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Nelly
Novaes Coelho analisa a poesia
de Hilda Hilst(1)
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Beckett:
passatempo e prazer
Igor
Bezerra
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Três
Tesouros Perdidos
Flávio
Corrêa de Mello
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Ainda
sobre criação e poesia
Bianca Dias
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Ainda
sobre criação e poesia
Bianca Dias
Sempre me recordo com muita intensidade da mostra Picasso na Oca em
São Paulo. Foi uma coisa marcante conhecer Picasso de perto,
mas também me encontrar com o trabalho de Daniela Thomas que
é uma fagulha que provoca alta combustão. Desde lá
venho acompanhando essa mulher genial, profissional de ação
ininterrupta, cenógrafa, figurinista, diretora de cinema, dramaturga
e roteirista. No filme "Paris, eu te amo" ela comove com
seu forte e terno olhar para a cidade que encanta e comove qualquer
um. Numa curadoria de Maria Rita Kehl, ela debate com Renato Janine
Ribeiro a temática do amor no cinema.
Pronto... Já gostava dela, mas a partir daí foi amor
eterno. Sim, porque é quando vemos um sujeito falar de amor
é que podemos sentir a dimensão que isso tem na vida
dele. No discurso de quem ama há vida, luz, viço, cor.
Na fala daqueles que burocratizam o amor há opacidade. De quê
adianta um trabalho acadêmico sobre o amor? Para que serve O
Banquete de Platão hoje? Todas as teorias e tratados sobre
o amor, embora geniais, só provam sua utilidade na vivência
da troca que é uma relação amorosa." Quem
não ama não tem gabarito para falar do amor. Isso é
corromper o amor.", esbraveja Daniela. A partir daí o
amor clichê, folhetinesco, standartizado, panfletário
acabaram para mim. Eu pensei como ela.
Quem ama inscreve seu desejo no mundo, ainda que criando. E Daniela
cria, participa, marca sua dor de se saber mulher. Conheceu e foi
curadora das exposições de esculturas de Franz Krajcberg,
das fotografias e loucuras de Arthur Omar, das amenidades fotográficas
de Mari Stockler. Fica amiga de gente interessante, é mulher
do bem que circula, roda, ronda, rodopia, dança, se vira. Se
casou com Gerald Thomas quando morou em Londres para estudar cinema.
Tiveram uma parceria bem- sucedida no teatro, mas hoje é um
de seus poucos desafetos. Na palestra sobre amor no cinema, ela diz
que o filme da sua vida é Nosferatu e lá ela entendeu
um pouco de sua relação com Gerald. Viu que algoz e
vítima tinham uma espécie de acordo tácito e
decidiu romper. Entre cenários e figurinos está Daniela.
Declara seu respeito por Bia Lessa e Gringo Cardia que eu também
amo nesse mundo da cenografia. Bia é diferente de Daniela,
mas ela gosta das diferenças. Diga-se de passagem, aqui que
o método de Bia Lessa é subversivo e desafia com cenografias
inacreditáveis as leis básicas da gravidade.
Daniela está para Bauhaus como Bia Lessa está para o
barroco, eu acho.
Daniela amou mais uma vez. E disse que vai amar sempre. Tem como primeiro
grande romance seu pai, Ziraldo. Dele talvez o rigor, esforço
contínuo e o sentido da arte. Com ele o medo da perda de um
amor se tornou maior. Ziraldo foi preso na época do Pasquim
e ela tinha nove anos quando os guardas invadiram sua casa e o tomaram
dela: momentos idílicos na sua Copacabana se tornaram anos
de chumbo depois disso. Ela se refez das experiências traumáticas
todas e se abriu para o mundo. Se casou mais uma vez, com Felipe Tassara,
um arquiteto surpreendente que tem como mestre Paulo Mendes da Rocha.
Tanta coisa, tanto de Daniela, tanto de mim nisso tudo. Foi um encontro
aquele dia na Oca. Picasso+ Daniela Thomas juntos não é
para qualquer um. E entre vaginas dentadas, rostos cubistas, touradas,
labirintos, colagens do mundo, ângulos vazados, sutilezas de
iluminação está a mulher. Descobri alguém
aí nesses entrecruzamentos. E quando sentimos alguém
com tanta raça e tanto vigor em seu desejo sentimos que o mundo
pode ruir, mas está tudo certo. Daniela estava lá na
oca modernista, cercada por obras que gritam suas importâncias
históricas, numa atmosfera sem tempo, sem noite, sem dia, onírica,
prismática. Eu estava lá e vi Daniela passar. Sobre
a oca a lua minguava amarela, bola com bola. Pura poesia. E eu passo
com Daniela... A poesia de vez em quando me assalta, pois como diz
Gullar:
“A poesia é intempestiva. E é coisa que ninguém
controla. Ela vem me acordar no meio da noite e romper sempre a rotina.”
Bianca Dias é psicanalista de Ribeirão Preto- pós
graduada em cultura e estética visual, com um olhar filosófico
sobre o mundo. Escreve no blog
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