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Método
revolucionário de Ana Lúcia Vasconcelos
Terapia
corporal envolve P. O que o senhor chama de terapia corporal? Qual seriam as características de uma terapia corporal? A acupuntura é para o senhor um tipo de terapia corporal? E a yoga? E o do in e outras técnicas de cura? Por favor, compare algumas dessas terapias e detalhe no que seu método é diferente? Eduardo Marchevsky- É preciso fazer uma distinção: uma coisa são técnicas e outra bem diferente são terapias. Não acredito que uma técnica possa esgotar uma função terapêutica já que uma função terapêutica vai além da técnica utilizada como instrumento. A função terapêutica tem a ver com o compromisso do terapeuta, como ele põe em jogo suas sensações, como ele expõe suas emoções. Digamos que o status de terapeuta não se adquire por meio de títulos de médico ou de psicólogo. O terapeuta adquire status quando coloca suas próprias emoções em jogo. Inclusive ele não tem o direito de poder sobre seus pacientes, apenas interpreta o que lê nele. Sua função é deixar-se interpretar por uma situação que é impactante tanto para o paciente como para o terapeuta. Neste sentido dizemos que a interpretação não é algo determinado, dirigido, mas algo que surpreende tanto o paciente quanto o terapeuta. Quando a terapia deixa de ser a aventura de permanentes surpresas e imprevistos não há tratamento, há pacto. Não critico as técnicas, mas os homens que as aplicam, já que a terapia corporal envolve e inclui uma filosofia de vida. Não existe digamos, o desdobramento entre o terapeuta em seu consultório e ele em sua vida social. Ele deve ser simples, sem máscara, sensível e humilde em todas as horas. E isso implica que ele promova suas sensações ao mesmo tempo que promove as sensações do paciente. É do desencaixe das sensações do terapeuta e do paciente que se movimenta o tratamento. Penso que é exatamente em cima dessas descontinuidades, dessas diferenças, desses contrastes que a terapia se baseia. Geralmente o paciente traz um sintoma para que alguém tome conta dele. Sintoma
é conflito
E.M. - Exatamente, porque o sintoma é a forma pela qual se corporifica um determinado conflito por ser insuportável e desconhecido. Em outras palavras, quando alguma coisa que se desconhece, um conflito fica insuportável, ele se expressa através de um sintoma corporal. Se o terapeuta fica complacente e busca ele mesmo tomar o sintoma do paciente para seduzi-lo, retê-lo, ele entra em cumplicidade com o paciente onde nenhum dos dois joga suas autênticas sensações, suas verdadeiras sensações, entrando ao contrário, num jogo de fascínio, de fantasia, de magia e onde não é possível haver efeitos terapêuticos. Para que haja efeitos terapêuticos a paciente precisa, ele mesmo assumir-se como sintoma. Se ele se assume como sintoma vai poder se encontrar com aquele desconhecido que está subjacente ao sintoma. Para isso precisamos de terapeutas que não entrem em cumplicidade, que suportem o fato de não saber o que se passa no outro, que possam propor um trabalho de investigação, de pesquisa, e não diagnósticos que sirvam para classificar o paciente, baixando o nível de angústia do não saber do terapeuta. É preciso dizer a verdade, propor um trabalho de pesquisa, entrar na aventura do tratamento. Por isso, seja a acupuntura, seja do in, seja shiatsu, seja MPS, se as técnicas não utilizam de uma determinada filosofia de trabalho que se sustente no compromisso com as próprias sensações, não é uma terapia. Abordagem
corporal
E.M.- A MPS é uma técnica de abordagem corporal com orientação psicanalítica para tratar alterações musculo-esqueléticas, reumatológicas e neurológicas e do sistema postural. Cheguei a ele depois de alguns anos atuando como médico alopata e psicanalista e constatando que os remédios não faziam efeito e principalmente porque a medicina ortodoxa não via a pessoa como ser integral. Via apenas o seu físico, ignorando seu lado emocional e os conflitos que aparecem como sintomas corporais. E fui então pesquisando e experimentado e estou nisso há mais vinte anos, mas não creio que tenha criado a terapia. Apenas encontrei através da pesquisa e continuo encontrando coisas novas porque não parei de investigar. P.- Sim, mas houve um momento de ruptura em que o senhor resolveu testar seu próprio método. Como ocorreu isso? E.M. - Comecei a trabalhar com pacientes com terapia corporal e fui propondo que eles tivessem um papel ativo ao mesmo tempo que ia desenvolvendo técnicas não invasoras ou seja, aquelas em que se respeita o tempo do paciente. Isso porque considero algumas técnicas invasoras e homeostáticas que não permitem que o paciente assuma seu sintoma. Em seguida integrei a psicanálise ao trabalho e a verbalização das sensações corporais que afloram com o MPS. Digamos que quebramos um velho preconceito que diz que a psicanálise não toca o paciente, ao mesmo tempo que as terapias corporais não trabalham com verbalização.
