprios pensamentos, sua própria
vontade. É a queda da humanidade: Adão pecou e por ele “o
pecado entrou no mundo”, como diz São Paulo em Carta aos
Romanos.
Reparação Infinita
Refletindo
sobre esta questão, de suma importância para a história
da nossa salvação, Jean Daujat, autor do livro Conhecer
o Cristianismo, vai dizer que o pecado não é senão
“o desprezo pelo amor Infinito de Deus, desprezo pelo próprio
Deus e pelo dom da Sua Vida”, o que é uma ofensa infinita
já que feita a um Ser Infinito. Ora, para reparar tal ofensa infinita,
deveria haver uma reparação infinita, que o homem, finito,
não poderia realizar”.Deus, portanto que ama a humanidade
a ponto de querer que o seu pecado seja plena e totalmente reparado por
uma tal superabundância infinita de amor que vai compensar tudo
aquilo que no pecado havia de injúria infinita.”
E como faz isso? Mandando Jesus Cristo, seu Filho Unigênito, a Segunda
Pessoa da Santíssima Trindade, homem e Deus, de maneira que seus
atos fossem ao mesmo tempo de um homem e de um Deus. Eis aí o mistério
da Encarnação Redentora. “Pela absoluta perfeição
do seu corpo e da sua alma e de todas as suas faculdades, Jesus Cristo
é o homem perfeito, Chefe e Rei supremo de toda a humanidade. Sua
alma humana possui a plenitude absoluta da graça e de todos os
dons de Deus. Assim, um só ato de Jesus Cristo, ato de Homem Perfeito,
reunindo em si a perfeição de toda a humanidade, é
ato de Deus Filho, expressão eterna e perfeita do esplendor do
Pai que constitui um ato de amor de um valor infinito, bastante para compensar
superabundantemente toda a malícia do pecado e capaz de santificar
toda a humanidade”, afirma Daujat.
Sofrimentos terríveis
E como vai
se dar essa reparação? Por meio de sofrimentos terríveis.
O homem-Deus, sendo flagelado e agonizando numa cruz. O horror infinito
pelo pecado o fez agonizar de dor ao contemplar o espetáculo do
amor de Deus repelido e desprezado pelos homens. E antes mesmo, quando
Jesus agoniza no Jardim das Oliveiras a ponto de suar sangue: é
a dor interior do seu coração, o espetáculo do pecado
que o fez entrar em agonia.
“Por isso”, diz o padre Raniero Cantalamessa, “ não
devemos nos indignar com a covardia de Pilatos, com a traição
de Judas ou com a perfídia de Caifás. São os nossos
pecados seus carrascos. É por causa da nossa avareza, do nosso
orgulho e da nossa sensualidade que a Carne de Deus voa em pedaços,
que os ossos de Deus estalam, que o sangue de Deus brota e corre, para
que o Amor Infinito de Jesus Cristo compense abundantemente a nossa recusa
do Amor de Deus.”
“Daí que”, ele continua, “a Sexta Feira Santa
é inseparável da Páscoa, e quando Pedro vai dizer
no dia de Pentecostes: ‘Vós matastes Jesus de Nazaré!
Deus o ressuscitou! Arrependei-vos!’, aquelas tres mil pessoas que
ouviam sentiram o coração trespassado e disseram a ele e
aos apóstolos: ‘ que devemos fazer irmãos?’
Um grande espanto se apoderou deles, conforme se lê nos Atos dos
Apóstolos e se apodera de nós, se não formos de pedra.
Como não ficarmos amedrontados com este pensamento: Deus amou tanto
o mundo que lhe deu seu Filho Unigênito e nós o matamos.
Matamos o autor da vida! Matamos a Vida!”, conclui tragicamente
Cantalamessa.
Ressurreição que liberta
No seu livro A Fé Cristã Renovada - Carisma Espírito
Libertação, Heribert Muhlen vai dizer que quando
Jesus diz: “Tudo está consumado”, Ele quer dizer que
alcançou a união com o Pai, consumou-se a volta para o Pai,
sendo mesmo esta unidade claramente expressa no seu discurso de despedida:
“Para que todos sejam um, como Tu Pai, em mim e eu em Ti, todos
sejam um em Nós” (Jo17,21) .
E quando ressuscita, triunfando sobre a morte, faz com que a natureza
humana renuncie também totalmente a ela mesma, a viver por si mesma,
permanecer dobrada sobre si mesma. Em Jesus Cristo a natureza humana renasce,
ou seja, renascemos, e revive totalmente voltada para a Bondade Infinita
de Deus. “Se Jesus Cristo triunfou do pecado e da morte não
foi somente pela sua própria Glória, foi também para
nos associar à sua Glória, para nos libertar do pecado e
nos dar a vida em Deus”, conclui Jean Daujat. E depois da Páscoa,
ensina Heribert Muhlen, Jesus está presente na modalidade do seu
Espírito, e este é por sua vez, o modo de ser “nosseico”
do próprio Deus.
“Ele não é o Eu divino, o Pai, nem o Tu divino, o
Filho, mas sim a própria nosseidade divina, ou seja, o Nós
divino em pessoa. Heribert Muhlen acredita que desde que o nós
dual de Deus, se nos revelou no modus da Cruz como auto entrega ou autotranscendencia,
a experiência do Espírito é sempre a experiência
da autotranscendencia divina em nós, na sua dupla orientação
de sentido: através de Cristo para o Pai e para os semelhantes”.
E este segundo aspecto vai ser encontrado especialmente em 1JO3, 16: ‘Conhecemos
o Amor (de Deus) no fato d’ Ele haver dado a vida por nós.
Também nós devemos dar “a vida pelos irmãos”.
Isso, porém, só conseguimos fazer, se Deus nos dá
seu Espírito (1JO4, 13). “O Pneuma enviado pelo Pai e pelo
Filho não é para São João somente o Espírito
da verdade e do conhecimento, senão também no sentido mais
profundo, o Espírito da autodoação, do amor”.
É neste sentido que devemos entender a Páscoa: passagem
do estado de pecado, de queda, de morte, para o estado de Graça,
de Vida, de Liberdade. Ressuscitando dos mortos, Cristo nos resgata definitivamente
da morte. Nos liberta para sempre da tentação de fazermos
a nossa vontade, nos ensina a fazer a vontade do Pai, como Ele fez: “obediente
até a morte, e morte de cruz”.
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