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Desconhecidos peça de Dionísio Neto:
uma peça dentro da peça

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O teatro, esta arte hibrida


Ana Lúcia Vasconcelos


O teatro como todas as artes, não é fruto do acaso, mas é expressão do homem, ser humano vivendo no mundo, numa sociedade, numa comunidade, num grupo. Ou seja, a arte em geral, a mais alta expressão de emoções e sentimentos sob variadas formas: pintura, escultura, musica, dança, literatura, teatro, nasce da vivencia do artista em contato com a vida, com as relações sociais, políticas, econômicas da sociedade em que vive num determinado momento histórico. Ou seja, a obra de arte está estreitamente vinculada ao tempo-espaço no qual se origina.
O artista, portanto, é um alquimista, aquele ser diferenciado que vê o que os outros, os não artistas, não vêm, e consegue, graças ao seu talento, dom, transformar no seu cadinho interior, processar no seu cérebro, corpo, alma, espírito, aquelas idéias, sensações, emoções, sentimentos e transformá-los em obras de arte que serão mostradas aos outros homens, já que a obra de arte tem por fim ser usufruída vista vivenciada pelo espectador. O espectador da arte seja de uma obra pictórica, uma obra musical, uma obra teatral, ou um espetáculo de dança, não fica imune a ela, ao contrário é tocado por ela, transformado mesmo por elas, para o bem ou para o mal.
E ainda: uma obra de arte é de tal forma impregnada de significados, signos, símbolos, que pode inclusive ter diferentes interpretações dependendo do olhar que a vê. Ou seja, há um movimento constante, um dinamismo contínuo entre o artista que vê o mundo e o transforma em obra de arte e o espectador, que vê a obra de arte, é transformado por ela e responde com outras tantas questões que serão por sua vez novamente processadas pelo artista e transformadas em novas obras de arte.
Assim, se olharmos a história da humanidade vamos perceber que a cada momento histórico, sócio político-econômico correspondem determinados movimentos artístico-culturais, determinadas formas de expressão, diferentes estilos, que foram, digamos, catalogados a posteriori pelos críticos e historiadores da arte , de maneira que é possível discernirmos as transformações operadas nas diferentes civilizações do planeta pelo estudo das obras de arte produzidas por seus artistas.

A arte surgiu quando?

E a arte surgiu quando? Quando surgiram os primeiros artistas? Os historiadores dizem que a arte é tão antiga quanto o homem, quer dizer, ela existe desde que o homem existe e isso podemos comprovar estudando as várias eras históricas. O homem primitivo deixou marcada sua presença nas pinturas rupestres e monumentos, que podem ser vistas ainda hoje nas cavernas e campos da Europa. Ele retratava o que via com os materiais disponíveis: animais, touros, com tintas que conseguia na natureza, barro cozido, pedras. Foi assim que deixou monumentos-os dolmens e os menhires, as navetas, que justamente perduram até hoje porque foram construídas em pedras, e que contraditoriamente, do que se poderia imaginar, já que foram confeccionadas por homens primitivos, rudes, são absolutamente modernos, contemporâneos na sua simplicidade esquemática.
Assim, ao longo da história o homem vai deixando sua marca, sua impressão digital. Por que, poderíamos perguntar? Porque queremos que nossos pósteros saibam que existimos, queremos comungar com o outro, seja nosso contemporâneo ou não, queremos nos comunicar, já que nossa individualidade não nos basta, precisamos do outro para compartilhar nossas alegrias e dores, nossas angústias, nosso trabalho, enfim nossa vida.



