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A bolsa (e continua caindo)

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Ana Guimarães__________________

São Paulo dos sabiás

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E Quero Frátria

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José Domingos, ou Mingo é um dos meus sete irmãos: éramos oito e ele é o quinto por ordem de chegada. Esta crônica que inaugura até uma seção neste site foi escrita num momento difícil da sua vida: entre a quarta e quinta cirurgia, mais exatamente no Hospital Oswaldo Cruz em São Paulo onde ouvia os sabiás cantando nos jardins que via da sua janela. Depois de uma dura batalha ele está se recuperando e conforme prometi aqui vai o texto. Na verdade os sabiás eram seus companheiros nas longas noites que ele dormia picotado como dizia e seu canto embalava seu sono. Leiam e vejam se o rapaz não é um grande lutador: ele conseguiu uma façanha em minha opinião: escrever uma coisa tão poética num momento tão atribulado. Tiro meu chapéu para ele.


Ana Lúcia Vasconcelos

 

São Paulo dos sabiás
José Domingos Vasconcelos

 

 

A cidade está na época dos sabiás. Nos últimos meses notei lá onde eu moro, no Itaim Bibi, a presença freqüente de alguns sabiás. Não foi a primeira vez, mas fazia meses que eles não eram ouvidos naquelas bandas.
Eu acredito que onde tem bem-te-vi não tem sabiá. Já vi bem-te-vi escorraçar sabiá de um coxinho de restos de frutas, na chácara de um amigo, na Cantareira. Tinha fruta pra todo mundo, mas a natureza crua não tem nada de paraíso. Digo isso porque os bem-te-vis foram donos do pedaço onde moro até algumas semanas atrás. Agora que não tem mais bem-te-vi, lá estão os sabiás.
Já vi bem-te-vi fazer correr carcará, aquele gaviãozinho que fica pairando no alto do rio Tietê, procurando não sei o quê... Pequeno mas umas três ou quatro vezes maior que o bem-te-vi.
Eu olhava pela janela do terceiro andar de um prédio, na Vila Leopoldina, quando vi um bem-te-vi fazer um vôo rasante sobre um carcará, como em uma batalha aérea entre dois caças. Mais ágil e veloz bica a cabeça do gavião e sobe; em seguida outro bem-te-vi já havia feito a mesma manobra para repetir o ataque. Dava pra ouvir os gritos estridentes dos bem-te-vis. Duas ou três investidas dessa e o carcará se rendeu, fugindo dali.
Sem dúvida era um casal de bem-te-vis protegendo seu ninho, instalado em alguma das poucas árvores infiltradas por entre os prédios da região. O fato é que o carcará havia descoberto o ninho, certamente com ovos ou já com as crias nascidas e barulhentas, e tinha planos para elas.


Os bem-te-vis são irritadiços e agressivos, guerreiros e mandões enquanto o sabiá é delicado. É questão de temperamento e não de porte, pois as duas espécies têm quase o mesmo tamanho.
E a cantoria dos sabiás é magnífica, cada um se esmerando em oferecer o melhor trinado aos nossos ouvidos. É claro que não é pra nós que eles cantam tudo faz parte do ritual de acasalamento, me disseram. Só acho que não tem nada de mais pensar que o canto deles existe simplesmente para o nosso deleite.
Mas digo que São Paulo está na época dos sabiás por que já faz uma semana que os ouço em outro ponto da cidade, no alto da Av. Paulista, do quarto do hospital em que convalesço de uma cirurgia. Outra cantoria, outra família, outra tribo de passarinhos. Linda cantoria que começa muito antes do sol nascer.
http://www.cienciamao.if.usp.br/tudo/exibir.php?midia=von&cod=_biologiafaunasabias

Tanto no Itaim como aqui a primeira fase do concerto começa lá pelas duas e meia da madrugada. Às vezes quando estou apenas indo dormir, outras depois de dormir algumas horas, ao acordar em meu sono picotado. Nessa hora eles parecem os únicos seres alegres no meio da noite. Mas sempre acabam embalando meu sono, com sua música que vem de longe e invade o escuro do quarto.
Minha terra tem garoa. Tempestades, enxurradas. Muitos prédios e avenidas. E filas e filas e filas de carros. Minha terra tem pinheiros. Azaléas, gramados e palmeiras. Eucaliptos, helicópteros e Corinthians... onde cantam os sabiás.

 

Mingo
SP, 17/09/2009

 

José Domingos T. Vasconcelos, 59, é professor de Física formado pela USP, com pós-graduação em planejamento energético. Lecionou em várias escolas de São Paulo, capital, entre 1973 e 2007, ajudando a formar várias gerações de jovens. Foi co-autor do livro De Angra a Aramar - os militares a caminho da bomba, publicado em 1987 pelo Centro Ecumênico de Documentação e Informação, e de vários livros didáticos, trabalho a que se dedica hoje, paralelamente à formação de professores na área de Ciências.

 

Para saber mais sobre sabiás
http://www.ao.com.br/m_sabias.htm
Sabiá-laranjeira, ave símbolo do Brasil
http://www.picarelli.com.br/clipping/clip25092003b.htm
Cecília Meirelles falando sobre o bem te vi
http://www.releituras.com/cmeireles_bemtevi.asp

 

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Jornalista Ana Lucia Vasconcelos

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