P.-E
seu trabalho consiste então exatamente em fazer o paciente
tomar consciência desse desconhecido fazendo-o verbalizar
as sensações que sente ao ser tocado em determinados
pontos, e tornando portanto conhecido o conflito?
E.M. - Porque o toque pode ser homeostático, ou seja, aquilo que o paciente precisa para se iludir e não assumir seu sintoma , pode ser apenas um relaxamento comum, sem nenhum tipo de elaboração, de reconhecimento do que acontece no trabalho corporal. P.- E o que chama de exacorpo? O que é exatamente?
P.-Outros dois termos usados pelo senhor são: esquema corporal e corporeidade. Poderia definí-los, por favor. E.M. - Tudo o que torna o corpo rígido, armado, estagnado, esquematizado é sintoma. Por conseguinte falar de um esquema corporal é falar dentro de um campo sintomal, já que não podemos encapsular a corporeidade como esquema. Assim corporeidade para mim são estalidos de sensações difusas e instáveis ao infinito que se materializam em forma corpórea. O corpo é um processo dinâmico que muda a cada segundo, ou cada fração de segundo. É aquilo que Heráclito disse: eu não entro duas vezes no mesmo rio por que o rio mudou e eu também. Meu corpo é diferente a cada minuto. Inclusive quando, através de um sintoma o corpo parece ser o mesmo podemos comprovar que, ao contrário, cada vez vai haver diferentes modos de expressar o mesmo sintoma. P.- Qual seria então o objetivo desta sua metodologia de abordagem corporal e psicanalítica, através da técnica MPS? E.M. Que as pessoas se conhecendo a si mesmas e conhecendo as diferentes facetas da sua personalidade possam suportar-se a si mesmas nos momentos de fantasia, de desamparo ou solidão para poder gozar intensamente os momentos de prazer e felicidade. O que ocorre em geral é que, para tapar as sensações de solidão, instabilidade, insegurança, nós nos colocamos num plano de fantasia para fugir. Mas fazendo isso, não sabemos que também perdemos a essência sensivel de vivenciar os momentos prazerosos. Em síntese, não se pode baixar a cortina às sensações insuportáveis e deixá-la aberta para as sensações prazerosas, porque quando a pessoa se torna insensível a uma coisa, ela fica insensível para tudo. Não se pode reprimir uma sensação sem reprimir outra. Assim quando ela reprime qualquer coisa ela reprime nada menos que o mundo sensível. O efeito terapêutico é que o paciente fique dono de suas sensações e as vivencie, sejam elas agradáveis ou não. É preciso, por exemplo, aprender a gozar a própria solidão. P-. Gostaria que contasse suas experiências com esta técnica, que tipo de doenças tinham os pacientes que o senhor tratou com a MPS? E.M. - Eram pacientes com artrite reumatóide que frearam seus processos de enfermidade. P.- E que outras patologias podem ser tratadas com a MPS? E.M. - Atualmente minha mulher, Maria Del Carmem Gracia, que é médica psicomotricista e fonoaudióloga, além de psicanalista está desenvolvendo pesquisas em neurologia e obtendo resultados revolucionários em hemiplégicos e afásicos (pessoas com distorções de linguagem) conseguindo a recuperação da motricidade e da sensibilidade em casos considerados irrecuperáveis pela medicina ortodoxa. Assim também se tem obtido a recuperação da fala em afásicos através do trabalho corporal. Eu particularmente tenho trabalhado em sistemas posturais no qual me especializei e enfermidades musculo-esqueléticas como miopatias com excelentes resultados. Em todos os casos tenho conseguido frear o processo de auto destrutividade. P.- Sei que o senhor tem participado de vários congressos no Brasil e tem aqui vários discípulos trabalhando com sua metodologia em São Paulo e Campinas. Por que escolheu o Brasil para divulgar seu trabalho? E.M. - Na verdade não escolhi deliberadamente, apenas vim para cá em 1985 do 1o. Congresso Internacional do Corpo no Rio de Janeiro onde apresentei meu trabalho. Aí as coisas foram acontecendo. Comecei a realizar palestras. De qualquer forma, tinha a idéia que aqui no Brasil as pessoas são mais abertas no diz respeito ao corpo, mais receptivas a idéias novas e de fato ao longo desses anos comprovei isso. Além disso, existe aquela velha lenda segundo a qual ninguém é profeta em sua própria terra.
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Jornalista Ana Lucia Vasconcelos Web designer-Edson Souza
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