“Porque o homem quer”, diz o poeta, escritor, filósofo e jornalista austríaco Ernst Fischer, no seu livro A Necessidade da Arte (Zahar Editores, 1966, SP), “ser mais que ele mesmo-quer ser um homem total. Não lhe basta ser um individuo separado, ele anseia por plenitude. Plenitude na direção da qual se orienta quando busca um mundo mais compreensível e mais justo, um mundo que tenha significação”.
Porque exatamente ele se rebela contra o fato de sua vida ter de se consumir apenas no âmbito particular de sua vida pessoal. Porque ele quer relacionar-se com alguma coisa mais que o seu Eu, alguma coisa que sendo exterior a ele, não deixa de lhe ser essencial. Por que o homem anseia por absorver o mundo circundante, integrá-lo a si, anseia por estender pela ciência e pela tecnologia o seu Eu curioso e faminto de mundo até as mais remotas constelações e até os mais profundos segredos do átomo. Enfim, “ele anseia por unir, na arte, o seu Eu limitado com uma existência humana coletiva e por tornar social a sua individualidade.”
E não apenas isso, ao mesmo tempo em que ele quer se perder e tornar-se um com o Todo, que seria afinal como que um embriagamento dionisíaco, que, aliás, está na origem do teatro-nascido dos rituais pagãos ligados à colheita da uva, dos rituais de primavera, dos rituais em honra ao Deus Dioniso, o Baco dos romanos, mas conteria ainda, segundo Fischer um elemento apolíneo - aqui a gente precisaria falar dos elementos que compõem o teatro na visão de Aristóteles-o elemento dionisíaco e o elemento apolíneo que vem de Dioniso e Apolo, o deus do equilíbrio das formas.
Ou seja, para Fischer o observador não se identifica com o que está sendo representado e até se distancia. Escapa através da arte, do poder direto com que a realidade o subjuga, libertando-se, através da apresentação do real, do esmagamento que esta mesma realidade cotidiana realiza nele. Em outras palavras, e porisso ela é tão importante, a arte conteria esta dualidade: de um lado a absorção na realidade, e de outro a vontade de controlá-la, ou transformá-la. Daí que Ernst Fischer pede que não nos iludamos quanto a isso: o trabalho do artista é um processo altamente consciente, processo que afinal resulta na obra de arte como realidade dominada e não, de modo algum, como um estado de inspiração embriagante.
Para conseguir ser um artista, e todos nós aqui confirmamos isso, é preciso muito mais do que momentos inspirados: é preciso transformar a experiência em memória, a memória em expressão, a matéria em forma. Daí que apenas a emoção não é tudo para um artista: para transmitir a emoção, sensações, sentimentos que capta do mundo, o artista precisa saber tratar a emoção, trabalhá-la. Precisa conhecer todas as regras, técnicas, recursos, formas e convenções com que a natureza pode ser dominada. Ou seja, como completa Fischer: “o artista não é possuído pela besta-fera, mas ele a doma”.

O teatro
esta arte híbrida

E aqui entramos no nosso tema propriamente dito: o teatro é uma arte complexa, uma arte híbrida porque composta de outras artes. Vejamos: o teatro tal como o conhecemos hoje-não vamos falar de como cada elemento foi sendo incorporado e desenvolvido-é composto de várias outras artes. O drama que pertence ao domínio da literatura; a arte da interpretação, da representação propriamente dita, que seria afinal o sumo do teatro que tem no ator sua figura primordial. Enquanto nas outras artes o artista utiliza um instrumento-na musica, o piano, o violino, o atabaque, a flauta, o teclado, etc., nas artes plásticas o pigmento, na escultura, argila, madeira, pedra, etc., no teatro, como na dança, o instrumento do ator é seu corpo, que ele precisa manter afinado.



