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É quando bate o amor

Leonardo Fernandes Paiva

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Nome do Pai

Por Ana Guimarães

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Curiosa-Idade

Amanda Bigonha

Salomão

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DEPOIS DA MORTE
Ana Guimarães

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Em estado bruto

Tere Tavares
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Em estado bruto

Tere Tavare

Sinto um imenso vácuo dentro da cabeça. Como se milhares de zunidos dançassem em meus ouvidos. Uma pequena haste de Heráclito me põe nos lábios um sabor de noite e logo se vai. Porém, sou eu que não vou e me perco no intervalo de um "preciso ir" e um "quero ficar".

Como se possível fosse ocultar-me de mim, num furto dolorido, juntando os olhos e a pele untados de transgressões, mal vestindo o querer mais farta ser do que sou, digo a mim mesma: amanhã, do final para o meio, sabendo o mesmo vácuo que se desprenderá da luminosa perspectiva: o meu caminho mesmo – que de mesmo só tem o ponto que desponta nas raias do sentido – tão estranho e grandiosamente pequenino, mais quando a minha substância é consciente da própria insubstancialidade.

Recolher-se ao que é mais e é tanto

 

À grandeza de não ousar medir, à caça de encontrar-se, continuamente, submerso ou à tona, onde fosse possível pousar os sentidos ou brilhar ao lado de outro lado, como desesperanças que ainda esperam – lendo-as inerentes a sua forma de ver o mundo – ele prosseguia olhando o campo de margaridas ao seu redor, tentando comunicar-se com elas. Nenhuma lhe respondia. Ele fingia não perceber. Chamava-as pelo nome – cada uma tinha o seu – continuavam a não responder. Era como beber uma segunda impressão tão absurdamente vívida à sabedoria dos seus olhos, que sua intenção se abrandava numa linguagem breve e noturna.

Investigou o silêncio das margaridas. Algo acontecia enquanto ele derramava palavras sobre os seus mantos brancos. Os verdes ficavam mais verdes, como se ocupados de uma tintura especial de gotas finíssimas e de quase imperceptível distância. Demonstravam uma indisfarçável inquietação diante de seu estado próprio de mistério. Mas, ao incauto, porém não de todo distraído caminhante, apresentavam-se indubitavelmente serenas.

Um dia escondeu-se no meio delas. E pode, finalmente, ouvi-las: “Ele não veio hoje”. “Que pena”. “Ele é da menina colméia humana, e as pessoas jamais se curam do que as deixa suficientemente grandes para crer, e crer é no mínimo a metade do caminho”. “E se quisermos não ser mais o líquen velado a guardar seus murmúrios?” “Poderíamos pedir-lhe para voltar, em uníssono”. Calaram-se sem vê-lo – pareciam uma tela de Monet. Mostrou-se. Calaram-se por vê-lo – eram aparentemente indiferentes à sua presença.

Ele estava consciente, por fim, que a existência de tudo continuaria apesar da sua, que os matizes inaudíveis das senhoras do mal-me-quer e do bem-me-quer se multiplicariam quer ele despendesse atenções ou não. Enquanto se propunha a abandonar o não-essencial, as impressões, ora reais ora sonhadoras daquele pequeno lugar, reconstruía a necessidade de continuar em busca de algo intrépido, diverso do que julgava comum, mas que fosse indefinidamente repleto do prazer contido na alegria e na dor de relembrar, em cada momento vivido, o deslumbramento de uma certeza que remoçasse em outra dúvida. Prosseguia singularmente resoluto. E de cada sulco do caminho que o ignorava resplandecia um sólido assobio: “Apenas quem está em tremenda confiança tem na coragem a suficiência de não deter as lágrimas”.

Caminhada

Nas minhas horas de não fazer nada é que percebo melhor o quanto me é possível fazer. O não-mister me traz um pouco do que se perdeu no tempo de não ter tido tempo, nem todos os livros para ler. Tenho a ambos, (ainda não todos de que preciso, ou gostaria). Uma história igual a outras muitas deste mundo mal-repartido-por-mãos-humanas. Geograficamente o mundo é perfeito. Não é um dito gracioso. Antes um lampejo de imutável realidade.

Assim dada a pesquisas, depuro o pedaço de reminiscências, caminhando vagarosamente sobre a sombra dos ipês. Ofereço aos ardores do astro-rei o branco da tez, a minha cara de quem procura.
Um pensar traidor assalta-me o fluxo: seres degredados são armas em riste. Intuitivamente, e, antes que meu consciente me diga o que fazer, escondo – sei como – o Ray Ban e o livro na gola da blusa. Olho tudo sem conseguir (ou mal conseguindo) disfarçar a incômoda sensação de medo. Alguns atletas adotados por Ong’s passam por mim. Uma pequena oportunidade de resgate se apresenta, ao menos para estes que correm contra o próprio infortúnio e as consciências aliviadas dos “ongueiros”.

Folhas outonais recobrem a crueza do caminho.As nuvens retornam como se aprovassem a própria sombra.Calmamente, tento retomar a leitura. Quase obtenho sucesso não fosse este pensar: a tão atual e famigerada inclusão, é, por si só, excludente.
Impossível não lembrar Darcy Ribeiro e a “desmemória a fazer de nós um país eternamente inaugural”. É a interminável dicotomia entre o ter e o ser.
Como se dialogasse com alguém que me ouvisse: “Sorry” o desabafo. Sorrindo – juro que estou sem bafo de nada – sou abstêmia. (ou seria besta?). Sinto-me um pouco menos. Uma vez para cada vez que a graça desfere outra graça.

Vazio de não Star


Desenrolar o viço deitado no dorso e dizer-lhe sobre isso antes que escureça. O preceito que traz por dentro a fantasia sábia, o farfalhar calado num pedestal – pequenos e ingênuos vincos – seus pueris pensamentos, completar alguma coisa, tornado-a inteira, perfeita ou imperfeita, porém, tão preciosa quanto encontrar novamente o delicioso esplendor das transparências, de ser-lhe mais uma dançarina.

Tere Tavares, poeta, contista, artista plástica.

Autora de dois livros publicados

“Flor Essência” (2004) e “Meus Outros” (2007).

Seu blog:

http://m-eusoutros.blogspot.com



 

 

 

 

 

Jornalista Ana Lucia Vasconcelos

Web designer-Edson Souza