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Alguns poemas do livro

0 SAL DAS ROSAS

Bárbara Lia

 

PULMÃO DE DEUS

Sussurro suave ao redor, nuvem
de seda embalando astros.
Aqui, onde respira a vida,

perfume de malva, silêncio de córrego
entre pedras. Ar lúcido de luz.


LUZES DE MARFIM

Agora a poesia segue.
É só o que me segue, afinal.
Sentidos de sol.
Primaveras de cerejas.

A tarde tocando teus cabelos
brisa ao redor - teu lábio.
Aquele beijo paterno
na testa menina.

Vôos meus que seguiam borboletas.
As belas horas tatuadas no espírito
liberto do grito inútil.

Fixado no etéreo, os sonhos
flanando quimeras em asas de seda,
o infinito aplaudindo em luzes de marfim


SEGUNDA MORTE

O pelotão avança cascata de passos
Em adágio, botas resvalando relva.

Coração acelera. O homem calvo cobre
Meus olhos. Aguardo o fim.

Lembro negro olhar em chamas, encanto.
Fatal certeza... Morrer? Já morri por ti.


VIOLETAS BRANCAS

Sigo teus passos, feito asteca, sonhando
a terra eterna e rica – tua pele.
Pele dos diários, onde leio a lua.
A maré suave que me enlaça nua,

écharpe de brisa e aurora, corais gris.
Adeus soledade de pedra. Paloma triste
em vôo riste, ao longe.
O deus-do-sol-do-meio-dia, colibri azul

da era atômica, é um sopro de luz e sons.
Sonhos delineados na tela fria.
O mundo sangra e transforma a garça


em íbis rubro. Leio um salmo antigo,
acordo em manhãs violetas. Tenho por companhia
um pequeno vaso de violetas brancas.


ANCORANDO ESTRELAS

Sonhei com Dian Fossey.
Aquela que vivia entre orangotangos.
Comprarei um peixe dourado

e sorrirei para ele
no café da manhã.
Poetas são marinheiros,

a diferença é que seus portos são estrelas
e nunca ancoram
no meu coração – cais.

Aparição sonhada:
Teus olhos negros na soleira.
Seremos dois a sorrir para o peixe dourado.

LI PO & LUA

Sonhei com o abraço de Li Po
& lua.
Pálpebras pós-sonho são serestas
de bambus ao vento.

Pressinto o joio e o trigo e convivo
com as ervas todas.
Mas quando são águas
-Cristalizo.

Sei que algo imortal acontece.
Nasce em solidão no útero divino.
Lua negra-olhar-que-abraça.

Tenho razões para amar Li Po
Fechar a meia-noite negra
com uma cortina de lago.

Li Po braços abertos,
luas todas em estações e séculos
à espera deste abraço.


DEUS NO ORVALHO
(para Jorge Luiz Borges)

Jardim perfumado de Istambul.
Sol intolerável beija a rosa azul
no vaso branco, dois cães cor da lua
ao redor.
Teus olhos se perdem na rosa nua.
Olhos da cor do Mar Cáspio na aurora.
Gota de orvalho baila na pétala.
Cristal.
Ponto no espaço – Aleph
descortina o universo.
Sonhos enxertados de sóis, desertos,
aromas, fauna, primavera, borrascas.
Todo universo na gota clara
que cobre a rosa. A lágrima desce solar
ao lábio carmesim, e o peito arde de amor e luz.

Bárbara Lia é professora de História e escritora. Vive em Curitiba. Livros publicados: O sorriso de Leonardo (Kafka ed. - 2.004), Noir (ed. do autor – 2.006), O sal das rosas (Lumme editor – 2.007), A última chuva (ME – ed. alternativas – MG – 2.007). Solidão Calcinada (Romance) - em fase de edição na Imprensa Oficial do Paraná, através da Secretaria do Estado da Cultura.

 

 

 

 

 

 

 

Jornalista Ana Lucia Vasconcelos

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