Mas enquanto o dançarino precisa apenas do seu corpo, o ator precisa também de seu aparato vocal. Assim ele tem que estudar dicção e impostação, canto e dança. Enfim, precisa saber articular as palavras do texto de forma a ser entendido pela platéia. E mais, precisa trabalhar o corpo, a expressão corporal, já que não só de falas vive o teatro, mas de todo o gestual: o ator fala com as mãos, com os olhos, com todo o seu corpo.
Além disso, o teatro ainda é composto de outras artes: os cenários que pertencem ao reino da arquitetura e pintura, os figurinos que pertencem à arte da indumentária, e a luz que pertence à arte da iluminação, com suas regras próprias e hoje com todo um aparato tecnológico jamais visto em outras épocas; a musica que não entra apenas como complemento, como suporte da ação, mas participa da própria arte como um todo, dando-lhe seu substrato.
E mais: o tempo e o tom, o andamento, o ritmo são linguagens, tanto quando a palavra no teatro, e às vezes um é mais importante que o outro, para transmitir a idéia. Stark Young famoso crítico de teatro inglês, no seu clássico O Teatro, da Zahar Editores, exemplifica este ponto dizendo que a simples palavra não, não significa apenas uma negação ou recusa, mas por meio do tempo e do tom vocal, podem ter outras significações.
Assim quando um personagem pergunta: “Tem certeza que ele é culpado?” O outro responde não imediatamente, ou cinqüenta segundos depois numa entonação aguda, ou um minuto após a pergunta num tom enraivecido, e assim por diante, ele está dizendo coisas diferentes, das quais a palavra não compõe apenas uma pequena parcela. O que leva nos leva a concluir que as gradações e os valores do som no teatro são a seu modo, tão infinitos quanto a música, e que o silêncio tanto quanto a palavra também fala no teatro.
E finalmente temos a figura importante, fundamental, do diretor, que é o condutor, o que vai extrair do texto suas idéias chaves e levar os atores expressá-las de forma fiel, não apenas às idéias do dramaturgo, mas à sua concepção específica daquele espetáculo. Ou ainda, é o diretor que vai conduzir os atores, cenógrafos, figurinistas, iluminadores, músicos numa criação coletiva que é sintetizada num texto por um dramaturgo.
E tudo isso é preciso esclarecer, todas essas artes: o drama, a arquitetura, a pintura, a indumentária, a musica, a iluminação, a maquiagem, o penteado, não podem existir sozinhas no teatro. Cada uma delas tem que se tornar teatral, ou permanece um corpo estranho. Ou seja, todas essas artes têm que ser transpostas para termos teatrais, todas tem que servir ao clima dramático da peça-aquela ótica do teatro especial, que faz desta arte o que ela é: uma arte única.

Realidades que
representam outras realidades

Os estudiosos dos signos teatrais dizem que todas as realidades da cena: o texto do autor, a atuação do ator, a iluminação, os cenários, os figurinos, a musica, os ruídos, a maquiagem, o penteado, os acessórios são realidades que representam outras realidades. Uma manifestação teatral é, portanto um conjunto de signos. “A arte teatral, diz o autor do artigo A Mobilidade dos Signos Teatrais, Jindrich Honzl, que é um dos quatro que compõem o livro O Signo no Teatro-A Semiologia Aplicada à Arte Dramática, (Editora Globo, 1977, Porto Alegre)” é uma arte de representação. O ator representa um personagem, a cena representa o local da ação, a luz branca representa o dia, a luz azul a noite, a música representa um acontecimento e assim por diante.”.
“Em outras palavras não faz diferença o fato da cena ser parte de uma construção, ser parte do Teatro Nacional, ou um campo limitado por um bosque, ou ainda algumas tábuas colocadas sobre barris, ou um canto da praça do mercado, rodeado por espectadores. O que importa é que a cena do Teatro Nacional possa representar um campo, ou um campo de um teatro rural possa representar uma praça, ou o canto da praça do mercado ocupado pelo teatro, represente o interior de um albergue: isso é teatro”.
E a mobilidade dos signos teatrais é tal que as experiências de vanguarda feitas no mundo tem provado isso. Por exemplo, as experiências cubo-fururistas realizadas na Alemanha, na Rússia, liberaram a cena, os cenários das suas funções, de forma que a cena podia ser criada em qualquer lugar, não apenas no teatro ou no palco. Da mesma forma os cenários não eram armações recobertas de telas pintadas. Os vanguardistas alemães usaram numa montagem de Shakespeare, uma ogiva gótica representando uma igreja, armas inglesas numa cortina de seda para designar a sala de armas do palácio, chão verde para significar um campo de batalha.
Outros diretores usaram o ator fazendo a função de cenário e temos exemplos disso nas montagens polonesas onde um ator-oceano aparece caracterizado de modo neutro-vestido de azul invisível e o rosto coberto por uma máscara azul, agitando um véu azul esverdeado preso no chão a seu lado e as ondulações deste véu sugerindo as ondas do mar. Ou então o ator-móvel-dois atores vestidos de modo invisível se ajoelham na frente do outro segurando as quatro pontas de uma toalha retangular ou ainda ao lado de um ator que faz o papel de capitão outro ator vestido de azul segura um cabo de uma sirena de navio, esperando que o capitão o abaixe para assinalar sua passagem pelos outros navios.
Há outros exemplos: atores sugerindo tempestade de neve, graças a diversas trucagens e isso tem influencia do teatro chinês e japonês. O teatro chinês possui uma cena rudimentar e as indicações espaciais são transpostas para outros elementos de cena. Vejamos: um personagem abandona o castelo sitiado. Ele caminha para frente do palco. De repente surge o cenário de fundo que representa a porta do castelo em tamanho natural. Um segundo cenário aparece: a porta é menor, o que significa que o ator se distanciou. Ele prossegue seu caminho. Sobre um pano de fundo cai uma cortina verde-escura. Ele perdeu de vista o castelo.
No teatro japonês igualmente não é necessário que um espaço seja indicado por um espaço, um som por um som, uma luz por uma luz. Podemos ver sons, ouvir um imenso campo, e a simples percepção do traje de um ator pode nos informar o que no teatro europeu ficaríamos sabendo por meio de palavras.
E não é só no teatro japonês ou chinês ou polonês ou alemão que se fazem experiência deste tipo. Aqui bem perto de nós diretores como Antunes Filho e Gerald Thomas e outros experimentam no teatro. Quem viu o espetáculo Nelson Rodrigues Eterno Retorno, um espetáculo de Antunes Filho sobre várias peças de Nelson Rodrigues, deve se lembrar que ele usava um palco nu e sete cadeiras e uma dezena de atores maravilhosos e o resultado era deslumbrante.

 

Afinal o que está no fundo
da vontade de representar

Agora por que fazer teatro? Para que os amantes do teatro querem fazer teatro? Qual seria a finalidade ou função do teatro e toda arte? Bem resumido, que esta é uma questão complicada, vou citar apenas duas concepções de tres famosos escritores, críticos, criadores de teatro e literatura.
No prefácio do livro O Teatro e sua Realidade, de Bernard Dort, o ator e diretor brasileiro Fernando Peixoto, que participou de momentos importantes da história do teatro nacional como a montagem de O Rei da Vela, de Oswald de Andrade-que foi um marco na história do teatro brasileiro, dirigida pelo José Celso Martinez Corrêa, criador do famoso Teatro Oficina na década de 60, especialista em Brecht, cita uma frase do Julien Beck criador do Living Theatre famoso grupo de vanguarda que foi moda nas décadas de 60 e 70 que é a seguinte.: “Teatro é vida”, enquanto Dort, repetindo Brecht afirmou: “Teatro não é vida, é representação, não se confunde com a vida, possui sua realidade específica e seu objetivo é fazer o espectador, depois, intervir na vida”.

Sobre o mesmo assunto, Jean Paul Sartre, famoso escritor francês, criador do existencialismo, assim se expressou sobre a finalidade do teatro: “Todos nós sabemos que o mundo muda que transforma o homem e que o homem transforma o mundo. E se não for este o tema profundo de toda peça de teatro, então é porque o teatro não tem mais tema.”
Enfim é isso: o teatro como todas as artes tem esta dupla finalidade ou contém em si essa dualidade: fazer o espectador mergulhar numa realidade entre aspas fictícia, para que, se perdendo nela, se purifique de suas emoções, sentimentos, realize a catarsis como queria Aristóteles, para retomar seu equilíbrio e mudar, não apenas, sua vida, mas a vida da comunidade em que está inserido. Se não for esta a finalidade do teatro: nos transformar para transformarmos o mundo, então ele não está cumprindo sua função, na minha opinião.

 

 

 

 

 

 

 

 

Jornalista Ana Lucia Vasconcelos

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